Gosto da “Quadratura do Círculo”. Gosto daquele ritual. De Lobo Xavier, qual peça “Companhia das Índias”, com berço e botões de punho, lucidez e competência, medindo os terrenos que pisa. De Jorge Coelho, todo o terreno, terra a terra, tipo faiança “ratinho”, toda a ratice incluída, qual homem dos sete ofícios. E de Pacheco Pereira, figura tutelar e desconcertante, qual faiança do norte, não precisando de marca para que se lhe conheça a origem.

Há dias em que Pacheco enche, incha e lá se vai mais um botão da camisa. De intelecto e cultura superiores, deambula, disserta, filosofa. Coisa de pequenos génios e de grandes egos. Num arremedo da sua inegável capacidade argumentativa, na passada semana e a propósito da actual situação política, desdobrou-se em aristotélicas considerações retóricas em torno dos velhos “pathos”, “logos” e “ethos”.

Para ele, Pacheco, para “pathos” já basta assim. Chega-nos o Marcelo dos afectos e palmadinhas nas costas. Quis ele dizer, sem que o dissesse, que dispensava o Lopes das Misericórdias que também é mais tipo arrozinho de “pathos”. E que, para isso, já temos quem o faça melhor que ninguém. De todas as maneiras possíveis, em qualquer forno, fogão ou cozinha. Dançando em qualquer palco e nadando em qualquer mar.

Pacheco que é mais de “logos”, logo mais de razões que a razão desconhece, prefere antes uma ementa mais certinha e direitinha, com lista de compras e preços, com contas de resto zero. E é mais Rio do que mar. E o chef Rui é homem para isso, lá isso é, que já se conheceram noutras (an)danças em que os cozinhados foram outros. Sem folclore, nem gaitas de foles. Do tipo: penso, “logo”, exijo!

O problema, digo eu, será o “ethos”, que é sempre um ingrediente escasso nestas coisas da política. Talvez se encontre mais em pequenas cozinhas que nas estrelas Michelin.

Assim sendo, com a receita do Pacheco, seria trabalhar para a dieta. Não gosta de carapaus de corrida. E uma vez que a sardinha, essa, já era, ficamo-nos com arrozinho de pathos, o logos, logo se via e o ethos em banho-maria, já que ao Lopes só restaria, voltar à Figueira um dia ou às fogueiras do Medina.

A culinária política tem muito que se lhe diga. Se aos temperos do Aristóteles lhe somarmos os egos daqui e dali que apuram o cozinhado, veremos que para o vetusto banquete, sobrarão convivas para as cadeiras disponíveis.

Ainda a procissão vai no adro, mas os tachos já estão ao lume. Hum, cheira-me a esturro.

Adelino Pires nasceu em Portalegre, em 1956, num dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou, e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Alfarrabista no centro histórico de Torres Novas, gosta do que faz e faz o que gosta. Mais monge que missionário, cronista nalguns jornais, publicou um livro em 2015 (“Crónicas Com Preguiça”). É nos seus escritos vadios que, no dia a dia, vai olhando o que sente.

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