Foi um momento de grande de emoção para aqueles que, ao percorrerem as salas que recontam a história do concelho, se depararam com memórias de uma vida dedicada à indústria dos curtumes e que estarão, a partir de agora, preservadas nas paredes da infraestrutura, em união com uma memória que é coletiva.
O espaço que se assume como instrumento de salvaguarda da identidade do concelho, foi inaugurado na tarde de sexta-feira, dia 4 de outubro, no âmbito da cerimónia “Regenerar Alcanena”, tendo contado com a presença do secretário de Estado do Turismo, Pedro Machado, da presidente da CCDR Centro, Isabel Damasceno, da vice-presidente da Turismo do Centro, Anabela Freitas, dos membros do executivo e da presidente da Assembleia Municipal de Alcanena, Tereza Sampainho, entre outros convidados.
Estruturado em três coleções distintas, o Museu Municipal de Alcanena integra uma mostra única no país, tendo em conta a sua especificidade, que dá a conhecer a presença marcante do setor dos curtumes neste território ao longo da sua história. Também a arqueologia patente permite conhecer o passado e a história desta vila do centro Portugal, com achados do território que vão desde o Paleolítico até à Idade Moderna.
Uma terceira coleção, dedicada à história local e com um caráter etnográfico, preserva o passado com peças que vão desde os carris da ‘Rata Cega’, comboio existente em Alcanena nos finais do século XIX, aos utensílios de fiação provenientes de Minde.
“A quantidade de pessoas que vimos emocionadas naquele espaço já diz quase tudo sobre a importância deste projeto. É um projeto de preservação das memórias, porque os territórios têm de olhar para o seu passado e compreendê-lo. Só assim é que conseguem projetar o futuro, é esse o papel dos museus nos dias de hoje”, afirmou o o autarca de Alcanena, em declarações ao mediotejo.net.
Vincando que “os museus hoje não são os museus de ontem”, Rui Anastácio explica que a ideia passa por envolver a comunidade na programação do espaço para que esta, olhando para o passado, ajude a projetar o futuro de Alcanena. “Não são espaços fechados, são espaços que vivem em íntima relação com a comunidade e que projetam os territórios. É isso que nós queremos que este museu seja”.

Para o edil, é um equipamento que “guarda em si uma história plural e singular do território, com 45 mil anos”, documentando um “saber-fazer muito particular”, assente nas dinâmicas de um “território de transição em constante dialética”.
O Museu e Arquivo Municipal foram instalados no edifício destinado a Museu do Curtume, concluído e encerrado desde 2008. Para Rui Anastácio, presidente da Câmara Municipal, foi dado um importante passo na “salvaguarda da identidade do concelho” de Alcanena.
“É um museu de que se fala há 40 anos, que está instalado num edifício construído desde 2008 e que nunca foi inaugurado. Felizmente, com o empenho de muita gente, com a liderança do Gabriel Feitor (…), que é um jovem apaixonado pela sua terra, conseguiu fazer acontecer em pouco tempo, em 2 anos, aquilo que os que estiveram antes de nós não conseguiram durante 30 ou 40 anos”, recorda.
No entanto, embora este seja “um momento de algum orgulho”, o autarca sublinha ser necessário “um banho de humildade” e compreender que “está feito um trabalho importante, mas há sempre muito a fazer”.
Gabriel Feitor, coordenador do projeto de instalação do Museu e Arquivo Municipal, começou por sublinhar um “dia muito feliz”, agradecendo o “espírito de missão” do executivo, bem como a “disponibilidade e sensibilidade para as questões do património cultural, da memória e da identidade”.
“Em Alcanena nunca se fez tanto nesta matéria como nos últimos três anos”, acrescenta. “O Museu em Alcanena é uma odisseia com mais de 40 anos”, tendo a ideia sido lançada pelo presidente da Câmara de então, António Galveias Dias e posteriormente sustentada pelo vereador da cultura, António Antunes Martins e pelo presidente sucessor, Joaquim Pereira Henriques.
“Sou da opinião que o concelho sofre, há alguns anos, de uma carência de reflexão sobre si mesmo, condicionada sobretudo, por não se conhecer a si próprio”, afirma o mentor do projeto.
Colocando “mãos à obra”, o executivo constituiu equipa e iniciou um trabalho de preservação, investigação, estudo e divulgação do acervo museológico junto da comunidade concelhia, bem como “na recolha do património, material e saber fazer, através dos programas de recolhas e entrevistas com antigos operários e empresários”, explica Gabriel Feitor.









O trabalho de campo foi realizado junto das diversas unidades industriais que ainda laboram, passando-se ao “estudo e caracterização das peças da coleção, com a participação da comunidade”, com o principal objetivo de “devolver a ela e ao mundo, o seu património”.
Mas nem só pela história dos curtumes é composto o Museu Municipal de Alcanena. Vai muito além disso e integra elementos arqueológicos desde há 45 mil anos atrás, contando ainda com espólio dedicado à história local.
“Ir além da temática do curtume surgiu de uma necessidade de se contar uma história sobre o território que, apesar de se ter constituído autonomamente apenas há 110 anos, já tinha entre si contactos e relações centenas de anos antes”, notou o coordenador, tendo destacado um espaço que faz a “interpretação dos processos histórico que influenciaram o território e a comunidade”.
Para Feitor, espera-se agora que este seja um museu aberto, “de todos e para todos” e com valências multidisciplinares, que interajam com a componente do Arquivo Municipal, equipamento instalado no mesmo edifício.
Recorde-se que a empreitada do Museu do Curtume teve início em 2008 e foi orçada em 1,7 ME. O equipamento ficou pronto no mesmo ano, porém, nunca abriu as portas ao público, tendo o atual executivo investido cerca 250 mil euros no edificado, projeto de museografia e multimédia, e cerca de 50 mil euros no Arquivo, perfazendo um investimento global na ordem dos 2 ME que abriu portas ao público na sexta-feira, num “espaço que se quer dinâmico” e vivido.
Para além das três coleções de longa duração patentes no museu, o edifício integra o Arquivo Municipal que alberga os fundos documentais municipais, bem como alguns fundos privados doados para o efeito. A documentação histórica ficará, para já, acessível aos investigadores e público em geral, mediante marcação prévia.














































Muitos parabéns ao Médiotejo,net pela excepcional reportagem escrita e pela soberba reportagem fotográficaque muito ajuda a compreender a razão deste Museu Municipal e um pouco da indúistria de Alcanena. Parabéns.