Há poucos meses atrás chegou-me às mãos um documento de apresentação de um pseudo-milagroso-mega-projeto-de-desenvolvimento-económico-salvador-da-pátria para realizar em Portugal.
A embriaguez eufórica de boas intenções (e segundas intenções) deste documento é de tal modo evidente que o levam a denunciar-se a ele próprio, com notórios passos cambaleantes no seu percurso sinuoso e o fazem estatelar-se ao comprido na análise SWOT, indicando puerilmente os movimentos ambientalistas como as fraquezas e ameaças do seu virtuoso projeto.
Sim… Em 2019 ainda há em Portugal quem pense e diga em voz alta, sem corar de vergonha, que os movimentos ambientalistas e todos os que se preocupam com a destruição da natureza são uma ameaça e uma força de bloqueio do desenvolvimento económico.
Sim… Em 2019 ainda há em Portugal quem ingenuamente aponte os movimentos ambientalistas e quem se preocupa com a degradação da natureza como entraves e obstáculos aos seus projetos económicos imediatistas, egoístas, meramente venais e de vistas curtas.
Para estas luminárias atacar frontalmente os ambientalistas e considerá-los como adversários ou até inimigos ainda é uma ilusória forma de angariar apoios na opinião pública e ganhar forças para os seus intentos.
Até há cerca de vinte anos atrás era comum dirigentes políticos com responsabilidades autárquicas e até nacionais fazerem afirmações literalmente trogloditas atacando impunemente ambientalistas, dizendo que não lhes passavam cartão, ou que deviam ser corridos à pedrada.
Neste domínio hoje vivemos outros tempos, mais polidos, mais dissimulados e mais carregados de hipocrisia.
Todos os partidos e movimentos políticos portugueses com expressão eleitoral dizem preocupar-se genuinamente com os problemas ambientais, com a destruição da natureza e com as alterações climáticas. A última campanha eleitoral foi disso exemplo.
Mais vale tarde do que nunca…
Em democracia quando todos os movimentos políticos mais expressivos colocam no centro dos seus discursos os problemas ambientais e a necessidade de combate às alterações climáticas, isso significa terem entendido que a sociedade que os elege dá uma importância cada vez maior a estes temas e exige o desenvolvimento de verdadeiras políticas ambientais.
A própria Constituição da República Portuguesa coloca os valores do ambientalismo ao mesmo nível dos valores da democracia e da liberdade no capítulo dedicado aos direitos fundamentais dos cidadãos.
Atualmente nenhum dirigente político português com juízo e instinto de sobrevivência diz publicamente que não é ambientalista. Seria o mesmo que afirmar diretamente e sem rodeios ser fascista, racista ou antidemocrata.
A sociedade portuguesa exige hoje que todos os dirigentes políticos tenham como preocupação os problemas ambientais e as alterações climáticas. Por outras palavras, que sejam políticos e ambientalistas. Que todos os políticos devem ser ambientalistas.
A política de ambiente é transversal a todas as outras políticas setoriais e a sua importância condiciona o sucesso das restantes, o que a coloca num plano de elevada relevância comparativa e determina a sua necessidade de coordenação intersectorial.
Num governo ou órgão executivo nacional, regional, ou local, não chega existir um ministro do ambiente que seja ambientalista, que defenda a natureza e desenvolva políticas de mitigação e adaptação às alterações climáticas.
Todos os políticos desse mesmo órgão executivo devem ser ambientalistas e todos eles devem ter consciência que vivemos tempos de emergência da crise ambiental. Cada um deve dar o seu contributo individual nesta causa comum.
Como afirmou na passada semana o cientista Miguel Bastos Araújo, vencedor do Prémio Pessoa 2018, “o ambiente não deverá ser arma de arremesso da pequena tática partidária. Fora das margens políticas já existe consenso sobre o diagnóstico geral”.
Temos de passar das meras palavras vãs aos atos concretos e corrigir os erros do passado.
