Alterações climáticas levantam novos desafios à proteção civil distrital, alerta Anabela Freitas. Foto: DR

Além do trabalho de prevenção, fundamental a montante, a presidente da Comissão Distrital de Proteção Civil, que também preside ao município de Tomar e à Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, defende uma adaptação ao modo de combate. “Se é reconhecido que os fogos têm um comportamento diferente daquilo que existia há 3, 4, ou 5 anos atrás, se calhar a forma de combate também tem de ser equacionada”, afirmou Anabela Freitas.

Com a divisão do Comando Distrital em dois Sub-Comandos Regionais a partir de 1 de janeiro de 2023, em que um Comando Sub-regional, do lado da Lezíria, ficará centrado onde é o atual CDOS [em Almeirim] e o Comando Sub-regional do lado do Médio Tejo, ficará situado em Praia do Ribatejo, Vila Nova da Barquinha, o mediotejo.net entrevistou Anabela Freitas sobre o balanço da época de incêndios, os desafios para o futuro e a a mudança organizacional em curso…

Anabela Freitas é presidente da CM Tomar, da CIM do Médio Tejo e da Comissão Distrital de Proteção Civil de Santarém. Fotografia: mediotejo.net

ÁUDIO | ANABELA FREITAS, PRESIDENTE COMISSÃO DISTRITAL PROTEÇÃO CIVIL:

mediotejo.net – Foi apresentado o balanço da época de incêndios no distrito de Santarém, o que é que destaca da atividade deste período?

Anabela Freitas – A reunião que houve da Comissão Distrital da Proteção Civil foi, precisamente, para fazer o balanço da época de incêndios, em que registámos cerca de 6.827 hectares ardidos, sendo que o concelho de Ourém foi o concelho que registou maior área ardida, bem como maior número de ocorrências, seguido do concelho de Tomar. E, portanto, aquilo que temos a registar, numa primeira fase, é que não houve vítimas mortais, e isso é bastante positivo.

Atendendo às condições climatéricas que se verificaram na altura, e todos nós sabemos que tivemos ali vagas de calor, quer no início de julho, quer depois no final de julho, abrangendo também um pouco de agosto, o caldo que estava criado em matéria de condições climatéricas indicava que as ocorrências fossem muito maiores e de maior dimensão. Só cerca de 5,5% das ocorrências é que passaram a ataque ampliado, ou seja, não foram dominadas nos primeiros 90 minutos, e isto deve-se a uma excelente articulação no terreno das várias entidades.

E, portanto, aqui, se me permite, eu gostaria também de dar uma palavra pública de agradecimento e de reconhecimento para o excelente trabalho de articulação que foi feito no terreno entre as várias entidades, não esquecendo, também, aquilo que foi o conjunto de voluntários e de associações que, no caso dos teatros de operações de maiores dimensões, tudo o que é operação logística, nomeadamente de alimentação é uma operação pesada e tivemos aqui, em muitos dos teatros de operações, a articulação e a dinâmica entre várias associações dos territórios que se juntaram para fornecer, sempre articulados, obviamente, através do Posto de Comando, que se articularam para proporcionar aquilo que são as refeições e os reforços a todos os operacionais que estavam no terreno.

Este ano há dois fenómenos, um social e o outro ambiental, que talvez importe também ouvir a sua opinião relativamente aos incendiários, que foram detidos alguns este ano, e depois a nível ambiental, com este verão a ser o mais quente e seco das últimas décadas.

É verdade. Eu começaria se calhar por esta segunda questão, são efetivamente as alterações climáticas que não é algo que venha daqui a 2,4,5,10 anos, é algo que já está no território e todas as entidades que participam no teatro de operações foram unânimes em dizer que os incêndios estão com um comportamento completamente diferente. Portanto, surgem seja por via, por mão humana ou de natureza e já vamos a essa parte, surgem com uma forma, logo desde início, logo mais violenta e com uma rapidez de propagação muito maior do que aquilo que se verificava há 3,4,5 anos atrás.

E, portanto, isto exige muito mais daquilo que são os operacionais que estão no teatro de operações. Se a isto juntarmos, então, a outra condição que foi o conjunto de ocorrências que tiveram como ignição a mão humana, ainda vem acrescer mais aquilo que é o risco de incêndio na nossa zona.

É certo que este ano, felizmente, houve um conjunto de pessoas e digo felizmente porque é importante que quem deite fogo de forma intencional seja apanhado e seja levado às autoridades competentes. Este ano, efetivamente, houve aqui registo para apreensão de alguns incendiários e isto deve-se também àquilo que é cada vez mais a articulação entre a GNR e a PJ nos teatros de operações.

E juntar a tudo isto o fenómeno da seca, com a escassez de água a ajudar neste caldo complicado

É verdade, é juntar a tudo isto o fenómeno da seca. É conhecido que aquilo que tinha sido a nossa posição e a nossa preocupação quando no início do ano começámos a falar e foi mais agudizante a questão da seca. A nossa preocupação, nomeadamente nas linhas de água de abastecimento aos meios aéreos de combate ao incêndio. Felizmente, não se verificou problemas em matéria de abastecimento a meios aéreos de combate a incêndio. Agora, a seca teve efeitos que contribuíram para a rápida propagação dos incêndios, precisamente porque os terrenos estavam, para além de não estarem limpos, mas mesmo em terrenos que estavam limpos, o facto de estarem tão secos levava a que o incêndio se propagasse com muita velocidade.

Eu pedia-lhe uma leitura para o futuro, em termos de estratégia, há aqui todo um plano que vai mexer com a região e com o país para fazer face a estes novos desafios que se levantam no ordenamento da floresta e do território.

Foi criado um sistema nacional de gestão integrada de fogos rurais, onde existe uma comissão regional… existe uma comissão nacional, mas falarei de uma comissão regional onde pertencem as comunidades intermunicipais da Lezíria e do Médio Tejo e depois, dentro de cada Comissão Regional, existem Comissões Sub-regionais.

A Comissão Sub-regional da Lezíria e a Comissão Sub-regional do Médio Tejo têm uma parte técnica e uma parte deliberativa e que temos estado já a trabalhar no conjunto vasto das instituições que compõem estas comissões no sentido de preparar a próxima época, porque há aqui algo que é fundamental. Os incêndios são o fim de linha e, portanto, quando entram os bombeiros em terreno é já o fim de linha, portanto, tem de se trabalhar muito é na prevenção.

E, portanto, há já um conjunto de ações que estão validadas do ponto de vista técnico, que se têm de fazer em matéria de ordenamento do território e a atuação de cada ator no território, sendo que algumas das ações compete aos municípios, outras competirão à GNR, outras competirão à agência de gestão integrada de fogos. Este conjunto de ações está já validado do ponto de vista técnico, estamos agora para marcar uma reunião do ponto de vista deliberativo para aprovar as ações propostas pelos técnicos.

Mas de qualquer das maneiras estas comissões centram-se, e bem, naquilo que é a prevenção, mas também na reunião que fizemos da comissão distrital de proteção civil, também houve aqui um debate que foi lançado que tem a ver com o próprio combate em si.

Se é reconhecido que os fogos têm um comportamento diferente daquilo que existia há 3, 4, 5 anos, se calhar a forma de combate também tem de ser equacionada. Novas formas de combate aos incêndios e, portanto, isso também está em cima da mesa, até porque a proteção civil, vertente Bombeiros, também faz parte destas comissões sub-regionais.

E em termos operacionais, se temos uma estrutura, neste momento, de âmbito distrital, no próximo verão já vai ter esta estrutura dividida para a Lezíria e para o Médio Tejo, ou seja, haverá, não um CODIS [Comandante Operacional], mas dois CODIS para o distrito de Santarém?

É isso, à partida pela leitura de aquilo que é o decreto-lei da legislação enquadradora, é isso precisamente que se está a perspetivar. Portanto, vamos ter um Comando Sub-regional, do lado da Lezíria ficará centrado onde é o atual CDOS [em Almeirim] e um Comando Sub-regional do lado do Médio Tejo, que ficará situado em Praia do Ribatejo, Vila Nova da Barquinha.

E, portanto, isto exige que existam duas cadeias de comando em cada um destes comandos sub-regionais. De qualquer das formas, está marcada uma reunião no próximo dia 23 [quarta-feira] com a senhora secretária de Estado da Proteção Civil, no sentido de preparamos e operacionalizarmos tudo o que é já o funcionamento destes comandos sub-regionais. Até porque essa é umas questões que nós vamos colocar aqui em cima da mesa. No caso da CIM aquilo que é a área de atuação do comando sub-regional do Médio Tejo não vai abranger os 13 municípios, porque temos dois municípios, Vila de Rei e Sertã, que pertencem ao comando distrital de Castelo Branco e portanto precisamos de perceber se a nossa estrutura sub-regional vai abarcar estes municípios ou se os mesmos, apesar de estarem na CIM Médio Tejo, continuarão em matéria de Proteção Civil a pertencer ao comando regional de Castelo Branco.

Vê mais valias nesta nova reorganização?

Sim vejo, sem dúvida. Se falarmos em matérias de incêndios, é sabido que grande parte dos incêndios são no território do Médio Tejo, e portanto, o facto de termos uma estrutura de comando mais próxima do território permite-nos um conhecimento diferente do território, sendo que e eu acho que isso é para manter e essa é outra questão que terá de ser colocada na reunião com a senhora Secretária de Estado, a forma como os meios são acionados para o combate aos incêndios, ou seja, através de triangulação e às vezes na triangulação consoante a dimensão dos teatros de operação estamos também dentro da triangulação cabem corpos de bombeiros que pertencerão, neste caso, então ao sub-comando regional da Lezíria se a triangulação vai ser única e exclusivamente dentro do comando sub-regional do Médio Tejo ou se também vai abranger aquilo que é o comando sub-regional da Lezíria e portanto, há aqui questões operacionais que precisam ser afinadas, elas se calhar já estão perfeitamente estudadas, por isso é que vamos ter essa reunião com a senhora secretária de Estado precisamente para afinar estas questões.

Até o próprio comandante operacional não está definido, só há um David Lobato [atual CODIS], neste momento, para todo o distrito e não se pode subdividir.

Não, ele não tem o dom da ubiquidade. Portanto, essas questões não estão definidas ainda nesta altura, é verdade. Mas aquilo que está na lei habilitante é que haverá um comando em cada Comando Sub-regional.

Mário Rui Fonseca

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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