Não vamos falar sobre política nem sobre incêndios, pois não?
Não, não me parece… seria um ótimo tema de conversa, mas com tanta gente a pronunciar-se sobre o assunto, é preferível procurar outro tema para esta nova conversa.
Como aquele humorista que, na rádio, hoje, em vez de falar do tema de que toda a gente fala optou por falar sobre a adolescência. Com graça, diga-se de passagem.
Então, se defendes que fazer o que os outros fazem, quando se trata de coisas bem-feitas é algo que pode ser replicado – replicado e não copiado, note-se – então podemos falar sobre a adolescência!
Ora, ora, mas tu até sabes que eu fui uma adolescente completamente atípica. Nunca me enfiei no quarto a suspirar de amores, nunca me isolei, nunca achei que o mundo estava todo contra mim, nunca tive acne!!!
Pois, mas os teus tempos de adolescência já lá vão e há muito tempo… Hoje, a realidade dos jovens é completamente diferente. É normal que as diferentes gerações tenham dificuldade em lidar umas com as outras, mas quando os tempos evoluem muito rapidamente torna-se ainda mais complicado.
Por isso é que um dia destes dei por mim a consultar teses de Mestrado sobre o relacionamento entre mães e filhas adolescentes.
Ah foi?! E o que descobriste tu, que foste uma adolescente anormal?
Que não vale a pena comprar certas guerras…
A sério? Só isso?
Não, mas foi o que eu precisei de ler para mudar a minha forma de reagir. Por exemplo, deixei de me preocupar com a desarrumação do quarto. Quer viver no meio da confusão, que viva! Até porque a minha mãe garante que, nisso, eu fui uma adolescente típica. Eventualmente, como diriam os ingleses, ela acabará por perceber que tudo espalhado por todo o lado, lixo acumulado, roupas de cama enrodilhadas e toalhas do banho molhadas a ganhar mofo não são uma coisa muito simpática de se ter no quarto…
Então e como é que lidas com isso?
Na maioria dos dias, ignoro. De vez em quando arrumo e limpo.
E ela deixa que mexas nas coisas dela?
Claro! Da última vez que arrumei o quarto, quando entrou disse: UAU!! Ou seja, não gosta de viver na confusão. Portanto, é uma questão de tempo.
É mesmo tudo uma questão de fases. Tudo passa! Só as borbulhas é que podem deixar marcas para a vida…
Verdade, há que levar os adolescentes com calma e descontração. Nem sempre é fácil, sobretudo quando decidem encontrar traumas para os seus comportamentos ou quando passam a vida a comparar-se com o amigo ou amiga da ‘família perfeita’. Encontrar estratégias para lidar com o que nos parece absurdo nem sempre é fácil.
Pois não! Sobretudo na relação das adolescentes com as mães…
O mais difícil é fazê-las ver a nossa perspetiva. Estão completamente bloqueadas na sua forma de olhar para o mundo e, sobretudo, para as mães. Raramente descolam da análise que fazem. A propósito disso, um dia destes saíu-me um comentário que acho que finalmente atenuou a tensão…
Então o que lhe disseste?
“Sabes, eu percebo as tuas reações e o teu comportamento de adolescente. Afinal, tens as hormonas aos saltos, cheias de vontade de mostrar que existem e que têm personalidade própria. Pois eu gostava que percebesses o meu comportamento, porque tenho as minhas hormonas a envelhecer e constantemente a perturbar-me, irritadas e revoltadas porque não querem morrer!”
E ela?
Virou a cara e sorriu, embora disfarçadamente, porque entende que nem sequer pode achar graça ao que eu digo. Isso seria um grau de cumplicidade que adolescente que se preze não pode ter com a mãe! Certamente que prefere as marcas das borbulhas…

