A equipa de futebol do AMFA em treinos no Campo de Jogos Dr. Armando Matafome. Créditos: mediotejo.net

Falámos com o presidente da direção da AMFA, João Farinha, de 35 anos, mas ligado à Associação desde os 18. Foi o clube que o integrou quando chegou à freguesia vindo do Baixo Alentejo, para viver numa terra desconhecida. Hoje considera Alvega a sua casa, mas assegura que cumpre o último mandato. Em maio de 2023, se não surgir um grupo de cidadãos que queira agarrar na coletividade, a AMFA corre o risco de desaparecer, e com ela o futebol, o único evento que dinamiza a comunidade alveguense.

Chamaram-lhe Associação de Melhoramentos da Freguesia de Alvega, mas a coletividade “melhora” exatamente em quê? “Dá espaço ao futebol… mas conheci a AMFA já neste formato”, lembra João Farinha, o presidente da direção.

Ou seja, detém o clube de futebol, não sendo uma associação exclusivamente desportiva, contudo, não consegue ir mais além. Sendo certo que a direção gostaria de dinamizar projetos lúdicos, de fomentar o intercâmbio de experiências e desenvolver programas culturais – foi com esse pensamento que agarrou na antiga Escola Primária de Alvega; queria fazer daquele espaço um local de convívio e Cultura – mas “é impossível! Se só com o futebol é difícil, imagine termos uma companhia de teatro ou o que quer que fosse para além disto”, observa.

Sem conseguir levar por diante uma dinâmica cultural, a Escola assumiu a função de arrecadação. Tudo porque faltam recursos humanos e seria essencial trazer mais jovens para o associativismo.

João Farinha integra os corpos sociais da Associação há cerca de seis anos e “no pós pandemia, não havia quem assumisse a direção. Fui sondado por vários dos meus colegas [que estavam no campo em treinos aquando desta conversa] porque já havia uma preocupação. Em Alvega as coletividades são obsoletas, não existem, e era mais uma nessas condições. Não queria ser presidente, porque conhecia as dificuldades, são sempre os mesmos a trabalhar. Mas depois houve uma pressão da minha família e acabei por aceitar. O associativismo toma-nos aquilo que, para mim, é o mais importante; o tempo”, disse ao mediotejo.net

Com o seu mandato a terminar a 25 de maio de 2023, o presidente apela agora à responsabilização e intervenção dos cidadãos na vida social e em particular na AMFA, pede que as pessoas se agrupem em torno deste interesse comum, que é o futebol, mas com objetivos de entreajuda e cooperação.

“Temos falado com os jovens da freguesia, para não deixarem a Associação morrer, mas não se vê essa vontade”, lamenta. Afirma existir “uma forte possibilidade” da Associação encerrar as portas. “É chegada a hora de não criticar e meter mãos à obra. A Associação precisa porque faz muito pela comunidade”.

João Farinha é o presidente da Associação de Melhoramentos da Freguesia de Alvega. Créditos: mediotejo.net

Se possibilidade se ser colocado um ponto final na AMFA “é uma perda enorme para a freguesia, porque sem o futebol, aos domingos, as pessoas não fazem nada. O futebol dinamiza mesmo a Freguesia de Alvega. Diria até que é o principal dinamizador da freguesia. O futebol, neste momento, é aquilo que faz Alvega mexer. O desporto proporciona o convívio. O campo de jogos é um espaço fundamental para as pessoas se encontrarem e estarem juntas”, refere.

Recorda que há meia dúzia de anos a AMFA viveu momentos conturbados, com dívidas por saldar e, na época, um conjunto de pessoas desenvolveu um trabalho conseguindo reerguer a Associação. Presentemente, particularmente no ano em que irá celebrar 40 anos, seria “muito triste” se “depois desse esforço, a Associação morresse ou estagnasse”, diz confessando ser esse o seu maior receio.

João Farinha é natural de Moura, no Baixo Alentejo, mas também se considera alveguense. Conta que quando chegou a Alvega era um jovem que havia terminado o ensino secundário. Uma época de más memórias, sem sentimento de pertença, sentindo-se um forasteiro na terra que o acolheu.

“E a Associação contribuiu imenso para a minha integração. Vim para aqui jogar futebol, conheci muitos colegas e eles ajudaram-me bastante. Tenho a certeza que sem a Associação a minha integração tinha sido muito mais complicada. E desde aí ganhei um carinho muito grande pela AMFA”. Ou seja, o associativismo e as coletividades “também têm esse papel de integrar”.

Apesar do tempo pessoal despendido para dar à comunidade e vida ao associativismo, João Farinha considera o resultado “gratificante. Não preciso que ninguém me diga que o Alvega está bem. Basta vir ao campo ao domingo ver o jogo e fico satisfeito”.

Admitiu, no entanto, que os últimos dois anos foram “muito difíceis” para as coletividades, que viram quase todos os seus eventos cancelados por causa da pandemia de covid-19. E mesmo este ano, quando contavam com a Feira Gastronómica de Alvega, um balão de oxigénio financeiro das coletividades locais, o executivo da Junta de Freguesia entendeu não ser viável a realização do certame.

Feira Gastronómica de Alvega. As coletividades colaboram no certame, ajudando a dinamizar a freguesia e servindo os pratos e petiscos tradicionais nas tasquinhas. Foto: Ramiro Farrolas

Numa reunião com o executivo “expus a situação ao presidente da Junta, que a decisão colocava em causa o funcionamento da Associação de Melhoramentos da Freguesia de Alvega porque a nossa sustentabilidade depende da Feira Gastronómica, onde conseguimos alguma verba” e também dos festejos religiosos com arraial popular, referiu.

Valeu-lhes, de facto, Nossa Senhora dos Remédios, ou seja, a festa organizada anualmente, em alternância, por duas coletividades; a AMFA e a Banda Filarmónica Alveguense. Este ano, cabia à Banda a organização do arraial popular, tendo recusado sobrando esse trabalho, e também a receita, para a Associação. “Se não tivesse acontecido assim, não sei se estaríamos aqui hoje. Ia ser muito complicado”, assegura, deixando “um agradecimento do fundo do coração” a todas as pessoas que estiveram envolvidas na realização da festa. Estende ainda os agradecimentos àqueles que na Associação são o seu “paraquedas e não têm apenas o nome na lista”, aos patrocinadores e ao apoio da família.

Isto porque, a família destes voluntários que exercem a cidadania dando o seu tempo à comunidade, desempenha no associativismo igualmente um papel crucial, na medida em que apoiam a ausência dos familiares.

“Há pessoas que não integrando a direção ajudam mais do que algumas que integram os corpos sociais. Só deram o nome para compor a lista, de resto não contribuem”. E contribuir passa também por tarefas semanais como colocar a roupa dos jogadores a lavar, depois estender e apanhar após a secagem, ir às compras, entre outras tarefas.

Por causa disso, conta que a sua “frontalidade” causou-lhe algumas “quezílias” e “pequenos conflitos” porque “acabas por confrontar as pessoas e não tens de o fazer. O maior rancor que guardo desta experiência é a desilusão. Perdi a fé nas pessoas”, desabafa.

Foto: AMFA

Durante a pandemia manter a Associação ampliou o desafio. “Tínhamos despesas mas não receitas. Não havia rendimentos, não havia atividade. A caixa que tínhamos foi para fazer face às despesas correntes, isto porque a anterior direção, da qual também fiz parte, deixou algum desafogo financeiro. Senão era impossível!”, garante.

Lembra que, aquando da retoma de atividade, “as pessoas ainda estavam receosas, mesmo para ir ao bar” que funciona no campo de jogos de Alvega de 15 em 15 dias durante o campeonato. “Nunca teve uma receita relevante, sendo que os barris de cerveja estão cada vez mais caros. O receio era compreensível havia 17, 18 ou 20 mil casos por dia”, analisa João Farinha. A Associação conta ainda com a verba do “peditório” que realiza durante o jogo, quando Alvega joga em casa, sendo “superior” ao lucro do bar.

Segundo o presidente, “a sorte da Associação”, com cerca de 300 associados, passa pelo apoio da comunidade alveguense. “A população identifica-se muito com a Associação. As pessoas gostam da Associação e é aquilo que acaba também por nos mover. Verificamos, domingo após domingo, que há dinâmica, as pessoas gostam de ir ao futebol e nós sentimos que prestamos um serviço à comunidade, e é isso que nos enche de orgulho” sublinha.

A comunidade alveguense acompanha a equipa também nos jogos fora de casa. AMFA

Em termos financeiros, para inscrever a equipa de 24 atletas no Inatel, a AMFA precisa de 1500 euros. Os atletas jogam por amor à camisola, “ninguém recebe nada. Há pessoas de Abrantes e de outras terras, e não recebem nem uma ajuda para o gasóleo e na atual conjuntura sabemos que todos atravessamos dificuldades”. No final do jogo a AMFA oferece “um petisco, o que também acarreta custos”, explica.

Com a situação da pandemia surgiu como condição de competição “todos os atletas têm de realizar exames médicos, algo que não acontecia anteriormente, apenas no futebol distrital, mas não no Inatel. Falamos de 300 euros para os exames médicos. Mais as deslocações e contas correntes como água, luz, IMI, mais os encargos com a Escola” onde aguardam iniciativas: jogos didáticos, livros e outro material oferecido.

“Foram reunidas condições para fazer daquele espaço um local lúdico. A anterior direção tentou avançar com essa ideia, porque tinham recursos humanos e gente com vontade para tal, mas acho que, neste caso, falta adesão da população. Hoje em dia gostar de Cultura é difícil. Ter uma população envelhecida é outra das condicionantes”.

Os patrocínios, que surgem dos pequenos empresários da freguesia, permitem a compra dos equipamentos, material como meias e bolas e outro necessário para os treinos. Além disso, a AMFA conta com o apoio do programa FinAbrantes, do Município de Abrantes.

“Conseguimos no ano passado os 1500 euros – valor máximo -, este ano voltámos a concorrer e a candidatura já foi aprovada. Agora virá a primeira tranche que são 750 euros e depois posteriormente à apresentação da faturação que corresponde àquele orçamento que nós preparamos, é facultada a segunda tranche, completando os 1500 euros. Uma boa ajuda”, considera.

O presidente nota que o futebol “existe para a população” e que a população apoia o clube, falando por isso numa “reciprocidade” que acaba por atenuar um trabalho árduo. João aproveita a oportunidade para incentivar os adeptos a continuar a seguir a equipa nos jogos dentro e fora de casa.

Este ano, a competição iniciou em setembro, com o torneio pré-época InCup, uma Taça concelhia promovida pelo Município de Abrantes, que envolveu 12 equipas de futebol do Inatel, na promoção do futebol amador.

“O Alvega tem uma forte tradição naquilo que é o futebol do Inatel. É uma equipa respeitada e temos conseguido até agora que continue a ser assim. Já conquistamos a Taça por duas vezes, estivemos em cinco finais. Estes ano voltámos a estar na final, dignificámos a freguesia, dignificámos a camisola e o símbolo que trazemos ao peito. Fomos derrotados pelo Alcaravela – que também tem uma excelente equipa –, mas fomos uns dignos vencidos e fiquei muito orgulhoso dos nossos atletas, como sempre”.

A equipa de futebol da Associação de Melhoramentos da Freguesia de Alvega. Créditos: AMFA

O campeonato do Inatel iniciou em meados de outubro, com Alvega a visitar Rossio ao Sul do Tejo “saímos de lá com uma vitória. A equipa voltou a demonstrar que tem muita qualidade. Vamos ser uma equipa competitiva e vamos continuar a deixar orgulhosa aquela população que nos apoia” no Campo de Jogos Dr. Armando Matafome. E também fora, porque a Associação tem uma máxima: “O Alvega joga sempre em casa”, porque os adeptos acompanham o clube onde quer que se desloque, diz.

Conseguir jogadores é outra árdua tarefa. Nos dias que correm “os miúdos estão muito virados para as tecnologias, para estar em casa. A pandemia também fez com que se isolassem mais, porque durante dois anos estiveram reduzidos ao espaço da casa, o confinamento agudizou a situação. A maioria dos miúdos não quer praticar desporto, pior ainda com o desporto coletivo. É estranho dizer que esta é uma geração mais isolada, até pela globalização e com o acesso que têm à informação”, nota.

Ainda assim Alvega tem uma particularidade: 80% do plantel – dos 24 jogadores – é composto por residentes na freguesia. “E isso faz com que as pessoas se identifiquem”. O treinador é o Pedro Rodrigues, da Concavada, sendo que João Farinha está convicto que irá guiar a equipa “no bom caminho”.

A equipa de futebol da Associação de Melhoramentos da Freguesia de Alvega. Créditos: AMFA

Dá conta também que, neste momento, os sócios não têm as quotas em dia por falta de alguém que assuma essa tarefa, apesar de ser mais uma forma de angariar dinheiro. Cada sócio paga anualmente 7 euros, uma quota considerada de valor meramente simbólico. O presidente espera que até ao final do mandato consigam “por essas contas em dia”.

Mas no fim da contabilidade, para João Farinha “o associativismo está condenado a desaparecer. Não há solidariedade. Há o fait diver, é tudo muito bonito mas no que toca meter as mãos à obra é para esquecer. Aparecem quatro ou cinco e é saturante! Se as tarefas forem divididas por dez, isto não custa nada”, apela.

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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