O padre Miguel Coelho junto à Capela de Nossa Senhora da Guia que celebra 400 anos em 2026. Créditos: mediotejo.net

Quando nos aproximamos da Capela de Nossa Senhora da Guia, em Alvega, a primeira coisa que salta à vista é o seu formato peculiar, completamente redondo. “Talvez porque a imagem de Nossa Senhora foi aqui encontrada num poço com água, estando, no entanto, completamente seca”, explica o padre Miguel Coelho, referindo-se à forma circular do poço que terá existido no local onde foi erigida a Ermida.

Essa é a história contada de geração em geração e que justifica a construção da Capela em 1626. Os marítimos, que se faziam ao revoltoso Tejo para ganhar a vida, viram esse “milagre” como um sinal de proteção da Virgem e o culto estabeleceu-se.

Feitas as contas, no próximo ano a Capela celebra 400 anos, desde a sua construção, e a Paróquia de Alvega quer assinalar a efeméride através de várias iniciativas religiosas e culturais a decorrer durante o ano, começando já esta segunda-feira de Páscoa, 21 de abril, aquando da tradicional romaria em honra de Nossa Senhora da Guia.

É certo que a Capela não está classificada como monumento nacional, nem sequer como monumento de interesse municipal, mas “é a única memória viva mais antiga que temos” na freguesia, lembra o padre Miguel, que quer “trazer o espírito de festa” a Alvega.

Ermida de Nossa Senhora da Guia nos Trilhos da Grande Rota 12 em Alvega. Créditos: mediotejo.net

Ou seja, “uma forma de mobilizar as pessoas, para que no próximo ano possamos fazer uma festa digna à Senhora da Guia. Começamos já este ano a fazermos algumas atividades”, acrescenta, dizendo que o planeamento está em curso conjuntamente com a Junta de Freguesia.

Porém, “uma das coisas que queríamos fazer é levar a Senhora da Guia a todas as comunidades, que seja peregrina, por exemplo estar [a imagem] um mês na Concavada outro na Casa Branca, que têm igreja. E nas outras comunidades, desde Portelas a Tubaral, ir a um sábado ou domingo em procissão, uma missa, e assim dinamizarmos mais” a fé na Senhora da Guia, refere o padre.

Durante o ano a imagem estará “destacada” num altar específico, na Igreja Matriz de Alvega. Maio “é o mês de Maria, vamos dedicar o mês a Nossa Senhora e tentar retomar as florinhas, uma tradição de antigamente; as pessoas cantam de dão florinhas” à Virgem.

Em conversa com o nosso jornal, o padre Miguel confirma que no dia 31 de maio a Nossa Senhora dos Avieiros passa por Alvega e permanece “umas horas, para podermos fazer uma celebração na Igreja Matriz. Vamos tentar que para o ano, nos 400 anos, a Senhora dos Avieiros possa vir aqui à Senhora da Guia”. As restantes atividades a realizar durante o ano estão ainda em programação.

No entanto, a ideia passa por “terminar com chave de ouro”, ou seja, com a presença em Alvega do bispo de Portalegre/Castelo-Branco.

Porém, “estamos num impasse; se o atual bispo permanece ou se entretanto vem um novo bispo”, observa, considerando ser a data de segunda-feira de Páscoa “mais difícil” quer para a presença do bispo quer “para o povo se juntar na segunda-feira”, um dia normal de trabalho. Por isso, “em princípio será no domingo seguinte, de Pascoela”, realizando-se, como habitualmente, a romaria à Senhora da Guia.

A festa está pensada incluindo “uma procissão à noite, desde a Capela até à Igreja Matriz ou ao contrário; trazer a Senhora da Guia na véspera e no domingo celebrarmos na Capela”, detalha.

Assim, após atravessar a ponte sobre o rio Tejo, na estrada nacional 358, vindo de Mouriscas para Alvega, pode observar-se à direita, uma capelinha de forma circular isolada entre o verde dos arbustos. É a Ermida de Nossa Senhora da Guia.

A Capela, propriedade da Paróquia, situa-se em terreno privado perto da estrada, mas quem quiser chegar até ela terá dar uma volta perfazendo cerca de um quilómetro. Basta seguir por um caminho de terra batida, à direita, e atravessar a linha férrea que servia a central termoelétrica do Pego. Ao passá-la, é seguir novamente pela direita até encontrar a Capela (cerca de 1100 metros).

A romaria de Nossa Senhora da Guia na segunda-feira a seguir à Páscoa – que teve origem na Confraria do Espírito Santo, constituída por pescadores devotos à Virgem e a quem recorriam para proteção em dias de aflição -, é precisamente um dos principais festejos anuais de Alvega.

Reza a lenda que a imagem da Nossa Senhora da Guia foi encontrada num poço cheio de água. Mas, para espanto de todos, permanecia totalmente seca e sem o mínimo de desgaste provocado pela água. A partir desse dia os populares começaram a suplicar à Virgem, sempre que surgiam cheias, tempestades ou simplesmente navegavam no rio, pois acreditavam que a Santa os guiava nessas penosas ocasiões, tornando-se a padroeira dos pescadores.

Com a Capela perto do Tejo, cada vez que os pescadores passavam por lá tiravam o barrete, que punham ao ombro, e rezavam à santa protetora:
“Nossa Senhora da Guia
Que estais ao pé do Tejo
Todas as vezes que lá passo
Tiro o meu barrete e rezo”

Romaria a Nossa Senhora da Guia, Alvega. Créditos: DR

Ainda hoje muitas pessoas da região ao passarem por aquele santuário pedem à Senhora da Guia que os guie no caminho da salvação. Ao que parece, a “salvação” por estes dias ganha uma forma mais terrena, com a atual instabilidade global seja pelas guerras entre países e povos, seja pela presente guerra comercial, que causa inquietude e incertezas nas gentes.

E porque se encontra praticamente todo o ano fechada, dias antes da romaria fomos encontrar um grupo de alveguenses a limpar, caiar as paredes, devolver a cor e o brilho ao altar e aos bancos corridos da Capela, uma “intervenção” também ela habitual antes da Eucaristia que, na segunda-feira, será celebrada à tarde.

Lá fora, espalhados pelo campo nas margens do Tejo, os romeiros, como sempre, levam o seu farnel, comem, bebem, partilham, e convivem. Uma confraternização, com muitos anos, em forma de um enorme piquenique ao redor da Capela erigida em 1626 e que ainda hoje atrai romeiros e devotos ao culto mariano.

Voluntários alveguenses preparam a Capela de Nossa Senhora da Guia para as celebrações religiosas na segunda-feira de Páscoa. Créditos: mediotejo.net

“O culto começou após ter sido encontrada a imagem mas não há registos sobre o início da romaria e se era anual. Aquilo que sabemos é que os pescadores tinham grande devoção. O rio na zona de Alvega era perigoso, tinham dificuldades em navegar e a Capela era um conforto, saber que estavam protegidos”, refere Miguel Coelho.

Segundo o padre, “nas Memórias Paroquiais do Marquês de Pombal, após o terramoto de 1755, a Capela vem referenciada. Pediu aos padres que não deixassem cair a Capela. E há outros escritos que referem o milagre que aqui aconteceu com a imagem de Nossa Senhora”.

Por seu lado, António Duarte, um alveguense desde sempre presente na romaria da Nossa Senhora da Guia, aponta algumas diferenças. “Antigamente [as aldeias] despovoavam-se. As pessoas trabalhavam aqui no campo, não tinham os empregos fora. Além disso, em Constância, a segunda-feira de Páscoa é feriado municipal, na Festa da Nossa Senhora da Boa Viagem, logo está tudo parado. Aqui não, segunda-feira é dia de trabalho, uns vão trabalhar para um lado e outros para o outro e já não vem tanta gente como dantes”.

A festa “era completamente diferente. As pessoas vinham todas, havia a tradição de vir comer o ovo cozido à Senhora da Guia, assistiam à missa, faziam piqueniques. As pessoas trabalhavam aqui, não era feriado na sexta-feira Santa, existia os meios-dias santos, quinta-feira da parte da tarde não se trabalhava e também não se trabalhava na manhã de sexta-feira, à tarde já se fazia qualquer coisita. A segunda-feira de Páscoa era igualmente sagrada, ninguém trabalhava”.

António Duarte junto à Capela de Nossa Senhora da Guia que celebra 400 anos em 2026. Créditos: mediotejo.net

Falando do trabalho de limpeza que é necessário fazer antes da romaria, António Duarte afirma que o “espírito de comunidade” ainda existe. “Sim. A Junta de Freguesia colabora, vem fazer a limpeza nos espaços exteriores e a Igreja faz a limpeza da Capela. A Senhora da Guia não está aqui todo o ano porque uma imagem já foi roubada. Para evitar roubos foi colocada uma porta de ferro e a imagem só vem à Capela na segunda-feira de Páscoa depois volta para a Igreja Matriz”.

António Duarte, tal como as restantes nove pessoas do grupo presente na limpeza, move-se “pela tradição. Para não deixar morrer as coisas que há na terra. Para que as tradições não desapareçam, enquanto puder cá estarei, seja na Igreja, na Capela da Senhora da Guia, no futebol, seja na Banda Filarmónica ou noutro lado qualquer. Esta ação é também uma forma de criar e preservar laços entre as pessoas”.

Romaria a Nossa Senhora da Guia, Alvega. Créditos: DR

A capela de Nossa Senhora da Guia, na margem sul do Tejo, numa pequena elevação, foi provavelmente erigida em 1626 por Lourenço Godinho e a mulher, Isabel Freire. Deixaram o brasão da família na frente da capela e a sua romaria, talvez a mais antiga de Abrantes, era frequentada essencialmente por pescadores.

Este pequeno mas belo exemplar maneirista, pintado de branco, azul e amarelo, possui uma planta circular com cobertura em domo. Hoje detém uma pequena sineira, uma fachada com portal de verga reta, findada por frontão interrompido com as armas da família Godinho, ladeada e encimada por cornija e pináculos.

No interior sobre uma mesa singela ornada por azulejos, ergue-se um altar policromado, com uma réplica da Nossa Senhora da Guia, acompanhada pelas imagens de Sta. Teresinha e S. José.

Este raro monumento da arquitetura portuguesa, que pertence à Paróquia de Alvega, da diocese de Portalegre e Castelo Branco, primitivamente dispunha ainda de um alpendre suportado por um conjunto de colunatas e um gradeamento de ferro, com lanternim e catavento.

Sobre o portão exterior consegue ver-se o tal brasão da família Godinho, e dos lados dois cruzeiros. Do lado direito encontra-se um púlpito exterior e do lado esquerda uma lápide onde se lê: “Esta Ermida de Nossa Senhora da Guia Mandarao Fazer L C Godinho E Sua Molher Isabel Freire A Sua Custa Pª Eles E Seus Susesores Acabouse Na Era De 1626 Anos”.

Contudo, esta devoção é, por certo, mais antiga, pois está intimamente associada aos perigos decorrentes da travessia do rio Tejo. A Virgem delicadamente esculpida, surge representada com o menino sobre o braço esquerdo, e ambos possuem mãos em marfim.

O padre Miguel lamenta, no entanto, que os romeiros não tenham como “ponto alto” da romaria a Eucaristia, mas sim o convívio. Questionado se as pessoas estão a perder a fé, a resposta é categórica. “Não! A forma de expressar é que é diferente. Se a romaria existe é porque no passado deram importância ao que aqui havia. Se a romaria está a perder a sua identidade primária é porque ao longo dos anos se foi desvalorizando o que se vivia aqui”, declarou.

Atualmente, esta imagem de grande devoção, encontra-se na Igreja Paroquial de Alvega, onde prossegue o seu culto, finda a romaria anual que inclui, além da celebração de uma missa, o já referenciado piquenique nos terrenos circundantes, junto ao rio Tejo, onde a comunidade alveguense se reúne, confraterniza e partilha petiscos e bebidas que estreitam laços e confortam a alma.

“A imagem primitiva não existe, foi roubada. Na altura os proprietários quando venderam a propriedade ficaram com a imagem, mandaram fazer uma réplica que foi então roubada na década de 1950. A atual imagem, que está na Igreja Matriz e que vem todos os anos à romaria, pertencia à Igreja da Concavada. Veio substituir a Senhora da Guia”, refere Miguel Coelho.

Recorda-se que o santuário de Nossa Senhora da Guia está incluído na “Rota das 7 irmãs” proposta pelos municípios de Abrantes e Sardoal. “A espiritualidade e a religiosidade do povo português está profundamente enraizada e manifesta de modo singular a devoção e um culto ligado ao amor filial para com a Virgem Nossa Senhora” considera o padre Francisco Valente, na descrição do folheto de turismo religioso “Rota das 7 irmãs”.

Sendo certo que, das expressões mais complexas e eruditas às mais simples e populares, os sinais marianos fazem parte das vivências pessoais particulares, eclesiais e comunitários.

As “sete irmãs” como o povo, carinhosamente, as denominou, já que se relacionavam visual ou aditivamente no tanger dos seus sinos, implantam-se na área territorial da região norte do concelho de Abrantes e do Sardoal, espaço relativamente reduzido para número tão significativo de edificações.

“As fundações, baseadas em lendas, acontecimentos prodigiosos e milagres, ou em factos históricos e culturais, revelam a piedade e religiosidade dos fundadores ou das populações em busca de uma ligação materna e profunda aos ciclos da vida, num formulário cristão; manifestam-se nas romarias, pagamento de promessas ou rituais litúrgicos da celebração da fé, e também como fator de resistência, afirmação da identidade cultural nacional contra invasores, em ações restauracionistas” acrescenta o padre.

A Rota começa no Souto na Capela de Nossa Senhora do Tojo, segue para São Vicente (Abrantes) onde está a Capela da Nossa Senhora da Luz, depois Alferrarede com a Ermida da Nossa Senhora das Necessidades, seguindo para Valhascos para a Capela da Nossa Senhora da Graça, e depois Sardoal e a Capela da Nossa Senhora da Lapa, depois Mouriscas onde se situa a Capela da Nossa Senhora dos Matos e, por fim, Alvega e a Capela de Nossa Senhora da Guia.


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A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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