Foto: Kimon Maritz/Unsplash

Encontrei um artigo que me fez pensar um pouco sobre os decantados apoios à cultura que tantos responsáveis se gabam em dar, e em apresentar projectos em prol dela, e gostava de o dar a conhecer aos leitores do mediotejo.net. O raciocínio é o seguinte:

“Se uma autarquia com um orçamento anual de 100 milhões inaugurar um centro cultural (ou museu ou galeria) no valor de 10 milhões de euros, pode bazofiar-se de consagrar (no mínimo) 10% do orçamento à cultura. Porém um centro cultural de 10 milhões de euros, por si só, nada faz pela cultura, embora faça muito pelo sector da construção civil.

A sua construção traz alegrias e rendimentos a quem comercializa revestimentos em mármore e instala caixilharia de alumínio, mas não melhora as perspectivas de carreira de artistas plásticos e companhias de teatro.

E isto é uma simples realidade, algo que nós artistas sentimos na pele. Uma ilustração simples: quando se adquire uma obra de arte, gasta-se muito na moldura e na apresentação mas o quadro pretende-se que seja quase dado pelo artista ou, pelo menos, com um BOM desconto. E aqui vai outro raciocínio relativamente a este artigo:

O que importa aos artistas e ao seu público é o uso que o equipamento cultural tem e as dinâmicas que gera e o que é típico na realidade autárquica portuguesa é que uma estrutura que custou 10 milhões de euros a erguer tenha um orçamento anual de funcionamento de 100.000 euros… porque dos 100.000 euros do orçamento anual a maior parte não servirá para pagar aos artistas mas sim despesas de funcionamento, tais como iluminação, água, ar condicionado, limpeza, segurança, manutenção, divulgação de eventos, etc.

É bem provável que os ordenados dos funcionários municipais vinculados ao equipamento excedam largamente o dinheiro gasto com artistas.

Mais uma simples realidade: colegas meus e eu somos repetidamente convidados a participar em eventos e exposições pelos incêndios, apoios a candidaturas para subsídios europeus e muitos outros… mas pede-se ao artista (plástico, cantor ou comediante) que possa atuar grátis ou apenas pelas despesas.

E para concluir, coisa que não tinha pensado ainda, mas que este artigo sublinhou, e muito bem, é a confusão orçamental do apoio à cultura, que deixa pensar que uma instituição gasta muito pela arte mas afinal muita coisa é misturada inconveniente-mente e diz:

“Há também a considerar que sob os gastos na rubrica “cultura” cabem coisas tão diversas como a edição do catálogo de uma exposição de Robert Frank e a de um livro de versos de pé-quebrado de um poeta popular de Curral das Burras, um concerto de música barroca pelo ensemble Café Zimmermann e a contratação do acordeonista MIDI Tozé Malaquias para animar a Festa das Chouriças, uma exposição de desenhos de Egon Schiele e a mostra de quadros de flores prensadas dos alunos da Universidade Sénior, a aquisição de uma edição original de 1665 das Obras métricas de D. Francisco Manuel de Melo e o desentupimento das instalações sanitárias da biblioteca municipal”.

Por estas razões e realidades, penso que teria de ser reestruturado este famoso apoio à cultura que afinal pouco apoia os artistas que atuam em Portugal, e sobretudo no Médio Tejo.

Quem tem ouvido, que entenda. Quem pode fazer algo… que o faça!

O artigo que inspirou esta crónica foi publicado no Observador.

Pintor Italiano, licenciado em Arte e com bacharelato em Artes Gráficas em Urbino (Itália), vive em Portugal desde 1986. Em 1996 iniciou um protejo de ensino alternativo de desenho e pintura nas autarquias do Médio Tejo que, após 20 anos, ainda continua ativo. Neste projeto estão incluídas exposições coletivas e pessoais, eventos culturais, dias de pintura ao ar livre, body painting, pintura com vinho ou azeite, e outras colaborações com autarquias e instituições. Neste momento dirige quatro laboratórios: Abrantes, Entroncamento, Santarém e Torres Novas.

Deixe um comentário

Leave a Reply