Manuel Maria Barbosa du Bocage retratado por Joaquim Pedro de Souza, no final do séc. XIX

Poderia afirmar-se que o interesse desta história para os habitantes da região do Médio Tejo começa na Quinta do Valle da Louza, em Sardoal, por pertencer ao Dr. Manoel Constâncio – que dá hoje o nome ao hospital de Abrantes –, nomeado em 1786 como cirurgião da Casa Real, tendo sido médico de três reis: D. José, D. Maria I e D. João VI. Mas, além do óbvio interesse pela vida desta figura, Manoel Constâncio terá recebido por temporadas na sua quinta o poeta Manuel Maria du Bocage, grande amigo dos seus três filhos, e a sua filha, Maria Margarida Rita Constâncio, será a “Marília” e “Ritália” dos poemas de amor que escreveu, e que alguns estudiosos dizem ter sido a grande paixão de Bocage e sua musa inspiradora.

Quando se conheceram, Maria Margarida Constâncio teria 14 anos, Bocage 32 – e esse amor jamais foi consentido por Manoel Constâncio. Margarida viria a casar com o Capitão Brás da Silva Consolado, importante figura de Abrantes, e ali viveu grande parte da sua vida. Bocage morreu sozinho aos 40 anos e os seus restos mortais foram parar a uma vala comum.

Para falar da estreita ligação do poeta à família Constâncio de Abrantes, o historiador Carlos Bobone esteve a 24 de setembro na Quinta de Santa Bárbara, em Constância, em mais uma palestra organizada pela Academia Tubuciana de Abrantes.

Quinta do Valle da Louza, em Sardoal, onde o poeta Bocage se refugiou várias vezes. Créditos: DR

Sendo possuidor de um arquivo que pertenceu à família Constâncio, adquirido por força da sua profissão, explicou ao auditório que tal “como a maior parte dos arquivos de família, este arquivo da família Constâncio não é propriamente um arquivo literário”. São sobretudo “documentos que dizem respeito a contas, a questões económicas, rendas que tinham a receber. Há uma pequena parte literária, cento e poucos documentos, que são poesias escritas por várias mãos, com letras muito diferentes umas das outras, de épocas variadas, algumas são cópias, outras são originais. Por isso, não é um arquivo que tenha relação direta com Bocage. Não há nenhum poema inédito, não há correspondência direta com Bocage”, diz. “Há uma parte de correspondência de família mas começa em 1815”, ou seja dez anos após a morte do poeta.

Ainda assim “esta correspondência, e também o conjunto de poemas que tinham na sua posse, dá-nos a conhecer melhor as personalidades dos membros desta família, e mostram também a influência que Bocage exerceu sobre a família”, refere o historiador.

“Há uma influência mútua: a família Constâncio tem influência sobre a vida e obra de Bocage, é das famílias que tem com ele mais relações comprovadas. Na obra de Bocage há muitos poemas dedicados a amigos seus, mas há poucas famílias, que se saiba, que tiveram relações continuadas, e de vários membros de uma mesma família”.

Segundo Carlos Bobone, apenas duas famílias tiveram relações com Bocage: a família Bressane Leite e a família Constâncio.

Palestra dinamizada pela Academia Tubuciana de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

No mundo literário o nome Constâncio começou por isso a ser associado ao nome de Bocage e, ao longo dos anos, veio a ter cada vez mais importância, a ter relevância na obra de Bocage, “e esse movimento ainda não está terminado, porque cada vez que sai uma nova edição da obra de Bocage, a família Constâncio tem um papel cada vez maior. A primeira pessoa que aparece associada a Bocage é Pedro José Constâncio”, refere o historiador.

Nas obras de Bocage publicadas em vida, consta em dois sonetos. “E há também um soneto em que Bocage fala dos amigos que o tinham apoiado na sua doença, e um deles é Pedro José Constâncio”.

Logo a seguir à morte do poeta, um grupo de amigos publicou um livro em sua homenagem, com várias composições poéticas, e “nesse livro também já aparecem dois poemas de Pedro José Constâncio”.

Uns anos mais tarde, o velho inimigo de Bocage, José Agostinho de Macedo, publica um livro de crítica ao último volume das obras do poeta e nele diz “que tem em sua posse alguns documentos de Bocage e sabe que o editor de Bocage publicou pelo menos um poema que não é seu, mas de Pedro José Constâncio. Por isso, aos poucos vai-se acentuando o lugar de Pedro José Constâncio na obra de Bocage”, explica.

Mas só em 1854 o seu nome fica definitivamente ligado à obra de Bocage. “Nesse ano, um grande investigador, Inocêncio Francisco da Silva, autor do Dicionário Bibliográfico Português, publica as ‘Poesias Eróticas, Satíricas de Burlescas’ de Bocage” e, “numa nota de pé de página, diz que uma parte das composições poéticas que estão nesse livro encontrou-as 30 anos antes num caderno onde estavam indistintamente redigidas poesias de Bocage e de Pedro José Constâncio. Mas como não as conseguia distinguir, até porque tinham estilos muito parecidos, ele publicava tudo, incluía todos esses poemas na obra de Bocage, embora sabendo que alguns seriam, indiscutivelmente, de Pedro José Constâncio”.

Painel em azulejo existem no Hospital de Abrantes. Créditos: DR

O Dr. Manoel Constâncio (1726 -1817) exerceu a sua atividade de anatomista e cirurgião ao longo da segunda metade do século XVIII e primeiros anos do século XIX. E morreu numa condição social muito diferente daquela em que tinha nascido.

De origem humilde, órfão aos 12 anos e com mais seis irmãos, iniciou-se, por necessidade de angariar sustento, como ajudante de barbeiro no Sardoal e, acompanhando o seu mestre, passou a ajudante de sangrador em Abrantes. Os barbeiros-sangradores eram uma categoria de profissão que fazia a prática terapêutica da sangria, um recurso amplamente usado à época.

As suas capacidades intelectuais e vontade de aprender chegaram ao conhecimento do Marquês de Abrantes, que o levou para Lisboa e o entregou ao cuidado de seu cunhado, o segundo Marquês de Portimão, D. Pedro de Lencastre. Em 1750, já em Lisboa, é-lhe permitido frequentar o Hospital de Todos-os-Santos, onde depois de obter a carta de sangrador, em 1754, passou a praticante de cirurgia.

Quatro anos mais tarde, tendo terminado os seus estudos, obteve a carta de cirurgião e tornou-se discípulo de Dafau, professor de nacionalidade francesa, trazido para Lisboa anos antes pelo Marquês de Pombal, com vista à restauração do ensino da Anatomia. Quando Dufau se reformou, recomendou que o seu lugar fosse ocupado por Manoel Constâncio, que se tornou assim o primeiro professor português a ocupar a Cadeira de Anatomia.

Mais tarde viria a servir como cirurgião-ajudante no Exército e, pela sua reputação clínica, foi nomeado em 1786 como cirurgião da Casa Real e, pouco depois, cirurgião da Real Câmara. Recebeu ainda o título de escudeiro e cavaleiro fidalgo, em 1789.

Aposentou-se em 1805, tendo-se recolhido na Quinta do Valle da Louza, em Sardoal, onde residiu até à sua morte, aos 91 anos, sendo sepultado na capela desta propriedade.

O historiador Carlos Bobone durante a palestra. Créditos: mediotejo.net

Conta Carlos Bobone que “o Dr. Manoel Constâncio casou tarde, já perto dos 50 anos, teve quatro filhos, três rapazes e uma rapariga, que foram pessoas com personalidades notáveis, bem vincadas. Os rapazes não tiveram boas relações com o pai, eram homens com inclinações literárias e todos foram amigos de Bocage e frequentadores das tertúlias bocagianas. Sobretudo de um grupo que se reunia no Botequim das Parras, no Rossio (Lisboa), frequentado por intelectuais”.

Apesar de hoje ser mais conhecido o Nicola, também muito frequentado por Bocage, segundo Carlos Bobone “nessa época era muito conhecido o Botequim das Parras, de um homem chamado José Pedro da Silva, também conhecido como José Pedro das luminárias, porque na época das Invasões Francesas tinha o hábito de enfeitar a entrada do seu botequim com luzes, e fazia-o sempre que havia motivos para os portugueses estarem alegres”.

Esse botequim tinha uma sala onde se reunia o grupo de Bocage, intelectuais daquela época, quase todos inimigos de José Agostinho de Macedo, padre e escritor português do final do século XVIII e princípio do século XIX. “Teve várias polémicas com Bocage e o grupo do Botequim das Parras alinhava contra o José Agostinho de Macedo. Os irmãos Constâncio também foram grandes inimigos de José Agostinho de Macedo, mas parece que antes de serem inimigos foram alunos dele”, esclarece o historiador.

O filho mais velho de Manoel Constâncio foi Francisco Solano Constâncio, médico como o pai, mas com mais inclinação para as Letras do que para a Medicina. Cedo foi estudar para a Escócia, integrou um grupo de estudantes portugueses com uma bolsa para estudar Medicina naquele país. Por lá, apaixonou-se pela literatura inglesa e antes dos 20 anos publicou em revistas literárias de terror, uma literatura que estava na moda em finais do século XVIII. Criou a revista ‘The Ghost’, publicada em inglês ,e duas outras do mesmo género, em francês.

Voltou a Portugal, onde exerceu durante algum tempo a profissão de médico, frequentava o Botequim das Parras e tinha simpatias maçónicas. Um dos seus principais amigos era o padre José Fortelli, membro da Loja Fortaleza a que pertencia Bocage. Francisco Constâncio era jacobino, por isso na época das Invasões Francesas foi muito vigiado pelo governo e acabou por sair de Portugal. Em 1807 foi viver para França, passando o resto da sua vida entre França e Inglaterra.

Durante o século XIX Francisco Solano Constâncio “foi o mais conhecido dos irmãos”, refere Carlos Bobone. “Tem uma obra vasta e variada. Além de médico e editor de revistas literárias, foi economista, tradutor de obras importantes, autor de gramáticas e de um dicionário importante, político, diplomata, embaixador de Portugal em Washington, foi deputado eleito às cortes constituintes de 1837… Coisa notável porque tinha estado mais de 30 anos fora de Portugal e mesmo assim foi eleito”, observa Carlos Bobone. Foi ainda um dos poucos portugueses citados nas obras de Karl Marx, “graças às suas traduções de economistas”, acrescenta. Morreu em Paris em 1846 “um pouco esquecido”.

O segundo filho foi Joaquim Manoel Constâncio, também ele um homem de inclinações literárias, embora não tenha deixado nenhuma obra publicada, era poeta amador. “Foi dos quatro irmãos aquele que teve uma vida mais regular, ou seja, casou teve filhos, teve um percurso profissional como secretário do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Também era frequentador do Botequim das Parras e, segundo um seu bisneto, Augusto Correia de Castro, foi quem teve as relações mais estreitas com Bocage. Teria sido, segundo este autor, quem convidou Bocage a passar umas temporadas na Quinta de Valle da Louza. “Tenho algumas dúvidas sobre estas afirmações”, diz Carlos Bobone.

Joaquim Constâncio deixou muitos poemas “bastante medíocres”, na opinião do historiador, mas que “têm o interesse de ver a influência de Bocage sobre a família e modo de pensar dos Constâncio”, explica.

Painel de azulejos existente na Quinta do Valle da Louza. Créditos: DR

O terceiro filho de Manoel Constâncio é o mais conhecido atualmente: Pedro José Constâncio. “Um caso curioso de um poeta que não tem obra publicada. Não há nenhum livro de poesia dele e é através da obra de Bocage que se conhecem alguns poemas, na maior parte obscenos, apesar de ser um homem que estudou na Universidade de Coimbra. Não teve uma carreira profissional, viveu sempre em casa do pai, embora tivesse com este más relações”.

Quando Manoel Constâncio foi viver na Quinta do Valle da Louza, Pedro continuou a viver em Lisboa, na casa da Rua do Loreto. Morreu em 1818, deixando toda a sua herança ao amigo Pedro Gomes de Abreu.

A filha mais nova, Maria Margarida Rita Constâncio, nasceu em Lisboa em 1783, e é apontada como a inspiradora dos poemas de Bocage. “Vários autores, a maior parte dos biógrafos de Bocage, dizem que foi a Marília referida em vários poemas”, refere Carlos Bobone. Teve uma vida “muito mais regular” que os seus irmãos. Casou com em 1811, em Abrantes, com o Capitão Brás da Silva Consolado, um tendeiro.

O historiador Carlos Bobone durante a palestra. Créditos: mediotejo.net

Esse casamento provocou grande fúria nos irmãos. “Vejam como é a vaidade nobiliárquica: eram fidalgos de fresca data, no entanto sentiram-se muito ofendidos pela irmã casar com um homem que tinha a profissão de tendeiro, se bem que tivesse sido capitão no tempo das Invasões Francesas. Acharam que era a degradação total da família ter um cunhado tendeiro”, observa o historiador.

Nessa época, os irmãos Constâncio escreveram poemas muito violentos contra o tendeiro, salientando a baixeza da sua origem e a baixeza da sua profissão. Salientaram que estava a querer promover-se socialmente casando com uma fidalga. “E nesses poemas também criticavam a senilidade do pai, que se deixava enganar pelo tendeiro e que degradava a filha reduzindo-a ao nível de tendeira”, conta Carlos Bobone.

No entanto, Brás da Silva Consolado mostrou-se um excelente gestor do património familiar. “Há muitas cartas dele no arquivo Constâncio. Joaquim Manoel acabou por ter boas relações com Brás e com a irmã Margarida, que acabou favorecida pela herança do pai, que lhe deixou a sua terça e a Quinta de Valle da Louza, onde vivia”, acrescenta Bobone.

Maria Margarida viveu a maior parte da sua vida em Abrantes, mas “foi uma pessoa de saúde frágil. Nas cartas de Brás da Silva Consolado fala-se muito dos seus problemas de saúde”. Morreu a 1 de maio de 1828, aquela que teria sido a “Marília” de Bocage.

Marília, nos teus olhos buliçosos 
Os Amores gentis seu facho acendem; 
A teus lábios, voando, os ares fendem 
Terníssimos desejos sequiosos. 

Teus cabelos subtis e luminosos 
Mil vistas cegam, mil vontades prendem; 
E em arte aos de Minerva se não rendem 
Teus alvos, curtos dedos melindrosos. 

Reside em teus costumes a candura, 
Mora a firmeza no teu peito amante, 
A razão com teus risos se mistura. 

És dos Céus o composto mais brilhante; 
Deram-se as mãos Virtude e Formosura, 
Para criar tua alma e teu semblante.
 

Os estudiosos da obra do poeta natural de Setúbal interrogaram sempre quem seriam as musas inspiradoras do poeta e, embora o próprio reconhecesse que era um pinga amor, juntaram indícios apontando para Maria Margarida Constâncio.

Primeiro, em meados do século XIX, “já se começa a falar que haveria uma irmã de um amigo dele que teria sido a grande paixão de Bocage”, refere Carlos Bobone. “Mais tarde aparece um manuscrito com um poema importante de Bocage, ‘Pavorosa Ilusão da Eternidade’, filosófico, antirreligioso, a favor do amor livre, que começa por ser uma invocação a uma senhora de quem ele gostava, e que seria Maria Margarida Constâncio”.

(…) Escuta o coração, Marília bela,
Escuta o coração, que te não mente;
Mil vezes te dirá; “Se a rigorosa,
Carrancuda opressão de um pai severo
Te não deixa chegar ao caro amante
Pelo perpetuo nó que chamam sacro,
Que o bonzo enganador teceu na ideia,
Para também de amor dar leis ao mundo;
Se obter não podes a união solene,
Que alucina os mortais; porque te esquivas
Da natural prisão, do terno laço
Que em lágrimas, em ais te estou pedindo?

O manuscrito de finais do século XIX refere ser dedicado a Maria Margarida. No início do século XX, Augusto Correia de Castro vem afirmar taxativamente que, segundo a família, Maria Margarida Constâncio foi efetivamente a grande paixão de Bocage e seria a inspiração dos poemas não só dedicados a Marília mas também aqueles dedicados a Ritália.

Trata-se de um poema “central na obra de Bocage porque sendo um poema antirreligioso foi o poema que provocou a prisão do poeta. Passou alguns meses nos cárceres da Inquisição e depois foi posto num convento onde teve alguns meses de reeducação moral e religiosa. Além disso foi um poema que teve grande circulação, conhecem-se mais de 20 cópias manuscritas. Circulou clandestinamente, e a sua circulação foi muito vigiada pela Intendência Geral da Polícia”.

Hoje, há quem considere o poema “o grande manifesto do iluminismo português, o que acho uma interpretação um bocadinho exagerada”, diz Carlos Bobone.

Bocage teve honras de ser representado nas notas de 100 escudos. Créditos: Banco de Portugal

As teses de Augusto Correia de Castro – bisneto de Joaquim Manoel Constâncio – “vão ter grande repercussão na história da literatura portuguesa”. Também Teófilo Braga tem grande influência na demonstração das estreitas ligações da família Constâncio a Bocage, “ao adotar todas as teses de Augusto Castro, indo mais longe, tentando tirar outras conclusões.

Por exemplo, no poema ‘Pavorosa Ilusão da Eternidade’ começa por aconselhar a mulher amada por Bocage a não se sujeitar aos ditames do pai que quer pôr obstáculos aos seus amores. Teófilo Braga conclui que Manoel Constâncio não favorecia os amores de Bocage com Maria Margarida e, por isso, teria sido o próprio pai a denunciar Bocage à Inquisição. Segundo Teófilo Braga “todos os poemas que Bocage escreveu a dizer mal dos médicos também eram poemas contra Manoel Constâncio, por ser contra a este amor”.

Mas, para Carlos Bobone “é preciso por algum realismo” nesta história. Ou seja, “a maior parte dos historiadores da literatura – e são muitos a partir desta época –, aceitam que Maria Margarida Constâncio é Marília”. No entanto, nem se preocupam em juntar as datas à equação, o que significa juntar a cronologia da vida destas pessoas. “Basta pensar que Maria Margarida Constâncio nasceu 1783 e Bocage em 1765, havia entre eles uma diferença de 18 anos. Um dos poemas que Bocage fala de Marília é de 1791, aliás o professor Guerreiro Murta diz que os amores de Bocage com Margarida teriam começado em 1791. Ora, como é possível que ela com 8 anos já fosse inspiradora de Bocage?”, interroga-se Carlos Bobone.

“Olha Marília as flautas dos pastores”… Óleo de Fernando dos Santos (1935), no Café Nicola, em Lisboa.

Aceitando que ‘Pavorosa Ilusão da Eternidade’ seja dedicada a ela – Carlos Bobone pensa haver “bons indícios” para aceitamos essa identificação – ela teria 14 anos, nota. O biógrafo de Bocage, quem tem feito mais estudos sobre o poeta sadino, Daniel Pires, diz que ele “era suficientemente maluco para aos 32 anos se apaixonar perdidamente por uma rapariga de 14 anos” mas, na sua opinião, esse “seria o limite mínimo” e antes disso “não poderia ter começado o idílio entre Bocage e Maria Margarida Constâncio”, opina, acrescentando que “a falta de critério dos biógrafos tem sido muita”. Por exemplo, Teófilo Braga afirmava que os poemas de Bocage muito amargos, em que o poeta fala constantemente de ciúmes, “teriam sido escritos quando Maria Margarida casou com Brás da Silva Consolado. Ora esse casamento deu-se em 1811 e Bocage morreu em 1805”.

A tese de ser Maria Margarida Constâncio a “Marília” de Bocage foi tendo aceitação entre os biógrafos e historiadores da literatura portuguesa e sempre que se fala na ‘Pavorosa Ilusão da Eternidade’ fala-se de Margarida. Deram-lhe fé Teófilo Braga, Artur Lobo D’Ávila, Fernando Mendes, Gomes Monteiro, Guerreiro Murta, Vitorino Nemésio, Reis Brasil, Maria Leonor Machado de Sousa, António José Barreiros, Fernando Pinto do Amaral, Mário Costa e Daniel Pires.

O arquivo da família Constâncio “não desvenda este problema”, revela Carlos Bobone. No entanto, há um poema que faz parte desse arquivo e que “terá talvez alguma relação” com esta tese. O poema ‘Pavorosa Ilusão da Eternidade’ terá sido escrito na altura em que Maria Margarida tinha um mestre frade graciano que a cortejava – e Bocage, ciumento com este assédio, teria “respondido” com esse poema.

“Ora nessa época, quando se fala de um frade graciano, toda a gente sabe quem é: o mais famoso graciano, o homem que se meteu em polémicas e discussões com toda a gente, o frade que tinha uma crónica escandalosa pelos seus excessos sexuais, o arqui-inimigo de Bocage: José Agostinho de Macedo. E há um poema no arquivo dos Constâncio onde se fala de um conquistador, de um cupido, que tentava conquistar as belas, que se disfarçava e que tinha coroa na cabeça. Tudo isto parece apontar para a ideia de um frade, ou de um ex-frade, que era conhecido pelas suas conquistas amorosas, e tudo isto, realmente, se aplica a José Agostinho de Macedo”, diz.

Além disso, Augusto Correia de Castro afirma que os três irmãos Constâncio foram alunos de José Agostinho de Macedo.

O historiador Carlos Bobone durante a palestra. Créditos: mediotejo.net

Carlos Bobone afirmou durante a palestra dinamizada pela Academia Tubuciana de Abrantes que sendo possuidor do arquivo da família Constâncio “teria todo o interesse” em reforçar a tese de que Marília é Maria Margarida Constâncio, mas nota que o arquivo apenas tem três cartas da filha de Manoel Constâncio, escritas em 1820 – já após a morte de Bocage –, nas quais se mostra conformada com o casamento com Brás da Silva Consolado.

Outro ponto importante revelado pelo arquivo dos Constâncio prende-se com Pedro José Constâncio. “O pouco que se sabe até hoje é aquilo que Inocêncio Francisco da Silva escreveu na sua nota de pé de página nas ‘Poesias Eróticas, Satíricas e Burlescas’”, onde o define como “homem de vida extravagante e desregrada que sofria por vezes de ataques de alienação mental, chegando a apresentar-se nu em pleno dia à janela da casa onde morava, no deserto da rua Larga de São Roque. Compôs grande número de poesias, quase todas licenciosas e, entre estas, um poema alusivo à fornicação dos cães dentro das igrejas, sendo denunciado ao intendente geral da Polícia, e lhe deu lugar a reclusão por alguns dias na cadeia do Limoeiro”.

Isto é, estabeleceu-se a ideia que “teria sido um homem alienado, que teria chegado à loucura devido a doenças venéreas”. Mas o arquivo da família esclarece que Pedro Constâncio não viveu os últimos anos da sua vida em estado de loucura. Além dos poemas, as cartas existentes no arquivo mostram que “não estaria totalmente alienado”, assegura o historiador, embora do arquivo conste apenas uma carta da autoria de Pedro Constâncio, de 1814. Por outro lado, como referido anteriormente, não há nenhuma carta de Bocage nem nenhuma carta que fale diretamente de Bocage, nem nenhuma alusão ao convívio com o poeta.

“O que se sabe sobre o poeta ter passado temporadas da Quinta de Valle da Louza é através da tradição de família contada por Augusto Correia de Castro, que fez muita investigação em arquivos e tem muita influência em estudos bocagianos usando três argumentos: documentos que encontrou em arquivos públicos, arquivo particular, e a tradição familiar, coisas que ouviu contar na família”, explica Carlos Bobone.

Acrescenta que o biógrafo Daniel Pires também acredita que Bocage “passou temporadas na Quinta de Valle da Louza, porque o poeta em várias ocasiões da sua vida teve de se esconder da perseguição policial de Pina Manique, por causa dos poemas licenciosos que fazia correr”. Muitas vezes não eram publicados, mas corriam de mão em mão e acabavam por ir parar à Intendência Geral da Polícia. E, na opinião de Daniel Pires, a Quinta no Sardoal seria um excelente refúgio para uma pessoa como Bocage, que frequentemente tinha que ficar escondido, ainda por cima sob a proteção de um médico muito bem visto na Corte. “Seria um bom refúgio para o Bocage nas ocasiões de maior aperto”, sublinha.

Apesar de algumas incertezas, considera o historiador, trata-se de “uma família de que Abrantes se pode orgulhar. Apresenta-nos uma coleção de figuras muito invulgares, e que merecem estudo”.

Paulo Falcão Tavares, Carlos Bobone e Daniel Estudante Protásio (da esquerda para a direita), membros da Academia Tubuciana de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Carlos Lourenço do Carmo da Câmara Bobone (Conde de Bobone) nasceu em Lisboa em 1962. Alfarrabista, proprietário da Livraria Bizantina, licenciado em História, especialista em Genealogia, ou seja, o ramo da História que se dedica ao estudo das famílias, à sua origem e evolução, e estudioso de longa data dos apelidos portugueses, é autor de vários trabalhos de investigação nas áreas da História e da Genealogia, sendo um pensador da direita monárquica em Portugal. Colaborou nas revistas portuguesas ‘Armas e Troféus’, ‘Raízes & Memórias’ e na ‘Enciclopédia Verbo Século XXI’. Possui o arquivo que pertenceu à família Constâncio de Abrantes, que adquiriu como alfarrabista.

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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1 Comentário

  1. Nesta obra me deliro em poemas traição e em grandeza. Na sabedoria do Bocage no copiance do Constantino nas zangas dos filhos do Constantino da irmã e o tendeiro e nas grandezas e nas fraquezas na dezerda e burguesia das fraquesas

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