Na semana em que o Corpo Nacional de Escutas (CNE) viveu o luto pela morte de uma jovem de 11 anos da Chamusca durante uma atividade de escutismo (16 de abril), o mediotejo.net falou com Luís Miguel Pedro, grande impulsionador do movimento dos escuteiros em Alcanena e com uma forte ação na direção do mesmo a nível regional. Reconhece que há alguma má fama ligada aos escuteiros e mesmo acusações de algum elitismo. Afirma que o movimento é para todos, semelhante à catequese ou a outro organismo católico, e que as atividades, sobretudo na natureza, pretendem a integração no coletivo e na entreajuda ao próximo. Nos 30 anos do Agrupamento 867 dos Escutas de Alcanena, o objetivo passa por angariar dinheiro suficiente em atividades para levar todo o grupo a Londres de forma praticamente gratuita.
Organismo de natureza religiosa, os escuteiros têm uma mística muito própria e por vezes só percetível a quem com eles convive. Em Fátima, por exemplo, dão apoio aos peregrinos e ajudam em caso de pessoas perdidas. A nível nacional existem 70 mil pessoas ligadas ao CNE, além de um outro organismo, a Associação de Escoteiros de Portugal, que engloba todas as confissões religiosas, para além da católica. Nem todos se mantêm ligados à estrutura após a chegada à Universidade e poucos resistem com a entrada no mundo do trabalho.

O agrupamento de Alcanena chegou a possuir 120 elementos, hoje tem apenas 65. A desertificação e o envelhecimento da população do concelho ajudam aos números, numa instituição com uma história muito própria e que vive também do esforço e da personalidade de quem está à frente dos agrupamentos.
O mediotejo.net quis falar assim com Luís Miguel Pedro, 44 anos, apaixonado do escutismo em Alcanena, que chegou a assumir cargos de chefia na direção regional de Santarém. Foi em 1985 que se deram os primeiros passos na revitalização do movimento e se realizou um primeiro acampamento em Tomar. A estrutura nasceria oficialmente a 7 de dezembro de 1986, com as primeiras promessas a serem realizadas em Alcanena.
Há várias etapas no percurso de escuta, de “lobito” a “caminheiro”, conforme a faixa etária. Luís Miguel Pedro foi “pioneiro” e “caminheiro” e em 1999 tornar-se-ia Chefe de Agrupamento. Acabaria por ser convidado para Secretário Regional, de onde passaria a Chefe Regional Adjunto. “Um percurso que nunca imaginava fazer” e que lhe ocupou 12 anos da sua vida. Desenvolveu programas para adultos, representou em 2003 o CNE na Eslovénia e procurou trazer várias atividades para Alcanena. Há cerca de quatro anos ajudou a reabrir o Agrupamento de Escutas do Pedrógão, em Torres Novas. Após um longo percurso, “regressei então para o meu agrupamento”.

No ano em que se celebram os 30 anos do Agrupamento de Escutas de Alcanena, Luís Miguel Pedro é apenas responsável da 3ª secção, os “pioneiros”, e gosta do trabalho que desenvolve junto de adolescentes dos 14 aos 18 anos. Talvez por isso os números do agrupamento tenham vindo a aumentar. “Quando vim para Alcanena tinha cinco pioneiros, em quatro anos tenho 16”.
Reconhece que o passa-a-palavra entre jovens e as atividades ao ar livre, como os famosos acampamentos, se tornam apelativas quando há muita dinâmica. Frisa que “o escutismo é uma escola de formação integral”, onde se exploram as várias facetas do serviço pelo próximo. “O facto de fazer acampamentos e de estar em comunhão com a natureza; o explorarmos zonas paisagísticas…Tudo isso torna o escutismo apelativo”. “Trazem-se muitas amizades”.
Apesar de tudo, Luís Miguel Pedro admite que existe alguma má fama relacionada com os escutas. “Julgo que o escutismo há 30 anos atrás era equiparado à Mocidade Portuguesa”, comenta, assim como era visto como uma estrutura só para “meninos ricos”. Ideia que afincadamente contesta! Um uniforme pode custar, efetivamente, entre 30 a 40 euros, razão pela qual existe um Banco de Uniformes para os que necessitem. As atividades têm um preço relacionado com as despesas de deslocação/alimentação, mas procura-se que sejam muitas vezes gratuitas. Desde a venda de calendários à recente Festa das Sopas, todas as iniciativas de venda destinam-se a colmatar os custos das atividades dos escuteiros.

“Somos um dos grupos da Igreja, como a catequese”, explica, cuja “missão é catequizar as crianças e os pais das crianças”. Tarefa nem sempre fácil, admite, há quem encare os escuteiros como um ATL. “Noto que os pais fogem da relação com a Igreja”, lamenta, mas também constata que entre os 25 e os 40 anos os jovens têm tendência a afastar-se do universo religioso, para voltarem lentamente depois dessa fase. “Aqui também é importante os párocos” e a sua capacidade de irem ao encontro dos fiéis.
Sobre a morte da jovem da Chamusca numa atividade de escuteiros, Luís Miguel Pedro lamenta o sucedido e adianta que não foi a primeira vez que aconteceu algo semelhante. “Não era uma atividade que envolvia esforços físicos”, sublinha, não se sabendo ainda a causa do falecimento da jovem. “Todo o agrupamento e comunidade deve estar num sofrimento enorme”.

O pensamento para já está no futuro e na viagem em setembro para Inglaterra, terra que fundou o escutismo. “Temos feito várias atividades para tentar minimizar o custo e suportar as viagens”, refere, comentando que o espírito da iniciativa é “viver a dimensão internacional do escutismo”. Dos “lobitos”, aos “exploradores”, passando pelos “pioneiros” e os “caminheiros”, esta é uma escola que quer ir ao encontro da natureza, trazendo tanto homens e mulheres para a vivência em comunidade. “Gostávamos de ter fundos monetários para pagar tudo a toda a gente”, afirma.
Os escuteiros lançaram também este ano um desafio à Câmara Municipal de Alcanena: dar o nome de Lorde Baden-Powell (fundador do escutismo) à rotunda junto ao Lidl, neste que também é o centenário do escutismo. Não sabe se a proposta será aceite, mas Luis Miguel Pedro reflete: “somos 10/11 milhões de escuteiros pelo mundo”.
