O Rossio ao Sul do Tejo é uma localidade saudosista. Vive e alimenta-se do esplendor do passado – eminentemente comercial, proporcionado por um Tejo outrora navegável –, de êxitos pontuais, essencialmente desportivos e culturais, e das quezílias quotidianas típicas de qualquer localidade do “interior” de Portugal que se preze. As aspas servem para nos lembrar que considerar o Rossio ou Abrantes como territórios do interior, com a conotação que tal qualificativo acarreta em Portugal, é dar um passo fácil no sentido da auto-desresponsabilização pela situação complexa que todos – Rossio, Abrantes, restantes freguesias do município – atravessamos. De qualquer forma, essa é outra discussão que não vem agora ao caso.
No Rossio há muitos cafés; alguns minimercados; não mais do que um par de restaurantes dignos dessa designação; duas ou três ruas principais, já a contar com a Nacional 2, que nos atravessa e de que não sabemos tirar proveito; a Igreja e o agrupamento de Escuteiros; duas associações desportivas principais e – dissimulada, mas eternamente – rivais; e há, acima de tudo, cada vez menos pessoas, das quais poucos jovens para muitos idosos[1].
Há, na minha ótica, dois problemas especialmente relevantes no seio da comunidade rossiense, à qual orgulhosamente pertenço, que votam esta localidade, outrora pujante e fervilhante, ao abandono gritante a que todos temos vindo a assistir.
Por um lado, há uma cisão latente mas profunda entre grupos e subgrupos de pessoas – subcomunidades, como normalmente lhes chamo. Estas subcomunidades são demasiado afastadas, especialmente no que concerne aos seus valores e às suas visões, para poderem trabalhar verdadeiramente em conjunto em prol da terra de todos nós. Em qualquer projeto, mais cedo ou mais tarde, as suas diferenças intrínsecas acabam sempre por pesar mais do que o tão badalado objetivo comum: tirar o Rossio do marasmo em que se encontra.
Por outro, há mais forma do que conteúdo. Muito mais forma do que conteúdo, especialmente nos anos mais recentes e nas gerações atuais. O Rossio precisa menos, muito menos, de pseudo-discursos inflamados acompanhados de mãos a bater no peito e de juras de amor eterno, que tão frequentemente pululam entre cafés e outros espaços de convívio e ajuntamento rossienses, e mais, muito mais, de trabalho. Trabalho sério, sólido e consistente, fruto de união honesta e desprovida de interesses individuais, que tenha o condão de juntar quem é diferente e de agregar em vez de dividir. Objetivos verdadeiramente partilhados, motivações efetivamente transparentes e, acima de tudo, vontade séria de fazer pelo Rossio. E trabalho, muito trabalho.
Até lá, reinarão questões menores. Algumas relevantes, mas menores, como é o caso da atual polémica – mais uma vez relativamente muda, ao melhor estilo rossiense – em torno da designação oficial das “Festas da Nossa Terra”, as festividades anuais que têm sido organizadas pelo Clube Desportivo “Os Patos” nos últimos anos. Esta associação histórica de cariz desportivo foi fundada em 1982 no Rossio e atualmente, muito por causa da sua modalidade-bandeira, desenvolve grande parte da sua atividade numa freguesia vizinha. Além de os seus predicados serem intocáveis em diversas modalidades, é de longe a associação sediada no Rossio que mais obra tem realizado nas últimas décadas. Pelo menos, entre as desportivas. Isto dito e escrito por alguém que foi presidente da velhinha UDR (União Desportiva Rossiense), a mais histórica associação desportiva do Rossio.
Ainda assim, como na vida de qualquer rossiense que se preze, ambos os clubes tiveram um papel crucial na minha infância e juventude. A UDR foi o primeiro clube que representei, tendo começado a jogar futebol nas escolinhas do clube com apenas cinco anos, ainda com recurso aos cartões de outros atletas pois a inscrição oficial na associação de futebol distrital não podia ser feita antes dos seis anos de idade. Os Patos vieram logo a seguir, tendo sido atleta do clube durante vários anos nas modalidades de judo e de trampolim. Têm portanto, ambos, um significado muito especial para mim.
Há alguns anos, os responsáveis dos Patos tiveram uma ideia muito meritória: voltar a organizar umas festas de Verão no Rossio. Nos idos anos 70 e 80, as verdadeiras festas da nossa terra foram uma referência no panorama local e regional, chegando a trazer ao Rossio nomes maiores da indústria musical nacional. Numa outra iniciativa mais recente, embora com duração algo limitada no tempo, as célebres “Tasquinhas” permitiram ao Rossio e aos rossienses reviver de alguma forma, e com as devidas diferenças, esses tempos gloriosos. Sol de pouca dura mas de muito significado.
Na minha opinião, os Patos, fruto da sua vasta tarimba na organização de eventos, com especial destaque para o seu historial de sucesso na dinamização de uma das tasquinhas das Festas da Cidade de Abrantes, seriam sempre a associação mais indicada para fazer acontecer tal desígnio. Além da imensa experiência, têm capital humano para dar conta do recado, estando bastante mais preparados do que as restantes associações rossienses nesse campo.
Aliás, factualmente, pelo menos para mim, não há dúvidas de que o conseguiram. No entanto, tratar conteúdo e forma com o mesmo cuidado e perícia deve ser imperativo elementar. No fim de contas, estamos a falar de pessoas e de comunidades, com todas as implicações que daí advêm. Se o conteúdo tem funcionado, isto é, se as festas voltaram efetivamente a decorrer, a forma tem sido contestada desde o (re)início. Como seria de esperar.
A apropriação da designação Festas da Nossa Terra por uma entidade que, por mais consensual que se considere ou seja, apenas representa uma parte da comunidade, seria sempre discutível. No mínimo. Além de um rol de outras questões que tal apropriação levanta, é altamente questionável, desde logo, pelo pretensiosismo potencial que encerra. A pergunta que se tem repetido é simples e direta: se são as Festas da Nossa Terra, não deveriam ser de todas as associações do Rossio? Não é um preciosismo, nem é um pormenor; é um facto irrefutável e de capital importância quando estão em causa sentimentos tão nobres e proeminentes como o orgulho bairrista de uma comunidade inteira.
Acima de tudo, aquando da formulação da proposta de designação, houve falta de cuidado para com os rossienses. Falta de preocupação séria por aquilo que as pessoas poderiam sentir. Aquando das primeiras críticas, houve falta de capacidade de encaixe e de aprendizagem com o evidente erro. Daí em diante, forçada e cansada que estava a decisão da designação, houve falta de capacidade de unir e de repartir. Não só da associação que reativou – e bem! – as festas, mas também da entidade que tem de estar acima de todas as quezílias e desconfortos, bem como equitativamente distante de todas as associações: a Junta de Freguesia ou, mais recentemente, a União das Freguesias.
Só há dois caminhos honestos e moralmente aceitáveis para que as Festas da Nossa Terra se tornem, verdadeiramente e por direito, nas festas da terra de todos nós: (1) o que prefiro, proponho e defendo há anos, com organização conjunta de todas as associações rossienses interessadas em participar, havendo lugar a posterior distribuição equitativa dos lucros de acordo com o número de pessoas com que cada entidade contribuir para a realização do certame; ou (2) o mais tradicional e institucional, com organização a cargo do executivo da freguesia.
Caso contrário, para todos os efeitos, continuaremos a ter as festas de Verão de uma das associações sediadas no Rossio, publicitadas sob uma designação oficial pretensiosa e forçada. Ou, como muito se tem ouvido, as Festas dos Patos – que é, aliás, uma designação muito mais adequada para o modelo atual.
[1] Segundo o INE, nos Censos de 2021 haviam 4104 pessoas na União das freguesias de São Miguel do Rio Torto e Rossio ao Sul do Tejo, entre as quais 9% eram jovens (0-14 anos) e 35% idosos (65 ou mais).
