Há percursos que começam muito antes da linha de partida. Antes das medalhas, das convocatórias para a Seleção Nacional ou dos campeonatos internacionais, houve uma criança que aceitou o convite do pai para experimentar a canoagem e seguir as pegadas da irmã. O resto foi acontecendo ao ritmo das pagaiadas.
Aos 16 anos, Lara Martins prepara-se para representar Portugal no Campeonato da Europa de Canoagem de Velocidade de Juniores e Sub-23, que decorre em Szeged, na Hungria, depois de uma época que reforçou o estatuto de uma das mais promissoras atletas da modalidade.
Natural de Atalaia, no concelho de Vila Nova da Barquinha, e atleta do Centro Náutico Barquinhense há oito anos, encara a nova chamada à seleção com a serenidade de quem já conhece o palco internacional, sem perder o entusiasmo de quem continua a viver cada competição como uma oportunidade.
“Foi por causa da minha irmã do meio”, conta ao mediotejo.net, ao recordar o primeiro contacto com a modalidade. “Ela já fazia canoagem e o meu pai também tinha praticado quando era mais novo. Eles começaram os dois e, um dia, o meu pai convidou-me para experimentar. Gostei e fiquei.”

No início, garante, não havia objetivos ambiciosos. “Quando comecei, não comecei para vir ganhar, foi para me divertir.” Só mais tarde, quando os resultados começaram a surgir, percebeu que havia ali mais qualquer coisa. “Quando comecei a ganhar as provas e via que realmente era boa, se calhar percebi que tinha potencial.”
Essa confirmação chegou relativamente cedo, “dois a três anos” depois de iniciar a prática. Desde então, o currículo foi crescendo.
Em Portugal, Lara soma vários títulos nacionais nas provas de fundo, velocidade e esperanças. Além-fronteiras, destaca a medalha de prata conquistada no ano passado, na prova de K4 500 metros dos Olympic Hopes, competição de referência para jovens talentos europeus.

Agora regressa às grandes competições internacionais, desta vez no escalão de juniores. Uma presença que não surge por acaso.
“Já estava à espera, porque também já competi em anos anteriores lá fora. Este ano já sou júnior e a prova é para juniores. O ano também tem corrido bem, por isso é sempre bom.”
Apesar da naturalidade com que encara a convocatória, admite que representar Portugal continua a ter um significado especial.
“Sinto-me bem. Gosto muito de representar o meu país, é sempre uma experiência diferente do que fazer provas cá em Portugal. Gosto muito, é muito divertido.”




Entre os treinos, a escola e um sonho chamado Jogos Olímpicos
A preparação pouco muda por causa do Europeu. O trabalho faz-se durante todo o ano. Recentemente esteve em estágio, onde Lara cumpriu uma rotina exigente: dois treinos diários, sessões na água, ginásio, corrida e, durante o inverno, também natação. Uma carga física que precisa de ser conciliada com o percurso escolar. Prestes a iniciar o 12.º ano, na área de Ciências, admite que nem sempre é fácil.
“Temos de dar um bocadinho de atenção a todos os pormenores. É um bocadinho difícil, mas acho que, se nós quisermos, tudo se faz.”
A disciplina prolonga-se para lá das horas de treino. Chegar a casa cansada e ainda estudar faz parte da rotina. “Temos de forçar às vezes”, afirma.


Quanto ao futuro académico, ainda não há decisões tomadas. Já no desporto, o horizonte está bem definido. “Acho que é sempre um sonho para cada atleta chegar aos Jogos Olímpicos.”
Para já, porém, o foco está na Hungria. Lara vai competir em K1 1000 metros e em K4 500 metros, disciplina onde deposita maiores expectativas.
“O primeiro objetivo é chegar à final e depois lutar pelos primeiros lugares”, afirma sobre a prova coletiva. Já o K1 será encarado “para ver como corre”, numa distância menos habitual, mas onde promete dar “o melhor”.

Um clube pequeno, resultados grandes
No Centro Náutico Barquinhense, a convocatória é recebida como mais um marco numa história recente feita de crescimento sustentado e resultados que ultrapassam a dimensão do concelho. Para Bruno Rodrigues, presidente do clube desde fevereiro, a presença de Lara no Europeu simboliza muito mais do que um sucesso individual.
“Representa um orgulho enorme. Num concelho tão pequeno e com um número limitado de atletas, é um orgulho ter atletas a representar Portugal. É fruto de muito trabalho, principalmente dos atletas, dos treinadores e de toda a família que os tem apoiado.”

O clube conta atualmente com cerca de 44 atletas, maioritariamente crianças e jovens até aos 15 anos, acompanhados por três treinadores. O crescimento existe, mas é naturalmente condicionado pela dimensão do território.
“Tem entrado um ou dois atletas por ano. Não conseguimos ter um crescimento exponencial porque a população-alvo também é pequena.” Além disso, reconhece, a canoagem exige perseverança.
“É um desporto onde há muita desistência porque os resultados não aparecem de um dia para o outro. Os invernos são rigorosos e nem toda a gente gosta de andar na água com frio.”


Apesar disso, o clube continua a produzir atletas de elevado nível competitivo. Lara e a irmã, Vera Martins, são atualmente os dois atletas do Centro Náutico Barquinhense com estatuto de alto rendimento, os primeiros do concelho a alcançar essa distinção. Bruno Rodrigues explica que esta é uma realidade inédita em Vila Nova da Barquinha e que o Município está ainda a trabalhar na criação do respetivo regulamento.
Segundo o dirigente, esse é precisamente um dos sinais de que o clube está a fazer o caminho certo. E os números reforçam essa ideia.
“Num clube com 40 atletas, conseguirmos colocar cinco atletas em estágios da seleção acho que é extraordinário no nosso país.”

O próximo desafio faz-se em terra
Se dentro de água os resultados aparecem, em terra continuam a existir limitações. O presidente identifica como prioridades a remodelação das instalações, a ampliação do ginásio e melhores condições para atletas e treinadores.
“Os atletas de alto rendimento precisam de muito trabalho fora de água. Neste momento não conseguem fazer esses treinos aqui.”


Entre os objetivos está também garantir melhores condições para a equipa técnica e consolidar o reconhecimento institucional do clube. Recentemente foi aprovado o estatuto de utilidade pública, um passo que Bruno Rodrigues considera importante. “Foi um reconhecimento do trabalho que temos feito pelos atletas e pela comunidade.”
À partida para a Hungria, Lara leva consigo o nome de Vila Nova da Barquinha, do clube e de uma comunidade que acompanha cada conquista.
No entanto, para quem diariamente acompanha o seu percurso, o sucesso já começou muito antes da primeira pagaiada em competição.



“Acima de tudo, ela estar lá já é conseguido”, resume Bruno Rodrigues. “É sinal de que todo o trabalho que temos feito tem sido bom.”
E deixa-lhe apenas um desejo: “Que se divirta.”
Talvez porque, no desporto como nos rios, há percursos que não se medem apenas pela meta. Antes da seleção, dos títulos e das expectativas, houve apenas uma menina que descobriu na água um lugar onde queria ficar. O resto veio com o tempo, ao ritmo das pagaiadas.
