“Amo-te”. A palavra é intensa, como se quer que o amor seja, e vai fazer parte de milhares de sms trocados neste Dia dos Namorados. Tempos houve em que o sentimento era expressado através das cartas de amor pelas quais se ansiava quando abríamos a caixa do correio ou recebidas em mão, entre olhares cúmplices. Fomos descobrir algumas delas na Mostra de São Valentim que a Biblioteca Municipal Dr. Carlos Nunes Ferreira, em Alcanena, tem patente ao público entre os dias 14 e 28 de fevereiro – e acrescentámos-lhes outras, para inspirar momentos daqueles que fazem o tempo ficar preso ao bater do coração.
São muitos os gestos com os quais mostramos à cara-metade o sentimos. Do beijo apaixonado dos mais novos como se não existisse amanhã às mãos dadas dos mais velhos para quem muitas manhãs chegaram e aprenderam que a paixão, quando cresce, se chama cumplicidade. Dos ursinhos de peluche que marcam uma data aos pequenos gestos do dia-a-dia como um pequeno-almoço surpresa na cama. Dos ramos de flores que rivalizam com muitos jardins ao pequeno mal-me-quer que se colhe e oferece durante um passeio no campo, destacando o “tudo” do “pouco ou nada”.
Na verdade, conta mesmo tudo no que toca ao sentimento que nos faz sentir “borboletas no estômago” e nos transforma em heróis épicos com vontade de partir à conquista do mundo. No entanto, mais do que as memórias, são as palavras que perduram no tempo e se, atualmente, o amor é muitas vezes revelado através de algumas tecladas num telemóvel, existem registos intemporais de quando este se declarava, página após página, através da caligrafia única de quem transportava para (e através do) papel o que lhe ia na alma.

Foi através da correspondência que muitos descobriram se eram ou não correspondidos. Quantas cartas de amor terão ficado sem resposta e quantas chegaram com a certeza de que o sentimento era mútuo? Descobrimos algumas na Mostra de São Valentim que a Biblioteca Municipal Dr. Carlos Nunes Ferreira preparou e na qual partilha “Cartas de Amor de Grandes Autores” para assinalar o dia em que os corações batem mais forte.
As iniciativas inspiradas pelo cupido são já uma tradição neste equipamento cultural e Graça Asseiceira relembra as diversas formas como se fortaleceu o amor junto dos frequentadores habituais e outros visitantes. “É um tema amoroso que se deve mesmo sinalizar”, salienta, e as cartas de amor vêm completar a lista dos anos anteriores com aquilo que diz ser “o nosso pequeno contributo para o dia dos namorados”, na qual se encontram marcadores de livros, receitas e poemas.

Segundo a responsável pela biblioteca municipal de Alcanena, a escolha deste ano recaiu em valorizar um conceito que está em desuso” provocado pela “era digital” e “dar destaque a essa atenção de escrever a alguém”. As obras literárias de autores como Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke, Florbela Espanca, Montesquieu, Fernando Dacosta ou Friedrich Nietzsche compõem uma oferta que se pretendeu “diversificada” e com “cartas de amor para todos os gostos”, acrescenta.
Frases mais sofridas ou mais românticas – escritas na altura com as chamadas letras cursivas (ou à mão) que vão dando lugar às letras de imprensa (ou à máquina) – e se encontram no hall da entrada ou nas prateleiras de literatura portuguesa e estrangeira no piso superior. Foi no último local que nos sentámos a ler a “A Correspondência de Fradique Mendes” e nos deixámos embalar pelas últimas palavras da carta que o personagem criado por Eça de Queirós dedica à amada Clara:

“Não penses que estou compondo cânticos em teu louvor. É em plena simplicidade que deixo escapar o que me está borbulhando na alma… Ao contrário! Toda a poesia de todas as idades, na sua gracilidade ou na sua majestade, seria impotente para exprimir o meu êxtase. Balbucio, como posso, a minha infinita oração. E nesta desoladora insuficiência do verbo humano é como o mais inculto e o mais iletrado que ajoelho ante ti, e levanto as mãos, e te asseguro a única verdade, melhor que todas as verdades – que te amo, e te amo, e te amo, e te amo!…”.
Perante tamanha dedicação expressa impõe-se a pergunta se as cartas de amor deviam regressar e colocámos a questão a Maria João Gomez, vereadora da Câmara Municipal de Alcanena, que também esteve presente na nossa visita à Biblioteca Municipal Dr. Carlos Nunes Ferreira. A resposta “claro que sim” foi rápida, tendo acrescentado que “a existência humana tem ciclos de vida em que podemos e devemos avançar na técnica, mas sem deixar de recordar e de fomentar também o contacto humano”.

O contacto humano e “com o papel”, transformando esta iniciativa numa entre as muitas que destaca serem desenvolvidas pela biblioteca como meio de promoção da leitura e da escrita, assim como grandes autores. No caso do Dia dos Namorados, a mostra bibliográfica ganha especial relevo junto das crianças e jovens do concelho para quem o romantismo, diz, “virá com determinadas fases da vida” e junto dos quais fomenta “particularmente o carinho e o amor, seja ele entre pessoas de sexo diferente, entre elementos da família, na amizade, no que for”.
Perguntamos também se Alcanena é um concelho romântico e a vereadora da cultura volta a responder afirmativamente, justificando com a forte adesão registada neste tipo de iniciativas, confirmada por Graça Asseiceira. Outro ponto destacado é a curiosidade das pessoas sobre o que vai ser feito em cada ano e neste, além dos livros expostos ou para consulta, a biblioteca preparou exemplares de cartas que se podem levar para casa e oferecer a quem mais gosta.

No pátio exterior existe ainda a “Árvore do Amor”, outra iniciativa de sucesso, cujos “frutos” são corações vermelhos à espera de serem “colhidos” por quem passa e personalizados com uma declaração. O romantismo depende de cada um e as cartas de amor bonitas não pertencem apenas aos autores reconhecidos pois o que importa é a mensagem. Tony de Matos já cantava “quem as não tem” e muitos tiveram-nas durante anos, mas o gesto de amar através da tinta da caneta corre o sério risco de desaparecer.
Além disso, o mundo seria melhor se abrir a caixa de correio deixasse de ser sinónimo de novas contas para pagar e ter muito amor a circular em papel evitaria situações como o recente anúncio dos CTT sobre o fecho de mais de 20 balcões. Por isso, se quer contribuir para a causa e ser verdadeiramente original neste Dia dos Namorados meta mãos à obra e escreva o que sente. Não importa se for ridículo pois já Fernando Pessoa (Álvaro de Campos) dizia que todas as cartas de amor são assim.
