Um dos destes dias, quando olhava de relance para a televisão, vi um conjunto de mulheres numa manifestação e o primeiro cartaz que vi dizia “CARREIRA”. Pensei logo que era uma manifestação de apoio a Toni Carreira.

E não era?…

Não, afinal era uma manifestação de enfermeiros e enfermeiras. Mas como a maioria era mulheres, foi logo a primeira coisa que me veio à cabeça: mulheres deste povo, unidas, em defesa do seu ídolo.

É uma ideia bonita…

Pois é, quando gostamos de alguém ou de alguma coisa sem questionarmos, fazemos o que for preciso por esse alguém ou essa coisa. Por isso, até achei possível. Reconheço que talvez tivesse sido influenciada por aquelas reportagens que nos mostram os ‘populares’ a responder sobre as questões de uma suposta atualidade: “O que acha da polémica sobre Toni Carreira?”

Presumo que os jornalistas que vão fazer essas reportagens escolham, na rua, pessoas com ar de serem fãs de Toni Carreira. Se assim for, as respostas vão se todas em defesa dele ou, pelo menos, desvalorizando a coisa.

O problema é que a coisa – alegadamente cantar temas de outros artistas como se fossem seus – não é algo que se possa desvalorizar. Pensemos alto: qualquer um de nós que, no seu trabalho, faça alguma coisa incorreta, ilegal, desleal ou pouco ética acaba por ser penalizado. Isto é verdade em qualquer tipo de profissão, mas torna-se mais grave quando falamos de pessoas com responsabilidades públicas que, independentemente da área em que trabalham, devem constituir um exemplo para todos os que os admiram.

Verdade… ser músico, de um grande gabarito, independentemente do género, deveria significar uma responsabilidade acrescida. E o que disseram as pessoas abordadas na rua pelos jornalistas?

As peças que vi tinham diferentes tipos de opinião, desde que não é aceitável porque o plágio é evidente até ao argumento bem português de que ‘não é o único a fazê-lo’.

Esse argumento é brilhante. Se os outros fazem porcaria, eu também posso fazer. Se os outros são incorretos, eu também posso ser. Se os outros não cumprem a lei, eu também posso prevaricar. Os outros, os outros, os outros… Como se a responsabilidade de cada um fosse sempre atenuada pelo que os outros fizeram. É fácil encontrar alguém que fez sempre pior do que eu fiz. É uma lógica completamente retorcida, que só nos faz andar para trás.

A propósito disso, lembro-me bem dos argumentos que usava com o meu pai quando ele me impedia de fazer ou de dizer alguma coisa. Quando eu dizia “mas a não sei quantas também fez” ele respondia invariavelmente da mesma maneira: “Com o mal dos outros posso eu bem!”

É mesmo isso. O facto de os outros fazerem alguma coisa mal feita não me iliba se eu fizer o mesmo. Na verdade, tudo isto tem a ver com ser-se boa pessoa. Tem a ver com princípios, com valores, com dados adquiridos na nossa vida dos quais não abdicamos. Não vale tudo, só porque os outros já fizeram tudo.

Sabes, de repente lembrei-me de uma coisa muito interessante que também vi por estes dias na televisão. Era um programa sobre a internet e as novas tecnologias, em que falavam sobre o futuro da inteligência artificial e sobre a possibilidade de os robôs poderem vir a ter a capacidade de comandar a vida no mundo. Na altura, achei idiota, mas fiquei a pensar no que disse um dos especialistas que trabalha nessa área, que foi qualquer coisa deste género: só espero que os robôs, quando estiverem desenvolvidos, sejam bons, porque se forem maus, vamos ser como comida para eles.

Isso é uma nova etapa daquilo que o ser humano tem vindo a fazer: criar seres que são capazes de desvirtuar o essencial. Como já fizemos tanta asneira com os seres humanos, resta-nos a esperança de que os seres metálicos sejam melhores do que nós.

Pelo menos, certamente que serão capazes de produzir êxitos musicais estudando as tendências e acertando no que agrada aos humanos sem se apropriarem do trabalho dos outros!

E quem é que achas que vai cantar esses êxitos?

Talvez os netos ou bisnetos do Toni Carreira.

Estás a gozar?

Claro que estou, mas a verdade é que os robôs não devem ser capazes de descobrir a fórmula de atração que, pelos vistos, existe na família Carreira… Há coisas que os algoritmos nunca vão ser capazes de perceber, o que nos faz voltar ao início: enquanto houver humanos vai sempre haver quem se ache mais esperto do que o outro.

Triste conclusão para esta conversa toda. Por momentos, ainda pensei que íamos ser salvos pelos robôs…

Hália Santos

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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