Ana Paula Aguiar trabalha a arte de reciclar. Lisboeta de nascença mas vilarregense de coração, coloca todo o seu talento na mais ínfima das suas criações. Créditos. mediotejo.net

Parece tão fácil a ideia de pegar em algo, aparentemente, sem serventia e criar objetos decorativos ou peças de arte. Independentemente do que possa parecer, certo é que toda peça artesanal exige um pensamento estruturado, têm uma abordagem, reflete a forma de pensar do autor que a transporta, palpável e concreta, para a forma de existir, de utilizar e de ver. E o que vimos? O lado criativo de Ana Paula Aguiar, capaz de dar uma segunda oportunidade às coisas na “arte de reciclar”. Em tudo o que vê, encontra sempre um segundo olhar, a possibilidade de transformar lixo em arte ou simplesmente numa peça útil.

“Comecei com o patchwork, era um trabalho que a minha avó fazia, com restos de tecido, e eu achava engraçado e quis aprender. Foi a minha mãe quem me ensinou há mais de 30 anos”, começou por explicar ao nosso jornal.

Nessa época Ana Paula ainda não sabia mas acabou por ser o artesanato o seu motor de movimento, aquilo que a entusiasma, que na verdade ambiciona como única profissão. A história, até ao momento, não se escreveu assim mas o “amor” à criatividade, que explora com as mãos, falou mais alto e grande parte do seu tempo é dedicado à arte da transformação.

No seu pequeno atelier, uma espécie de oficina que montou em sua casa, podemos encontrar uma máquina de costura, bancadas com tintas e colas, massas de moldar e matéria prima – tecidos, plástico, cartão, revistas, amontoados de barro velho – que para muitos não passará de lixo mas para Ana Paula tem a utilidade da renovação. Se tivesse um lema escrito à porta seria: “todos temos direito a uma segunda oportunidade”. Diz ter ido buscar inspiração à vontade que tem desde criança de alterar o que vê.

“O artesanato é importante, reciclar é muito importante. Trabalhar naquilo que gostamos é o complemento do que precisamos para ser felizes e para estar bem psicologicamente mas isso não invalida que não tenhamos de evoluir porque antigamente o artesanato era muito básico. Acho que temos de evoluir em função do pedido do cliente; como os presépios… talvez as peças que mais vendo. Estou sempre à procura dessa evolução”, refere.

A artesã nasceu em Lisboa, cidade onde viveu até aos 18 anos. Foi por essa altura que Ana Paula percebeu que seria feliz em Vila de Rei. Habituada a passar os verões na Fundada, terra natal da mãe, “gostava de viver” na calma e tranquilidade da ruralidade e mudou-se para o interior do País onde iniciou “a fazer patchwork”, uma forma de sustentar a vida e o meio imediato de a “transcrever” com a sensibilidade dos seus desenhos e cores.

Contudo, a dedicação ao artesanato “parou por uns tempos. Realiza-me muito mas não é um rendimento certo. Como meio de sustento único, não é fácil. Por vezes as pessoas até gostam de uma peça que custa 40 ou 50 euros, e valorizam, mas infelizmente adiam a compra para o mês seguinte e depois vai passando porque há sempre outras prioridades que o artesanato não será”, desabafa.

Pelo meio, tomou outro caminho profissional, como técnica no gabinete de obras públicas na Câmara Municipal de Vila de Rei, sendo que há cerca de 7 anos “quis investir no artesanato, não só no patchwork” tendo surgido a ideia de “aproveitar as coisas naturais. E tantas outras que as pessoas não aproveitam, que supostamente vão para o lixo, com as quais se pode fazer peças lindas”.

O seu trabalho reflete portanto “a arte de reciclar”, sejam tecidos, troncos, cortiça, pedra, sejam “coisas que ninguém aproveitaria, mas juntos numa peça acho que resulta. São peças únicas. É esse o meu espírito: não estragar e reaproveitar. O planeta agradece”, afirma.

Ana Paula Aguiar trabalha a arte de reciclar. Lisboeta de nascença mas vilarregense de coração, coloca todo o seu talento na mais ínfima das suas criações. Créditos. mediotejo.net

As suas peças, fomos encontrá-las na Loja de Produtos Endógenos de Vila de Rei, local de exposição e onde é possível adquirir produtos regionais, peças de arte ou de artesanato. Mas, na verdade, o seu trabalho também pode ser encontrado noutros pontos do País.

No Centro de Portugal, curiosamente, encontramos, no trabalho de Ana Paula, a sua raiz alfacinha, por exemplo numa antiga e partida telha de barro transformada em elétrico do bairro da Graça. “Acho que é engraçado trazer um bocadinho das minhas raízes para Vila de Rei e vice versa. Este elétrico é uma peça que as pessoas gostam. Tal como a Capela da Nossa Senhora da Guia em Vila de Rei”, explica.

Tudo depende da imaginação e do fascínio pelas matérias primas que a natureza oferece dando-lhe a mão humana uma outra compreensão. Mais em baixo, no expositor, um saco feito em papel. “São rolinhos de folhas de revista, que supostamente ia para o lixo mas aqui está com outra aplicação”. Na sala ao lado Ana Paula mostra taças igualmente feitas com folhas de revista.

Assume-se como autodidata, conta que vai fazendo workshops, aprendendo, experimentando, muitas tentativas, muitos erros. Mas é a imaginação o instrumento preciso por meio do qual pode criar peças como presépios em pedra e cortiça, com pequenos paus de mexer o café na construção da cabana, restos de naperons, galhos que reaproveita para dar forma aos objetos, que aparecem primeiro na sua cabeça, mal olha para o “desperdício”.

“Vejo e a minha cabeça reporta-me logo para um trabalho. Consigo imaginar a peça final. Preciso disso, é amor e uma terapia. É algo que me transmite paz e algo que necessito porque é uma paixão, que me realiza e porque tenho muitas ideias para pôr para fora. O tempo que estou dedicada ao artesanato estou mesmo dedicada. Há peças que gosto de vender mas ao mesmo tempo lastimo porque gostei tanto de a fazer. Não posso ficar com todas!”, refere.

Sendo certo que o artesanato surge muito “da gestão do tempo”, uma vez que é funcionária do Município a tempo inteiro. Porém, como mora “perto” do posto de trabalho tem “a vantagem” de se deslocar a pé, “tenho mais tempo do que se tivesse de andar muitas horas de transporte”, nota.

Quando recebe encomendas – que personaliza segundo o pedido do cliente – entrega-se ao trabalho noite dentro, uma vez que dedica à criação artesanal apenas as horas vagas. “Gosto tanto que esse bocadinho é maravilhoso”. É o caso, na criação de ímans de frigorífico como fez para a prova de lés-a-lés ou para provas de motas, de bicicletas ou relativos à passagem pela Estrada Nacional 2. “São peças criadas exclusivamente para esses eventos. Acho que é uma mais valia tentar aproveitar os materiais dando-lhe uma nova vida. E temos várias valências numa peça só”, diz.

O feedback do público “enche o coração” de Ana Paula. “É muito positivo. Aquela peça em pedra com as famílias é das que mais se vende. As pessoas gostam muito”.

Cria também jogos didáticos que constrói com pedras guardadas em pequenos sacos de pano “para os pais levarem no bolso, por exemplo para o restaurante. As crianças, em vez de estarem ao telemóvel, a ver vídeos consecutivamente, podem estar a fazer contas de matemática ou a jogar ao galo. É uma maneira diferente de reutilizar e de as ocupar com coisas úteis”. Ou ainda jarras elaboradas com filtros de café usados, garrafas embelezadas com entrançado em papel de jornal, o Centro Geodésico feito com uma telha de barro ou também o Santo António colorido com cinza da lareira.

Os materiais são praticamente infinitos: desde pedaços de azulejo a caixas de café passando por cascas de noz ou conchas. O segredo é simples: observação da realidade. “Olho muito. Às tantas começamos a ter o olho formatado para certas coisas. E vejo numa concha por exemplo uma Nossa Senhora ou um menino Jesus ou um burro e uma vaca”. Até a pequenos pedaços de vidro que apanha na praia, Ana Paula consegue dar uma segunda oportunidade ao mesmo tempo que ajuda a limpar, “uma contribuição muito pequenina mas que tem a sua utilidade” na transformação, afirma.

As peças, à venda na Loja de Produtos Endógenos de Vila de Rei, podem ser adquiridas entre os 48 euros e os 1,5 euros, mas poderão ter preços mais elevados. Recorda uma maqueta que fez de uma casa, por encomenda, que demorou dois meses a construir, ou uma colcha em patchwork que poderá ultrapassar os cem euros porque “é muito trabalhosa” e demora mais de um mês a ser costurada, justifica a artesã.

Ana Paula vende o seu trabalho em feiras como a Feira dos Enchidos, Queijo e Mel de Vila de Rei, também na Mostra de Saberes e Sabores de Sardoal e por vezes na FATACIL – Feira de Artesanato, Turismo, Agricultura, Comércio e Indústria de Lagoa, assim a sua disponibilidade permita. Além disso tem os seus trabalhos em “vários restaurantes” de Vila de Rei, na aldeia de xisto de Água Formosa, em estabelecimentos comerciais de Mação e também em Lisboa, especificamente em Alcântara. E pode ser encontrada nas páginas das redes sociais Facebook e Instagram em ‘A Arte de Reciclar 26’. “Os clientes podem encomendar e personalizar. Acho interessante a pessoa poder personalizar, ter a peça como idealizou”, diz.

Sobre a vida de feirante, considera “importante” estar presente em feiras porque “permite-nos conhecer outras pessoas, outras formas de trabalhar, outras maneiras de decorar, outros trabalhos, outras culturas. É sempre uma mais-valia. Temos de nos fazer presentes. É uma forma de abrir novos horizontes; o artesanato não pode morrer fechado. O tradicional é muito bonito mas podemos dar-lhe uma jovialidade, uma diferença. É isso que tanto fazer!”, insiste.

Por agora, ambiciona alargar a área de trabalho, o número de locais onde tem as peças expostas e não afasta a possibilidade de futuramente trabalhar apenas no artesanato. “Para já não”, afirma mas, admite, “o ideal era poder viver do artesanato. Era maravilhoso!”.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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