As bruxas da Barquinha. Foto: FF

Imortalizadas por Júlio de Sousa e Costa (1) as bruxas ou mulheres de virtude do concelho de Vila Nova da Barquinha, no século XIX, faziam por estas bandas um belo triunvirato: Uma tinha estabelecimento perene na Moita do Norte, outra no Canto do Chinelo, na Barquinha,, e a última nas Vaginhas, atual Entroncamento.

Com transeuntes oriundos de diferentes lugares da nação tinham as bruxas uma tabela de preços que podemos retirar da magnifica narrativa de Júlio de Sousa e Costa e que hoje, dia das bruxas, partilho com os leitores do mediotejo.net.

– Cada consulta valia um pinto, ou seja, quatrocentos e oitenta réis daquele tempo;

– A benzedura de uma casa com esconjuros ao diabo e seus negregados acompanhantes, dois pintos;

– Ler a sina, doze vinténs.

Para os namorados havia uma tabela especial que variava conforme as situações:

–  Meia moeda até três quartinhos, afim de fazer chegar o fugidio à boa razão.

Soe que o primeiro registo do termo “halloween” é datado de 1745. É uma contração do termo inglês All Hallows Eve, que significa Véspera do Dia de Todos-os-Santos, dia 1 de novembro, data comemorativa religiosa cristã, do dia de “Todos os Santos”. Data que ocorreu o terramoto em Lisboa no ano 1755.

O tempo provável do início da tradição do “pão por Deus” tem como génese este terramoto. Nesse ano era Patriarca de Lisboa, Dom José Manoel, filho do 4.º conde de Atalaia, de Vila Nova da Barquinha que governava a Patriarcal de Lisboa.

No ano seguinte, no dia 1 de novembro, foi desencadeado por toda a cidade de Lisboa um peditório em consequência da fome que reinava pela capital. As pessoas batiam às portas e pediam que lhes fosse dada qualquer esmola, mesmo que fosse pão, oferecendo como retribuição a prática de orações pelas almas dos defuntos dos ofertantes que penavam no purgatório, o denominado “pão das almas”.

Tudo aponta que é nesta data que acontece a génese da tradição do pedir “Bolinhos em louvor de todos os santinhos” ou de “Pão por Deus”.

Ora, nem só nos países anglo americanos existiram bruxas. Nós, por estas bandas, nos séculos XVIII e XIX, tínhamos pelo menos três, e já, certamente, “Pão por Deus”, trazido pelo nosso Cardeal Patriarca D. José Manoel.  

Ou seja, temos razões para celebrar a dobrar. Vamos então à sublime narrativa de Júlio de Sousa e Costa:

“Já me ocupei no Moitense, de duas bruxas, e cá estou agora a contas com outra, desta vez da risonha vila da Barquinha cuja história trágica, política e folgasã dá bem para um livro…

Parece que a mulher de virtude domiciliada nas Vaginhas e falecida em Santarém, ou suas proximidades, foi a mais terrível concorrente da Senhora Custódia de Matos que morava no Canto do Chinelo, aí pelos anos 1840 e tantos.

O velho amigo António Joaquim de Sousa, mais conhecido pelo apôdo de Pintasilgo, honrado oficial de diligências da extinta administração do Concelho da Barquinha, há poucos anos falecido e cuja probidade conheci durante trinta anos, sem desfalecimento e sem uma falta de lealdade, disse-me que não a conheceu, se bem que fosse do tempo da sua meninice. Dela falara sua mãi, de nome Tomázia.

Parece que era da freguesia da Asseiceira a senhora Custodia, que, no pitoresco dizer do meu amigo António Pintasilgo era, naquele tempo bem mais velha que a Sé de Braga. Todavia nunca acreditei que tivesse mais de noventa anos… nem êle tampouco!…

Falando-lhe eu na bruxa das Vaginhas, deu-me notícia dessa joia estimável, e como é de calcular, não a deveria ter conhecido.

—Minha Mâi, que Deus haja, falava da peça que ganhava o dinheiro que queria! A da Barquinha não; pouco auferia com as rezas, as bênçãos e os esconjuros; era esmoler e os pobres abusavam muito dela! …

Certo dia parou à sua porta um carro donde saiu senhora ainda nova, acompanhada de outra já idosa. Esta última trazia um volume nos braços. Se não fôsse o som de dois ou três vagidos, a vizinha bisbilhoteira não ficaria sabendo que se tratava de criança recém-nascida.

Nessa data a senhora Custódia deveria ter quarenta e tal anos.

Evidentemente não a haviam procurado para amamentar o inocente.

Começou logo o sinédrio da curiosidade a fazer conjeturas, e, por fim, decretou na sua alta sapiência, que o cachopinho era destinado à roda cuja concorrência era desoladora …

Não exagero…. É ver o antigo registo dos batismos da freguesia de Barquinha, para se certificarem…

Não eram os expositores só da Barquinha; vinham de muito longe!…

O certo é que se as referidas damas vieram com êsse negregado escópo, a mulher de virtude nada o satisfez.

A senhora Tomásia de Sousa deixou a lembrança de que cada consulta lhe valia um pinto, ou sejam quatrocentos e oitenta reis daquele tempo; benzedura de uma casa com esconjuros ao diabo e seus negregados acompanhantes, dois pintos; ler a sina, dôze vinténs; os namorados tinham uma tabela que variava de meia moeda até três quartinhos, afim de fazer chegar o fugidio à boa razão; havia tabela para tudo mas dela pouco aproveitava a boa mulher cujo coração era bondoso em extremo.

O engeitadito, se o era, andava muito bem vestido e certamente não era com os proventos da bruxaria: criou-se; fez-se um belo mocetão cujos feições e gentileza de ademanes, demonstravam bem que era filho de gente de trato. Foi criado por uma cabra e não forçado a uma vida de prisão; adquiriu modos de cortezia independente.

Era amicíssimo da sua ama sèca; e quando a Mãi o veio buscar, tendo êle quinze anos, declarou que sairia da Barquinha, quando o acompanhasse a Senhora Custodia que mais tarde, quando a neve lhe branqueou de grande os cabelos, teve a satisfação de lhe ver os hombros as dragonas de capitão de artilharia. O rapazito educado na Barquinha nunca esqueceu a terra onde foi criado e bastantes vezes a visitou. Era grato.

A bruxa, como na terra lhe chamavam, vendeu a sua casa do Canto do chinelo e durante muitos anos dela se lembraram mercê do seu coração generoso. Não tendo família a sua alma dedicou-se aos pobres e nisso se contém o seu maior elogio. Não acreditaria na sua ciência; quero mesmo acreditar que zombara dela…

Todavia essa pantominice pegada serviu para amparar desgraçados, ao contrário da sua colega das Vaginhas que dotou duas filhas, gozou à larga e entesoirou belas peças algumas das quais lhe pendiam do grilhão e que ela ostentava com desvanecida alegria que todos viam estampada no seu semblante agraciado…

Adotou o menino que foi criado com amor e sumo cuidado. A senhora Custódia não deixou de dar sessões de cartas de verdade, nem de fazer a prova de deitar chumbo derretido em água previamente posta ao relento durante três noites.”

  • Júlio de Sousa e Costa, nasceu em 1877. Foi funcionário público em Lisboa, Barquinha, Tomar, Leiria, Alcanena e Torres Novas. Foi, porém, na Barquinha que trabalhou grande parte da sua vida, onde foi secretário da Câmara Municipal. Sendo escritor interessou-se por temas históricos e, essencialmente, tudo quanto oralmente era dito pela vox populi (voz do povo).

Como outros grandes escritores, de que são exemplo Alexandre Herculano; Almeida Garrett; Camilo Castelo Branco, etc., também Júlio Sousa e Costa aquando mais novo, começou a escrever nas revistas e nos jornais regionais. Muitos desses relatos podem ser compulsados nos Serões de Tancos, publicados nos anos de 1926 a 1927 e no jornal “O Moitense”, no nº 1, publicado em 15 de março de 1936  e no último, o nº 106, com data de 15 de maio de 1945, cujos originais fazem parte do espólio do Arquivo Municipal de Vila Nova da Barquinha, oferecidos pela família Maia, com raízes na Moita do Norte, deste concelho.

Publicou:  COSTA, Júlio de Sousa, Memórias do Capelão dos Marialvas, Edição Romano Torres, Lisboa, 1940; COSTA, Júlio de Sousa, O Rei Dom Carlos I, Factos inéditos do seu tempo (1863-1908), Lisboa, Livraria Bertrand, 1943; COSTA, Júlio de Sousa, Ramalho Ortigão, Memórias do Seu Tempo, Edição Romano Torres, Lisboa, 1946 ; COSTA, Júlio de Sousa, O Segredo de D. Pedro V, 1941; COSTA, Júlio de Sousa, D. Maria II, 1947;  COSTA, Júlio de Sousa, Eça de Queiróz: Memórias da sua estada em Leiria (1870-71), 1953; COSTA, Júlio de Sousa, Grande Amor, 1944, COSTA, Júlio de Sousa, Severa, Lisboa, 1.ª Edição, Bertrand, 1936.

Fernando Freire, advogado de formação, é investigador da História Local e presidiu à Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha entre 2013 e 2025.

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