Durante as diferentes intervenções, foi destacada a importância da cooperação entre municípios, o papel da academia no desenvolvimento de soluções adaptadas ao território e o potencial das Soluções de Base Natural (SbN) para reduzir custos, melhorar a qualidade da água e criar valor económico e ecológico.
Na sessão de abertura, o presidente da Aquanena, Nuno Silva, sublinhou o compromisso do município e da empresa municipal com a implementação de políticas e práticas ambientalmente sustentáveis, como as soluções de base natural, que visam valorizar os recursos naturais e promover o bem-estar da população.

Durante a sua intervenção recordou o plano estratégico já existente, focado na melhoria da qualidade do efluente tratado e na mitigação de odores. No entanto, reconheceu que ainda persistem desafios, como a gestão de lamas, que representa atualmente um custo superior a 700 mil euros e também o cumprimento da legislação ao nível da licença de descarga.
Para enfrentar os novos desafios, a empresa tem apostado em estudos técnicos e científicos, estando em curso um projeto piloto baseado em solução naturais.
“Temos vindo a investir também em novos estudos. Exemplo disso, um estudo que fizemos recentemente de secagem das lamas e também o estudo que hoje nos trouxe aqui: o estudo da solução de base natural”, afirmou Nuno Silva.


O presidente da Câmara de Alcanena, Rui Anastácio, por sua vez, destacou a importância de um “novo olhar” sobre os recursos hídricos e a cooperação entre municípios.
“Penso que hoje tentámos olhar para um novo olhar e penso que esse é o grande desafio da nossa comunidade”, referiu o autarca, sublinhando o trabalho conjunto com o município de Santarém para uma gestão integrada da bacia do rio Alviela.
“Estamos a trabalhar num plano para olhar para a economia de bacia do rio Alviela na sua globalidade”, afirmou.
Rui Anastácio anunciou também um plano de reconstrução da paisagem do Ribeiro do Carvalho, envolvendo três troços. “Temos em marcha um plano de reconstrução da paisagem do Ribeiro do Carvalho (…) com um programa de intervenção para a área de atividades económicas de Vila Moreira”, afirmou, reconhecendo que o primeiro troço enfrenta problemas complexos e antigos. Sobre o segundo troço, destacou a obra já iniciada, com financiamento de “quase dois milhões” de euros.



Recorde-se que em Alcanena, estão a ser implementadas Soluções Baseadas na Natureza com o objetivo de melhorar a gestão do ciclo urbano da água. Estas soluções incluem a criação de jardins pluviais, áreas verdes permeáveis e sistemas de drenagem natural, que ajudam a mitigar inundações, melhorar a qualidade da água, reduzir o uso de água e aumentar a biodiversidade urbana .
É o caso do projeto liderado pelo professor José Saldanha Matos, do Instituto Superior Técnico, junto à ETAR de Alcanena, projeto que visa a implementação de soluções naturais para o tratamento e gestão das águas residuais, promovendo uma abordagem sustentável e integrada na gestão dos recursos hídricos.
“Temos um terceiro troço (…) com uma solução de base natural para a jusante da ETAR, criando ao mesmo tempo uma grande zona de lazer. É um grande desafio com um conjunto de constrangimentos, certamente. Nós temos trazido a academia para o concelho de Alcanena e queremos trazer mais academia para o concelho, queremos trazer mais ambição (…), queremos sonhar com os pés na terra, mas penso que é desse sonho que nascem os grandes projetos”, vincou o autarca.
“Vamos investigar, estamos a investigar, vamos aplicar. A academia, repito, vai estar cada vez mais em Alcanena, temos um grande potencial de desenvolvimento de um cluster nesta área e por isso vamos continuar a trabalhar com muita ambição”, concluiu.
O primeiro painel, moderado por António Brito, do Instituto Superior de Agronomia, trouxe à discussão perspetivas académicas e científicas, com apresentações de Pedro Carvalho (Universidade de Aarhus, Dinamarca), Joan Garcia (Universidade Politécnica da Catalunha, Espanha) e João Joanaz de Melo (FCT – Universidade Nova de Lisboa).
O projeto MULTISOURCE, apresentado por Pedro Carvalho, da Universidade de Aarhus (Dinamarca), tem como objetivo integrar soluções baseadas na natureza para o tratamento, armazenamento e reutilização de águas urbanas. A iniciativa pretende tornar as cidades mais sustentáveis e resilientes face às alterações climáticas, através da aplicação de infraestruturas verdes como jardins de chuva, zonas húmidas e sistemas de biofiltração.


O projeto está a ser implementado em sete cidades-piloto, incluindo Girona, Oslo, Lyon, Milão, São Paulo, Hanoi e Los Angeles. Estas cidades funcionam como laboratórios vivos, onde são testadas soluções modulares adaptadas ao contexto local, apoiadas por ferramentas digitais e modelos de negócio que incentivam a gestão eficiente da água e o planeamento urbano sustentável.
Joan García, da Universitat Politècnica de Catalunya, apresentou três exemplos de Soluções Baseadas na Natureza implementadas em Espanha. Destacou o Parque Fluvial do Besòs, em Barcelona, onde se conjugam tratamento de águas, lazer e recuperação ecológica em plena área urbana; o Tancat de Milia, em Valência, com zonas húmidas artificiais que tratam águas agrícolas e criam habitats naturais; e o Parque Can Cabanyes, em Granollers, que reabilitou uma zona degradada para gerir águas pluviais e apoiar a biodiversidade.
Com base na experiência destes e de outros projetos europeus, Joan García sublinhou que as SbN têm sido muito bem-sucedidas no contexto da reutilização da água, oferecendo múltiplos benefícios, desde a melhoria da qualidade da água à criação de valor ecológico e social.

Como conclusão, o orador destacou que as SbN são uma estratégia promissora como etapa preliminar às estações de tratamento de água, podendo não só aliviar a carga sobre os sistemas convencionais como também potenciar a resiliência climática e a regeneração dos ecossistemas, exemplos que reforçam a necessidade de integrar a natureza como aliada na gestão urbana da água.
João Joanaz de Melo, do GEOTA, traçou um diagnóstico sobre os riscos que ameaçam os recursos hídricos, sobretudo na região mediterrânica. O professor universitário apontou a poluição de origem urbana, industrial e agrícola, combinada com infraestruturas de saneamento insuficientes, como fatores que comprometem gravemente a qualidade da água e a saúde pública.


A degradação dos ecossistemas hídricos foi outro ponto central da sua intervenção, agravada por práticas agrícolas inadequadas, incêndios, erosão e ocupação urbana desordenada, tendo alertado ainda para o impacto negativo de infraestruturas hidráulicas, como barragens e açudes, que fragmentam os rios e dificultam a regeneração dos ecossistemas aquáticos.
Segundo João Joanaz de Melo, em Portugal a situação dos rios é crítica, com perda de biodiversidade, proliferação de espécies invasoras e falta de aplicação efetiva dos planos de proteção. Cerca de 13.000 barreiras artificiais impedem a conectividade dos rios, comprometendo a sua recuperação e aumentando os riscos de secas e cheias.

Joanaz de Melo defendeu uma mudança urgente de paradigma na gestão da água, propondo soluções como o uso eficiente dos recursos, o reaproveitamento de águas residuais e pluviais, a valorização dos aquíferos e a gestão coordenada das bacias internacionais, com envolvimento ativo das comunidades.
No segundo painel, dedicado aos desafios do setor da água em Portugal, participaram José Saldanha Matos (Instituto Superior Técnico/HIDRA), José Maria Martins Soares (Associação Portuguesa de Distribuição e Drenagem de Águas – APDA) e José Pimenta Machado (Agência Portuguesa do Ambiente – APA), sob a moderação de Isabel Pires, administradora da Aquanena.
José Saldanha Matos defendeu a adoção de soluções sustentáveis e resilientes no sistema de águas local, sublinhando a importância de investimentos em pequenas infraestruturas que garantam o funcionamento contínuo mesmo em situações de emergência, como falhas de energia ou avarias em equipamentos.
O professor destacou ainda que, apesar dos avanços, o sistema de Alcanena continua a enfrentar desafios complexos, nomeadamente devido à elevada carga poluente dos efluentes industriais.

Segundo referiu, mesmo com uma eficiência de tratamento de 95% e tecnologias avançadas como biomembranas, eletrocoagulação química e wetlands, a presença de carga orgânica refratária – cerca de 300 mg/L de CQO – compromete a conformidade com a legislação.
“Mesmo com tratamento terciário, não cumpre a legislação”, alertou, defendendo uma abordagem integrada que comece no pré-tratamento industrial e se estenda até à reutilização de recursos.
Como solução, Saldanha Matos apontou para a natureza como aliada, através de sistemas como wetlands, evapotranspiração, infiltração no solo e bacias de evaporação. Referiu também os ensaios-piloto em curso em Alcanena, com espécies como salgueiros, choupos e fragmites adaptadas ao clima local.


“A natureza é lenta, não tem o nosso ritmo”, observou, explicando que embora o crescimento das plantas demore, os resultados são promissores, tanto do ponto de vista ambiental como económico. “É um sistema com impacto em vários setores, incluindo na economia, emprego e desenvolvimento… proporciona modelo de negócio”, concluiu.
Durante o período da tarde, os participantes tiveram oportunidade de realizar visitas técnicas a locais como a Estação de Tratamento de Águas Residuais de Alcanena e as nascentes dos Olhos d’Água do Alviela, reforçando a ligação entre o conhecimento técnico e o território.





O meu nome é Joaquim Gomes, assisti ao seminário e coloquei alguns questões aos oradores. Ao ler o seu artigo, que transmitiu na perfeição as intervenções dos oradores convidados, fiquei preocupado em não encontrar nenhuma referência às questões/preocupações que eu coloquei ao vice-presidente da APA.
As questões que eu coloquei resultam da minha preocupação com as consequências para a saúde pública com base na experiencia acumulada como responsável da ETAR desde 1988 (ano da entrada em funcionamento até 2003) e tendo em consideração o seguinte.
– O terreno previsto para a implantação do projeto é leito de cheia.
– O efluente tratado na ETAR em 2024 foi 1 883 168 m3, com valores médios de CQO, na ordem de 175 mg/l com um elevado grau de dificuldade de redução, o valor médio de crómio foi de 0,3 mg/l e 56 mg/ de NT.
Como o crómio é um metal pesado e dificilmente é absorvido pelas raízes das arvores previstas no projeto, conclui-se que irá ser percolado até ao lençol freático onde existem 4 captações subterrâneas localizadas a 1500 metros (furo de Filhós), 1900 metros (furo do Malhou), 1800 metros (furo de Alviela) e 2700 metros (furo zona norte de Alcanena), que abastecem cerca de75 % da população do Concelho de Alcanena.
– Como este sistema tem de funcionar com velocidades de escoamento muito lentas (razão de ser necessário grandes áreas de terreno), no verão com temperaturas muito elevadas, chegam a atingir valores > 40ºC, são um excelente local para proliferarem espécies de mosquitos com capacidade de transmitir arboviroses (ex.: dengue, zika, chikungunya, West Nile) — invasores já detectados em Portugal e abundância de melgas que já se fazem sentir dada a proximidade do rio.
A estas questões/preocupações não existiram respostas do presidente da APA nem do presidente da Câmara, o que me deixou ainda mais preocupado, porque os sistemas de tratamento por base natural são uma excelente alternativa aos sistemas de tratamento convencionais, mas para outro tipos de efluentes que não tenham cargas orgânicas (CQO) de difícil eliminação, nutrientes como o NT e metais pesados como o crómio e o local não seja em leito de cheia.