Grupo de adufarias de Mação. Foto: DR

Mais do que um pandeiro quadrado revestido com pele retesa dos dois lados, assente num caixilho de madeira, o adufe tem, em Mação, possivelmente a história mais calada, no sentido de tão pouco conhecida, e simultaneamente a mais cheia de significado e expressão.

Há histórias que nos caem no colo e que nos deslumbram. Os adufes em Mação são efetivamente uma dessas histórias.

Os adufes têm uma ligação única ao largo de santo António, ao poial de são João, aos Santos Populares, à festa de Santa Maria e às Mulheres da Vila de Mação.

Em meados do século passado, como ainda hoje, o poial de São João era nos fins de tarde pouso das mulheres que ali descansavam um pouco o corpo e a mente depois da labuta do dia. Sentavam-se na conversa, como ainda hoje, mas levavam na mão um adufe. 

Sentavam-se no poial de São João, na sombra de fim de tarde que a Igreja Matriz permite, correndo um ventinho bom nos dias quentes, num espaço onde apetece estar.

Naqueles tempos, sentavam-se ali as mulheres de Mação e cantavam, orando, o que lhes ia na alma. Faziam-se quadras dedicadas a Mação, aos seus santos, à vida.

Diz-se que aquele momento no fim do dia, de adufe na mão, lhes dava conforto espiritual, um género de terapia.

Pelos Santos Populares aquele ritual ficava mais sério e ainda mais cheio de graça. Faziam-se fogueiras grandes para a criançada saltar e, no poial de São João, sentadas de adufe na mão, cantavam ou oravam as nossas adufeiras de Mação.

No início dos anos 70, o Dr. Pires, vizinho da Igreja, devoto de Santa Maria, pensou, com alguns do seu tempo, que no largo de Santo António, aos pés do poial de São João na lateral da Matriz, se devia começar a fazer uma festa em Honra de Santa Maria.

E assim foi. Mas a graça desta festa foi terem sido chamadas as senhoras dos adufes para acompanharem a procissão. Falamos da ti Mari Bela, da ti Ilda Guarda, da ti Deolinda Pimenta, da Ti Maria da Cantina, da ti Rosa Costa. A cantar iam a ti Felismina, a Maria Latoeira, a Maria Perdiz ou a Dete Baço e tantas outras, algumas que começaram pequenas, curiosas, fascinadas, e que ainda hoje mantêm este grupo.

Escolheram-se algumas das suas quadras e reuniu-se a música que ainda hoje se toca, mais de 50 anos depois, na Procissão da Festa de Santa Maria.

Na altura chegaram a ser 10 adufes, três almofarizes e muitas, muitas vozes, homens e mulheres. Tocavam três quadras à saída da misericórdia, mais três na Praça, três junto ao espírito Santo, mais três no largo dos bombeiros, voltavam para baixo e cantavam-se mais três quadras no cimo da rua nova e, no final, mais seis já dentro da Igreja Matriz, no altar.

Hoje cantam-se menos. Mas continua – e não se pode perder – esta herança das nossas avós e bisavós, das mulheres de Mação lá de trás, de tempos idos, que se sentavam com os seus adufes, ao final da tarde, no poial de São João, e rezavam a cantar o que lhes doía na alma, num desabafo sentido e na procura do tal conforto especial.

No dia 1 de maio deste ano, atuaram no Cine-Teatro Francisco Serrano, a convite da Câmara Municipal de Mação. E deixem que vos diga em segredo (só aqui entre nós) que esta história calada, no sentido de tão pouco conhecida, e simultaneamente tão cheia de significado e expressão, tem futuro e novidade e resgate e… caminho para andar. Vamos ver!

Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação. Licenciada em Sociologia, trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica.
Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida. Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é.

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