A secretária de Estado da Proteção Civil disse em Alcanena que o país está preparado para a época de incêndios e que o dispositivo de combate aos fogos florestais tem este ano mais meios humanos e mais meios materiais. No entanto, Patrícia Gaspar deixou alguns alertas e preocupações, tendo defendido uma organização mais holística, mais preventiva e menos focada naquilo que é a resposta.
Em Alcanena, na abertura do seminário da Proteção Civil, Patrícia Gaspar deu conta que este tipo de eventos são cada vez mais recorrentes, sendo este já o 5º seminário em que participa desde o início do ano, tendo começado por sublinhar a “enorme importância pela oportunidade de partilha de conhecimentos, experiências e informações”
“Esta é a prova inequívoca da importância que os municípios estão a dar cada vez mais a este tema. Eu arrisco-me a dizer que há 15/20 anos isto não era possível porque o trabalho ainda estava a dar os primeiros passos. Podemos questionar o que é que levou a esta evolução, talvez acontecimentos menos simpáticos, menos agradáveis, mas não há dúvida que trouxeram esta nova dinâmica ao nosso país e sobretudo a esta rede fundamental, que são os nossos municípios e as nossas autarquias”, afirmou Patrícia Gaspar.
A secretária de Estado relembrou o ano de 2017, como um dos anos mais difíceis de que há memória em matéria de proteção civil. Depois de 2017, houve duas grandes questões que foram o mote de toda esta evolução.
“A primeira questão foi face ao que aconteceu, foi onde é que nós queríamos estar em matéria de proteção civil daqui a 10 anos. A segunda foi como é que queremos que o país consiga responder daqui a 10 anos, em matéria de incêndios rurais, porque fazem parte das problemáticas e dos desafios da proteção civil. Eu acho que conseguimos dar uma resposta a estas duas perguntas”, afirmou.
Em matéria de incêndios rurais, Patrícia Gaspar diz que a prioridade é termos um país mais protegido, capaz de reagir aos grandes incêndios, partindo da premissa que os vamos ter sempre, mas conseguindo garantir que conseguimos proteger as comunidades de ocorrências, como foi com os incidentes de 2017.

Em relação à matéria de Proteção Civil, a secretária de Estado afirmou querer ter uma organização mais holística, mais preventiva e menos focada naquilo que é a resposta, com agentes mais qualificados, com um sistema mais robusto e com um pensamento cada vez mais focado naqueles que são os desafios transversais à nossa sociedade, com uma comunidade e um território mais protegido.
“O patamar local é a base de tudo o que fazemos, sozinhos também não vão conseguir obter os patamares de sucesso e é nesta dinâmica de colaboração com o patamar local, os demais agentes da proteção civil e o estado central, que estou profundamente convicta que vamos conseguir chegar mais longe e conseguir níveis diferentes de proteção e segurança ao nosso país e às nossas comunidades”, apontou.
“Mais capazes, informadas, resilientes, despertas, envolventes e dispostas a colaborar também com os sistemas da proteção civil, porque sem este envolvimento não vamos conseguir chegar onde é preciso”, sublinhou Patrícia Gaspar.
“É obrigação da proteção civil ter uma abordagem cada vez mais transversal, mais à frente, mais centrada na capacidade de antecipação, para conseguir que a proteção civil consiga estar na linha da frente das resposta na proteção das comunidades”, afirmou Patrícia Gaspar.
“A cooperação, o diálogo e a vontade de trabalharmos e potenciarmos aquilo que temos à nossa disposição muitas das vezes pode fazer uma diferença enorme na capacidade que temos para nos preparar, prevenir e, no limite, responder. A resposta é em fim da linha. Onde nós vamos conseguir ganhar esta guerra é em todo o trabalho que temos de fazer a montante, na prevenção, na gestão do território, corrigir asneiras do passado”, defendeu.
Patrícia Gaspar deu a saber que há um novo quadro comunitário da proteção civil, com 122 milhões de euros à cabeça, ainda com possibilidade de crescer, onde há possibilidade de os corpos de bombeiros se reequiparem, se modernizarem e poderem olhar para as necessidades numa lógica de complementaridade, que bem está a ser feito na Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo.
“Este é um excelente exemplo de boas práticas que deviam ser partilhados com outras comunidade intermunicipais e que estou absolutamente convicta que vai dar os seus frutos”, enalteceu.
Rui Anastácio, presidente da Câmara Municipal de Alcanena, também fez parte da sessão de abertura do seminário. Afirmou que o concelho de Alcanena tem feito tudo o que pode, em matéria de proteção civil, tem desenvolvido instrumentos de planeamento, aplicado de um forma eficiente e eficaz o programa Aldeia Segura, Pessoas Seguras, tem 24 aglomerados e que já fez exercício em 9 deles, com cinco unidades de proteção civil em sete freguesias do concelho, que faz a vigilância e tem ainda um sistema próprio de vigilância fixo. Estão ainda a ser implementados, na freguesia de Minde, três condomínios de aldeia.

“Somos um concelho privilegiado”, disse o autarca alcanenense, por ter dois corpos de bombeiros, os municipais e os voluntários, que tem procurado planear e aprofundar entre eles um instrumento que tem definido as áreas e horas de intervenção, que priorizou o que é que cada um tem de fazer e onde tem de fazer, conseguindo assim definir uma complementaridade entre os corpos de bombeiros.
Contudo, Rui Anastácio, afirmou que acha uma injustiça o ponto de vista do financiamento dos concelhos que têm bombeiros municipais e os que têm bombeiros voluntários, um problema com trinta anos que ainda está por resolver.
Inserido no Comando sub-regional do Médio Tejo, o concelho de Alcanena faz parte de um programa de investimentos no programa 2030, em que se pretende “garantir a complementaridade daquilo que existe no Médio Tejo em termos de resposta, e, conjuntamente, criarmos um planos de investimentos comum, que nos vai permitir trabalharmos de uma forma coordenada, rentabilizando meios e financiamentos”.
“Esse é o grande desafio que temos pela frente, conseguirmos ser complementares, racionais e rentabilizar os meios”, afirmou Rui Anastácio.

Incêndios | 64% dos fogos florestais desde janeiro foram causados por negligência – MAI
O ministro da Administração Interna revelou esta semana que 64% dos incêndios registados desde janeiro “tiveram como causa a negligência” tendo referido que o dispositivo de combate aos fogos florestais “é mais forte este ano” do que em 2022.
“Dos incêndios que houve desde janeiro até hoje, 64% desses incêndios tiveram como causa negligência, a negligência nas atitudes e nos comportamentos, nomeadamente no uso de fogo e no uso de máquinas”, afirmou José Luis Carneiro, em Valongo, à margem das cerimónias que assinalaram o Dia Municipal da Proteção Civil.
José Luís Carneiro apontou ainda estarem identificadas mais de 14 mil situações de falta de limpeza de terrenos privados, mas disse que “é para cumprir” o prazo que determina que a limpeza daquelas áreas tem que ser feita até ao próximo domingo.
“O prazo é para cumprir porque se nós entrarmos na discussão permanente de sempre que se está a chegar a um prazo nós teríamos, certamente, circunstâncias em que se ultrapassaria o período dos incêndios e não se realizariam as limpezas. É mesmo para cumprir e o dever do Ministério da Administração Interna [MAI] é de, com as forças de autoridade democráticas, garantir que se cumprem essas mesmas obrigações”, disse.
Segundo o ministro, há cerca de 1000 freguesias identificadas “como prioritárias” e a “GNR, por todo o pais, tem andado a fazer ações de prevenção e já detetou mais de 14.200 situações que poderão corresponder a infrações relativamente à obrigatoriedade de limpezas preventivas”.
No entanto, José Luis Carneiro deixou alguns alertas e preocupações para a época de incêndios.
“O dispositivo de proteção civil relativo ao combate aos incêndios florestais é mais forte este ano do que foi em 2022, contudo, como bem se sabe, não é suficiente ter mais meios porque os meios são sempre limitados quando a exigência é muita e a exigência de 2023 vai ser, pelas previsões, maior ainda do que foi em 2022”, salientou.
O Governo já apresentou o dispositivo de combate a incêndios para este ano, que vai envolver 13.891 elementos nos meses mais críticos. O dispositivo terrestre contará com 13.891 elementos e 2.990 viaturas durante o período de maior empenhamento de meios, entre 01 de julho e 30 de setembro. Em 2022, o número de operacionais que estiveram envolvidos no combate aos incêndios no mesmo período cifrou-se nos 12.917, o que significa que este ano há mais 974 elementos para o combate aos fogos, mas também mais viaturas e, prevê-se, mais meios aéreos
c/LUSA.
