Rui Anastácio, presidente da Câmara de Alcanena, anunciou ter em carteira dois grandes investimentos no setor dos curtumes para instalar no concelho. Foto: mediotejo.net

Promovida pela APIC (Associação Portuguesa dos Industriais de Curtumes), em parceria com a Câmara Municipal de Alcanena e o CFPIC (Centro de Formação Profissional da Indústria do Calçado), a iniciativa contou com vários painéis durante dois dias de modo a analisar assuntos de interesse para o setor.

Realizado de forma periódica e retomado após uma paragem devido à pandemia (a última edição foi em 2019), o Leather Days destina-se “a tratar matérias de interesse e atuais para a indústria de curtumes, para a sua competitividade, para o seu posicionamento no mercado”, disse Gonçalo Santos, secretário-geral da APIC, adiantando que nesta edição se destacam temas relacionados com o desenvolvimento do produto.

Gonçalo Santos, secretário-geral da APIC. Foto: mediotejo.net

Este destaque surge tendo em conta o processo de conclusão que está a ser desenvolvido relativamente ao projeto PT Leather in Design, especificamente destinado “desenvolvimento integrado de produtos inovadores por parte do setor de curtumes nacional, e a sua promoção”, cujos objetivos passam por fomentar o desenvolvimento de novos produtos na Indústria de Curtumes, endogeneizar a inovação enquanto processo/sistema nas empresas, potenciar os resultados das coleções, catálogos e feiras internacionais das empresas, bem como aumentar o valor acrescentado e melhorar o serviço aos clientes, tal como é esclarecido no site da APIC.

“Continuar a fazer bem o desenvolvimento do produto, continuar a internacionalizar-se cada vez mais, contribuir para o crescimento das exportações”, são estes os desafios da indústria apontados por Gonçalo Santos, os quais estão a ser tratados em específico nesta edição do Leather Days 2023.

Questionado quanto aos desafios relacionados com a sustentabilidade do setor, o secretério-geral da APIC divide a questão em duas, relacionando-a com o couro ou com a indústria em si.

Quanto à sustentabilidade do produto couro, Gonçalo Santos esclarece desde logo que este é um produto que por si é sustentável, “mas que a generalidade do público não conhece as razões que estão por trás e os fundamentos dessa sustentabilidade”.

Gonçalo Santos, secretário-geral da APIC (Associação Portuguesa dos Industriais de Curtumes).

“É um produto que embora sendo de origem animal é um produto renovável, ao contrário de algumas alternativas de origem fóssil que não são renováveis, estamos a falar de recursos finitos, no caso do couro, enquanto continuarmos a criar animais para deles obtermos a carne, continuamos a ter couro para trabalhar e portanto o couro em si, tem um conjunto de argumentos de sustentabilidade que já existem e têm de ser melhor comunicados”, explica.

Já no que diz respeito à sustentabilidade do ponto de vista da indústria, da forma como esta matéria prima é trabalhada, Gonçalo Santos diz que se tem tentado fazer “da melhor maneira possível, de modo a minorar o seu impacto e a estimular a sustentabilidade, a economia circular e um conjunto de conceitos que ajudam a que o setor seja viável do ponto de vista ambiental, sustentável a médio e longo prazo”, sublinhando a importância de uma economia circular.

“Desse ponto de vista estamos cada vez mais a implementar medidas de circularidade dentro das nossas fábricas de curtumes, cada vez mais todos os resíduos são produtos que resultam do processo da indústria de curtumes têm um destino que não seja a sua deposição em aterro, estamos a trabalhar em projetos para assegurar que tudo o que sai de uma fábrica de curtumes é utilizado numa outra atividade, de modo a conseguir uma circularidade total”.

No entanto estas medidas acarretam investimentos ao nível da indústria, até mesmo ao nível da digitalização, processo que também é feito no sentido da sustentabilidade: “Se pudermos cada vez mais digitalizar os nossos catálogos, digitalizar os nosso processos, esse é um contributo para a redução da pegada de carbono, da pegada ambiental, e portanto estamos a trabalhar ativamente, e naturalmente que isto requer investimento para se conseguir concretizar”, explica Gonçalo Santos.

A indústria dos curtumes também não é imune ao panorama atual – de guerra na Europa e inflação crescente -pelo que tem sido registado um “impacto significativo a vários níveis” no setor, desde logo relacionado com o aumento do preço da energia, tendo em conta que este tipo de indústria requer alguma intensidade de utilização de equipamentos que requerem energia elétrica para funcionar.

A “desglobalização” e “setorização por blocos”, fatores apontados por Gonçalo Santos, levaram também à perda de mercados e de clientes, nomeadamente nomeadamente na Rússia, tendo em conta “este embargo a trabalhar com a Rússia”, bem como noutros pontos do globo, o que “implica da nossa parte um reforço adicional das atividades de prospeção comercial e de exportação para conseguirmos repor os nossos níveis habituais de volume de negócios e de exportações”, adiantou o secretário-geral da APIC.

Foto: mediotejo.net

Por parte do município de Alcanena – parceiro neste evento – Rui Anastácio, presidente da Câmara, considera que este é um evento “da maior importância”, até pelo seu enfoque na internacionalização e nas boas práticas que o setor, o país, a economia e a indústria precisam.

“Nós temos tentado acompanhar ao máximo todo este processo, a indústria de curtumes, como é sabido, é uma das bases da nossa economia, nós temos cerca de 60 empresas de curtumes no concelho de Alcanena e portanto cabe-nos a nós estar ao lado, apoiar, incentivar, agilizar”, disse o autarca, adiantando que ainda este mês a Câmara aprovou a “Via Verde do Investidor”, ou seja, um mecanismo interno no município que dá prioridade absoluta aos processos de investimento no concelho.

Rui Anastácio, presidente CM Alcanena. Foto: CMA

Sobre a temática do investimento, o Rui Anastácio divulgou ainda que vão haver novidades em breve, tendo em conta que a autarquia conseguiu captar dois investimentos “importantes” para o concelho, um para a freguesia de Alcanena e outro para a freguesia de Minde.

Sobre estes dois investimentos Rui Anastácio disse ainda não querer adiantar muito, além de que os mesmos estão “praticamente garantidos”, que um deles, de capital holandês, esteva na dúvida entre localizar-se na península de Setúbal ou em Alcanena, mas que “felizmente” veio para Alcanena, num investimento “que será importante e que espero que seja o primeiro de muitos”, disse o autarca.

“Queremos ajudar a velha economia a reinventar-se, a modernizar-se, e queremos também uma nova economia, porque só assim conseguiremos inverter o inverno demográfico que temos vivido nos últimos 20 anos”, apontou ainda o líder do município alcanenense.

Rui Anastácio, presidente da Câmara Municipal de Alcanena

Voltando à indústria de curtumes, e questionado pelo nosso jornal, Rui Anastácio explicou que se está num processo “muito intensivo de investimento no sistema” da indústria de curtumes, a qual é uma indústria “difícil”.

“Temos vários investimentos em curso, temos um investimento mais pesado ainda à procura de financiamento, estamos em estreito diálogo com o Ministério do Ambiente também, e vamos ver, temos de trabalhar todos em conjunto, remar todos no mesmo sentido, e as soluções vão-se encontrando”, disse o eleito pelo Cidadãos por Alcanena, que adiantou que os investimentos em ambiente para uma indústria com as caraterísticas da indústria dos curtumes são “obviamente determinantes” até do ponto de vista da certificação, sendo que sem essa certificação, nomeadamente da LWG [Leather Working Group], as marcas não compram os produtos.

“E essa certificação implica uma determinada performance da própria ETAR e essa performance obviamente tem custos que têm que ser vertidos nos consumidores. É algo que a Câmara, mal ou bem, há três anos atrás resolveu tomar conta do sistema de tratamento de águas residuais de Alcanena e obviamente que dessa maneira assumiu um risco comercial muito importante e que já este ano nos deu problemas muito sérios, com o aumento brutal dos custos energéticos, tivemos que verter diretamente no custo dos tratamentos das águas residuais, mas isso foi um processo que levou algum tempo, pelo menos dez meses com um problema muito sério, do ponto de vista da relação receita-despesa do sistema, mas foi um risco comercial que a Câmara assumiu, enfim, a meu ver, mal, mas agora temos de lidar com essas decisões”, afirmou Rui Anastácio.

Dando nota de que já está ligado a estas questões relacionadas com as preocupações ambientais há 35 anos (ou mais) e que já viu “muita coisa”, Rui Anastácio afirmou que o seu compromisso e da sua equipa é trabalhar, trabalhar, trabalhar:

“Não garantimos resultados. Temos perspetivas otimistas mas não garantimos resultados porque sabemos que nomeadamente a ETAR é um sistema biológico, de repente pode ter problemas sérios, espero que não aconteça mas nunca estamos livres disso, e isso já aconteceu num passado recente, e portanto temos que ser muito rigorosos, trabalhar muito bem, de uma maneira muito profissional, e eu penso que vamos conseguindo, passo a passo, evoluir e melhorar”, disse.

“Mas a mim não me apanham a dar garantias do que quer que seja. A única garantia que posso dar é de um trabalho sério, temos uma equipa muito boa, eu próprio tenho um vereador com uma enorme experiência nesta matéria, o vereador Nuno Silva, que tem vindo a acompanhar estes processos mais de perto, e em quem eu confio e que faz realmente um trabalho de enorme qualidade”, notou o presidente da Câmara alcanenense.

“Temos uma grande proximidade – que foi aqui hoje reconhecida – com a indústria de curtumes, como não podia deixar de ser. Estas entidades não podem de forma alguma andar de costas voltadas como aconteceu em alguns momentos do passado, e vamos procurar fazer um trabalho muito sério”, que terminou defendendo que a componente da internacionalização, design e inovação do produto são os ingredientes para criar valor e melhorar a vida das empresas, pessoas e famílias.

Pedro Cilínio, Secretário de Estado da Economia, também marcou presença no evento, sendo que após a sua intervenção, o primeiro dia do evento terminou com o Desfile do Projeto PT Leather InDesign, pela equipa de formadores e formandos do CFPIC.

No segundo dia do Leather Days, no dia 20 de janeiro, o programa prosseguiu sob o tema “Construção de um Sistema de Avaliação de Funções e Remunerações para o Setor dos Curtumes”.

Rafael Ascensão

Licenciado em Ciências da Comunicação e mestre em Jornalismo. Natural de Praia do Ribatejo, Vila Nova da Barquinha, mas com raízes e ligações beirãs, adora a escrita e o jornalismo.

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