Quem, há muitos anos, acompanha os programas de antena aberta já não se surpreende com certos telefonemas. Eu já não me surpreendo. Até sorrio. Porque se percebe que são telefonemas encomendados por alguém com uma determinada agenda. Foi o que certamente aconteceu esta quarta-feira, no Fórum da TSF. E o que é que aconteceu? Fiquei com uma ligeira sensação (a expressão ‘ligeira’ tem que ser interpretada com uma certa ironia) de que a Velhinha Isolina, a Benzocas Teresa e a Jovem à Rasca Rita ligaram para apoiar a criação de um novo partido (a Aliança, de Pedro Santana Lopes) porque estavam mandatadas para o fazer.
Não seria necessário que um dos comentadores de serviço chamasse a atenção para as estratégias de Marketing utilizadas pelas máquinas partidárias (inclusivamente de um partido que formalmente ainda nem existia), referindo especificamente o caso dos telefonemas para o programa, para um ouvinte minimamente atento perceber que há opiniões encomendadas. Quer dizer… eu não posso jurar a pés juntos quais são encomendadas e quais são genuínas. Mesmo as opiniões que são lidas podem ser, de facto, de quem as lê. Mas há pequenos sinais que se percebem, como a (in)segurança no que se diz, o tom de voz, a forma como terminam…
Sra. Dona Isolina,
(Acho que é Isolina, o nome da senhora supostamente reformada que ligou, se não me engano, a partir de Caxias, para o Fórum da TSF, para dizer, em poucos segundos, que é muito importante que haja um novo partido)
Querida Teresa,
(Acho que é Teresa, o nome da senhora que ligou, se não me engano, do Alentejo, talvez de uma herdade, para o mesmo Fórum, a dizer que o Dr. Pedro Santana Lopes terá defeitos, mas que também tem virtudes, e que faz muito bem em criar um novo partido)
Jovem Rita,
(Acho que é Rita, o nome da jovem mulher que diz fazer parte da geração da juventude à rasca, que ligou, se bem me lembro, de Lisboa, para dizer que gosta muito das ideias do homem de sessenta e tal anos que acabou de lançar um novo partido, chamado Aliança, e que ele até tem um ar jovial)
Minhas queridas Isolina, Teresa e Rita… vocês têm o direito de telefonar para programas de antena aberta. Até podem ser pessoas reais e ter mesmo a opinião que transmitiram no Fórum da TSF. Até podem ter telefonado de livre vontade e eu ser a criatura com maior dificuldade à face da terra para separar o trigo do joio. Mas os vossos telefonemas não me convenceram. Aliás, convenceram-me de que certamente votarão no novo partido, mas que talvez o façam só porque alguém vos disse para o fazerem. E o direito ao voto não se alcançou para ser usado assim!
Convenhamos, Isolina, Teresa e Rita… eu e muitos outros esboçamos um sorriso quando ouvimos este tipo de telefonemas. Mas outros, incluindo os responsáveis pela produção dos programas, talvez não achem muita graça. Porque, na verdade, este são espaços para as pessoas darem as suas opiniões. Repito: as suas opiniões. As encomendas de opinião podem ser golpes interessantes na perspetiva do Marketing e até lhes podemos dar um nome da moda: ‘fake calls’. Mas estas intervenções chegam a ser ridículas. Porque, por exemplo, não estou a ver os ouvintes da TSF a deixarem influenciar-se por uma suposta velhinha que acha bem que haja um novo partido só porque sim.
Sabem, Isolina, Teresa e Rita… eu gosto muito de ouvir mulheres falar sobre política. Mas gosto muito mais de ouvir pessoas (mulheres ou homens, tanto me faz) a falar sobre política com ideias, como o novo partido diz que quer fazer. Os vossos testemunhos, mesmo que tenham sido reais, foram fraquinhos. O que me deixa triste. Acho que as ‘fake calls’ deviam ser mais impactantes, como dizem os marketeers. Para a próxima, tentem fazer melhor. Para, pelo menos, ver se a malta não percebe.
Só mais uma coisinha, Isolina, Teresa e Rita… como vocês saberão, a censura é a antítese da opinião livre. Mas a encomenda de opinião também o é. Eu não gosto nem de uma coisa nem de outra. Mas isto é só a minha opinião. A minha. Ninguém a encomendou. Pode ser fraquinha, mas é minha.
