Mães, filhas, jovens, idosas, desempregadas, precárias, reformadas, deprimidas, deslocadas ou em busca de um novo objetivo de vida. Em Alcanena cerca de duas dezenas de mulheres reuniram-se num Chá do Dia da Mulher para, de uma forma informal, se falar de empreendedorismo e de exemplos de inspiração no feminino. Terça-feira, dia 8 de março, houve ainda tempo para fazer publicidade a produtos artesanais, marcar workshops e lembrar que nada se consegue sem muito trabalho.

As histórias acabam por ser semelhantes: a jovem mãe que teve que abandonar os estudos para trabalhar, a licenciada que não encontra emprego na área, a desempregada depois de quase 20 anos a trabalhar na mesma empresa, a reformada que procurou descobrir um novo projeto de vida. Na Biblioteca Municipal de Alcanena, sete mulheres dispuseram-se a contar as suas histórias de luta por um projeto que as realizasse, depois de a vida as ter surpreendido com as suas inúmeras reviravoltas.

Os empreendimentos quase sempre envolvem a família, tendo sobretudo a figura da mãe como grande aliada. Nascem lojas de acessórios, cafés e pastelarias, minimercados, artesanato, produtos naturais. Em alguns casos este não é apenas um investimento! É o regresso quase forçado ao campo, à aldeia, depois de toda uma vida feita na grande cidade.

Professora de Yoga, ílvia Morais dá ainda aulas de comida vegetariana e vende cremes naturais
Professora de Yoga, ílvia Morais dá ainda aulas de comida vegetariana e vende cremes naturais

É o caso de Sílvia Morais, que encantou o público com a sua história de recomeço. Formada em arquitetura, obrigada a deixar Lisboa por não ter dinheiro para pagar a renda. Pretendia ficar em Alcanena apenas alguns meses, mas já lá vão quatro anos. Entretanto começou a dar aulas de yoga e culinária vegetariana em várias localidades, tendo iniciado uma linha de produtos naturais que vai vendendo no passa-a-palavra. “Vou fazendo umas coisas ligadas à forma como vivo”, procurou explicar à assistência de mulheres, tentando enumerar as consecutivas atividades em que se foi envolvendo depois de assentar em Alcanena. Neste caso em particular é tudo muito numa perspetiva de “comunidade e partilha”, vendendo os seus cremes a pedido e criados especificamente para a pessoa.

“O meu percurso académico teve que ficar engavetado”, assim como o de tantos outros estudantes, é a explicação inicial de Carla Pereira, responsável da “Tasca da Esquina”. Tendo alguma relação com a restauração, encontrou financiamento e apoio num vasto conjunto de mulheres – da família à funcionária de uma instituição bancária – que lhe permitiram abrir o espaço que hoje possui, curiosamente um “negócio de homens”. “Este é um negócio que mais serve os homens, porque as mulheres não têm tempo, nem poder económico, ou mesmo por estatuto, porque se a mulher vai beber com uma amiga é porque não tem nada que fazer em casa”, constatou.

Sónia Bento licenciou-se, mas a área da História não lhe tem permitido viver da sua formação. Com a mãe fez um estudo das possibilidades de negócios e decidiram criar um minimercado em Alcanena, identificando aí uma necessidade. Um espaço que também possui um “intuito social”, uma vez que o seu pequeno café ganhou fama entre as senhoras da vila, que ali criaram um ponto de encontro. “Tornou-se um espaço convidativo às senhoras da zona, que falam da vida delas e pedem opinião sobre os filhos, os maridos, o desemprego. É um espaço de partilha”, refletiu.

Sónia Bento, à direita, arrancou do zero com o projeto de um minimercado. Salienta que é necessário muita reflexão, trabalho e disciplina para manter um negócio. foto mediotejo.net
Sónia Bento, à direita, arrancou do zero com o projeto de um minimercado. Salienta que é necessário muita reflexão, trabalho e disciplina para manter um negócio. foto mediotejo.net

Partiram também de Sónia Bento os conselhos mais práticos que envolvem o empreendedorismo. Tendo tido que arrancar com um negócio do zero, salientou as dificuldades que englobam o desbravar de qualquer empreendimento. “Isto é difícil, tem que se trabalhar muito, haver muita disciplina”, sublinhou. “Aconselho a que façam um estudo de mercado, não abrir por abrir, pensar com cabeça, tronco e membros”, afirmou, explicando que são necessários três a quatro anos para os negócios estabilizarem. “As coisas têm que ser feitas com muito trabalho e muita motivação”, advertiu, estimulando a que se aproveitem as oportunidades.

Já Gorete Capitão, dona do espaço “Anya”, loja de acessórios de moda e perfumes, foi comercial durante 17 anos, até ficar desempregada. “Apesar de me terem aconselhado a não investir aqui, esta é a minha terra”, começou por frisar, explicando de seguida que o conceito da sua loja serve muito o seu lema de vida: “sempre acreditei que podíamos andar bonitas sem gastar muito”. A sua loja é o exemplo disso, procurando ter produtos diversificados a preços acessíveis.

Lisete Vieira inspirou as mais jovens a não desistir! Com uma vida dedicada à docência e alguma tendência para a depressão, encontrou na criação e venda de bijuteria uma forma de terapia que recomenda e aplaude. Após a reforma decidiu sair da cidade e ir viver para a aldeia, mas nunca perdeu o gosto de se arranjar bem. “Estar ligado a uma coisa bonita dá prazer”, sublinhou por diversas vezes, “fazer bijuteria é melhor que ir ao psiquiatra, é melhor que um antidepressivo”. Os seus anéis e colares depressa correram a mesa do Chá, criados a partir de cristais Swarovsky. Lisete faz bijuteria como muitas mulheres fazem renda e “dá um prazer imenso”.

Lisete faz e vende bijuteria, uma atividade que diz funcionar como terapia. foto mediotejo.net
Lisete faz e vende bijuteria, uma atividade que diz funcionar como terapia. foto mediotejo.net

Sofia Grácio estudou Artes no 12º ano e iniciou um curso de estilismo, mas teve que abandonar os estudos quando ficou grávida. “Senti muitas vezes que por ser jovem e com uma filha pequena era difícil encontrar trabalho”, explicou à audiência, relatando que passou boa parte da vida a “saltar” entre empregos. “Até que um dia experimentei fazer pinturas em tecido e comecei a vender”. O trabalho ganhou fama, possuindo grande perfeição e detalhe, investindo agora Sofia em novas formas de artesanato.

A última oradora foi Andreia Oliveira que, à semelhança de Sofia, também enveredou pelo caminho do artesanato, vendendo os seus produtos através de uma página on-line. O projeto possui, como as suas congéneres, a ajuda e o apoio da mãe, que investe na conceptualização e criação de produtos em tecido. Andreia foca-se na bijuteria, vendo crescer a bom ritmo a marca “Made by me”, depois de uma primeira tentativa, com um nome mais popular, que não captou qualquer interesse do público.

O Chá terminou com um momento musical, encerrando-se assim o Dia da Mulher em Alcanena. A iniciativa inseriu-se no projeto “Crescer e Desenvolver Alcanena”, dentro do Gabinete de Apoio ao Empreendedorismo da Câmara Municipal.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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