Espinheiro Bernardo Santareno

As “Conversas Mirabolantes”, um projeto promovido pela Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Santarém (IPS) dentro das celebrações do centenário de nascimento do dramaturgo António Martinho do Rosário, passaram na manhã de sábado, 12 de dezembro, pela aldeia do Espinheiro, concelho de Alcanena. A localidade, de onde eram naturais os avós paternos e pai daquele que é conhecido pelo pseudónimo de Bernardo Santareno, ainda possui vários familiares do autor, que assistiram com interesse e aplausos às pequenas atuações de peças do dramaturgo.

“Era um homem alto e delgado”. Maria Elvira Lopes, proprietária há 55 anos do “Café Brites”, ainda se lembra daquela única vez em que esteve no mesmo espaço que Bernardo Santareno. O tio era casado com uma familiar do dramaturgo e terá sido através dessa ligação que se deu o episódio. Maria Elvira era criança e já não se lembra de mais nada.

Mas foi com entusiasmo que recebeu o grupo das “Conversas Mirabolantes”, que animou o seu café durante cerca de meia hora com uma breve encenação que conjugou várias das peças de Bernardo Santareno.

Link para vídeo da atuação

populares juntaram-se no exterior do Café Brites para assistir à atuação Foto: mediotejo.net

Sob a orientação de Ana da Silva, docente da Escola Superior de Educação do IPS, e com a participação de Vicente Batalha, antigo presidente do Instituto Bernardo Santareno, e Lina Louro, presidente da união de freguesias de Malhou, Louriceira e Espinheiro, recordaram-se passagens de “A Promessa”, “O Duelo”, “O Crime da Aldeia Velha” e “A Excomungada”.  O “Café Brites” foi a primeira paragem, que rapidamente chamou a atenção de vários populares, que se concentraram no espaço exterior, assistindo ao teatro pela janela.

Entre os observadores estava um primo direto de Bernardo Santareno, Artur Martinho do Rosário, habitante do Espinheiro, sobre o qual rapidamente os moradores chamaram a atenção para a presença. “Ele tinha 20 anos e eu 10”, recordou ao mediotejo.net, “vinha de vez em quando ao Espinheiro. Era uma pessoa que gostava muito da terra e da família. Conversava com todo o pessoal da sua idade”.

Apesar de ser parente próximo, Artur Martinho do Rosário conviveu mais com o primo quando este passou por Luanda, antes do 25 de abril. Ter-se-ão encontrado por acaso e conviveram durante os poucos dias que ali passou, para participar numa conferência sobre invisuais. “Era um espírito aberto”, recorda, “deu uma palestra sobre o ensino de pessoas cegas”.

Artur Martinho do Rosário é habitante do Espinheiro e apercebeu-se da encenação, acabando a acompanhar o grupo pelas ruas da aldeia Foto: mediotejo.net

“Quando voltei, em 1975, ele já não estava bem de saúde”, refere, tendo morrido cinco anos depois. Questionado sobre o programa de celebrações do centenário de Bernardo Santareno, o familiar reflete que é sempre pouco. “Era uma pessoa única. Não queria riqueza, não queria nada. E sempre que vinha ao Espinheiro era pessoa de ajudar. Convivia com toda a gente. A casa do meu avô, aqui no Espinheiro, foi onde ele começou a fazer as primeiras peças”, recordou.

O avô de Santareno, António Martinho, é a figura em torno da qual gira a família. Artur ainda se recorda dele, que “tinha sempre coisas para me dar”. Durante as atuações, Vicente Batalha e Ana da Silva lembraram que a biografia recentemente lançada de Bernardo Santareno tem várias passagens referentes ao Espinheiro e aos avós, que ali viviam e por quem tinha grande estima, tendo vivido ali momentos da sua infância e juventude.

Do “Café Brites” a atuação passou para as ruas. “Ainda cheguei a falar com ele, quando era médico”, refere de passagem um popular. Santareno foi médico de algumas pessoas da aldeia.

Casa dos avós de Bernardo Santareno no Espinheiro está marcada com uma placa. Ali ele encenou as primeiras peças com presença de público Foto: mediotejo.net

Na “Cervejaria Conicha” descobrem-se mais parentes. O dono é um familiar já afastado, o pai era primo de Bernardo Santareno. A atuação já é mais rápida e até já se dá azos ao improviso. Mas continuam todos a bater palmas e há quem siga a pequena romaria e já assista à atuação pela terceira vez.

A ideia de trazer as “Conversas Mirabolantes” ao Espinheiro partiu de Ana da Silva, que se tornou a representante do IPS no programa celebrativo do centenário de nascimento do dramaturgo (nascido a 19 de novembro de 1920). O projeto já passou por Santarém, onde reuniu duas dezenas estudantes num café a discutir as obras do autor. “A ideia era não só falar do homem, mas também mostrar a riqueza das peças”, explica Ana da Silva ao mediotejo.net.

Atuação passou pelas ruas, chamando a atenção de quem se encontrava Foto: mediotejo.net

Sucedeu que uma das suas alunas é do Espinheiro. No lançamento da biografia de Bernardo Santareno, que ocorreu dia 19 de novembro em Santarém, conheceu Lina Louro. Rapidamente se agendou a iniciativa para terras de Alcanena.

O grupo de cinco pessoas pouco ensaiou, admitiu, mas a pequena atuação conseguiu ainda assim captar a essência das obras do autor. As narrativas das populações rurais, os seus medos e credos, as suas superstições, as diferenças entre classes sociais. “Li «O Judeu» quando tinha 20 e poucos anos. O meu interesse nasceu aí. Ultimamente, devido ao centenário, envolvi-me mais e li a restante obra. Comecei a gostar ainda mais dele, as peças têm estes dramas familiares, que também são da minha área de estudo”, explicou ao mediotejo.net.

Populares conhecem o nome e algumas peças, lembrando-se da convivência com o dramaturgo Foto: mediotejo.net

Já Lina Louro recorda que António Martinho do Rosário escolheu o pseudónimo de Bernardo porque São Bernardo é o padroeiro do Espinheiro. “Foi uma pessoa que conviveu com as nossas gentes e gostou da terra”, referiu, lembrando que a casa dos avós está identificada com uma placa, há uma rua com o nome de Bernardo Santareno e até um percurso pedestre, que passa por locais que o inspiraram.

Com muitas iniciativas canceladas devido à pandemia, Lina Louro no entanto confessou que a junta de freguesia ainda não desistiu de fazer algum evento que marque o centenário do autor.

Veja o video da atuação no Espinheiro:

Cláudia Gameiro

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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