Foto: Rui Louraço

O Tejo não transbordou por capricho. Nem por azar. Respondeu ao que recebeu. Respondeu a semanas sucessivas de precipitação elevada, a solos encharcados, a uma bacia progressivamente sem capacidade para encaixar mais água sem a devolver, mais cedo ou mais tarde, sob a forma de cheia. Quando as depressões Leonardo e Marta chegaram no início de fevereiro, o cenário estava preparado, a cama estava feita. O que aconteceu depois não foi surpresa. Foi consequência.

É aqui que se comete, quase sempre, o mesmo erro. Olha-se para o episódio final e esquece-se o processo. Olha-se para o nome da tempestade, para o pico do caudal e do nível, para a imagem aérea da inundação e perde-se o essencial. As grandes cheias não nascem no dia em que entram nos noticiários. Nascem antes. Nascem com a persistência da chuva. Nascem com a saturação dos solos. Nascem com a repetição dos episódios. Nascem com a redução progressiva da margem de segurança do território.

Fevereiro de 2026 foi, por isso, um aviso sério, que o IPMA bem pormenorizou nos seus relatórios recentes. Mas não apenas por ter sido muito chuvoso, mas porque mostrou com clareza como responde uma bacia já saturada quando recebe mais um impulso. O ano hidrológico de 2025/26 ficará como referência por essa razão: pela persistência da precipitação, pela saturação da bacia e pela violência da resposta quando o sistema já tinha perdido capacidade de encaixe.

É por isso que o princípio tem de ser simples. E repetido. Prevenir, prevenir, prevenir.

Prevenir ANTES, com meses e semanas de antecedência, através de sistemas permanentes e eficazes de monitorização, capazes de acompanhar a atmosfera, a precipitação, a saturação dos solos, os caudais, os volumes armazenados e a resposta da bacia. Prevenir DURANTE, com avisos atempados, leitura competente da situação e capacidade real de antecipação, e não mera reacção de última hora. E prevenir DEPOIS, porque o risco não termina quando a chuva abranda nem quando a água sai dos ecrãs. Ficam os solos saturados, as drenagens dificultadas, os movimentos de vertente, os diques fragilizados e um território mais vulnerável ao episódio seguinte.

Mas prevenir a sério não é repetir uma palavra. É ter método. É ter observação de qualidade. É ter modelação fiável. É ter capacidade de decisão. Uma bacia não passa de estável a crítica sem dar sinais. A questão é outra: esses sinais estão a ser medidos com fiabilidade? Estão a ser lidos com competência? Estão a ser convertidos em decisão útil enquanto ainda há tempo?

É neste ponto que o debate tem de ser travado. Não apenas sobre a intensidade da chuva, sobre as depressões atlânticas ou sobre os rios atmosféricos. Também, e sobretudo, sobre a qualidade dos sistemas que observam, interpretam e enquadram a resposta.

Quando esses sistemas falham, chegam tarde ou comunicam mal, o risco meteorológico transforma-se mais depressa em dano territorial, económico e social.

As populações merecem mais do que comunicados tardios e linguagem técnica. Merecem perceber não só o que já está a acontecer, mas também o que aconteceu antes e o que pode acontecer depois. Merecem saber se a bacia está em carga, se a margem de segurança se aproxima do fim e se a resposta do rio pode agravar-se nas horas e nos dias seguintes.

Convém guardar esta lição. Não por gosto no alarmismo. Mas por respeito pelos factos. Porque a próxima cheia também começará muito antes de ser notícia. E quando voltar a surgir nos mapas, nos rodapés e nos directos televisivos, já terá começado há muito.

Carlos Paula Simões é natural de Azinhaga, Golegã. Foto: CPS

*A opinião de Carlos Paula Simões, responsável de Sustentabilidade e Agricultura em Campil Lda, Cartaxo. Natural de Azinhaga, Golegã.

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