Alcanena faz da imigração uma oportunidade para o futuro. Clara Baptista, vereadora em Alcanena. Foto: CMA

Alcanena está a contrariar o declínio demográfico graças à fixação de população migrante, que já representa mais de 10% dos residentes do concelho e responde às necessidades de mão-de-obra em vários setores económicos. A autarquia defende que o desafio passa agora por garantir habitação, reforçar os serviços públicos e acelerar os processos de regularização, apostando numa estratégia de integração que considera uma referência nacional.

“A imigração representa hoje uma oportunidade para o concelho. Tem contribuído para responder às necessidades de mão-de-obra, combater o envelhecimento demográfico e dinamizar a economia local”, afirma a vereadora da Ação Social da Câmara de Alcanena, Clara Baptista, numa entrevista ao nosso jornal, realizada a propósito do IV Encontro das Comunidades Migrantes Residentes no Concelho de Alcanena, que decorre no domingo, integrado no festival Entretanto.

Os números ajudam a explicar essa realidade. Segundo os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE), relativos a 2025, Alcanena tem 13.313 habitantes, dos quais 1.372 são cidadãos estrangeiros com residência legal. Ainda assim, a autarca sublinha que o número efetivo será superior, uma vez que continuam pendentes diversos processos de regularização documental.

“O maior crescimento verificou-se entre 2022 e 2024, muito impulsionado pela guerra na Ucrânia, pelas necessidades do mercado de trabalho e pelo aumento dos fluxos migratórios. Atualmente, verificamos uma estabilização das novas entradas”, explica.

Para Clara Baptista, sem este contributo “seria difícil contrariar a diminuição da população ativa e assegurar a renovação geracional”, num concelho que, como muitos territórios do interior, enfrenta há décadas problemas de envelhecimento e perda de população.

Da imigração laboral à fixação de famílias. A realidade migratória do concelho também mudou.

Se numa primeira fase predominava uma imigração essencialmente laboral, hoje cresce o número de famílias que escolhem Alcanena para viver de forma permanente.

A comunidade brasileira continua a ser a mais representativa, seguida pelos cidadãos oriundos dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). Nestes casos, a fixação familiar é já uma realidade consolidada.

Por outro lado, as comunidades provenientes do Bangladesh e da Índia continuam a apresentar um perfil maioritariamente masculino e ligado ao mercado de trabalho. No entanto, a regularização de muitos processos pendentes está agora a permitir o início do reagrupamento familiar.

“Temos assistido a um número crescente de processos de reagrupamento familiar, o que demonstra uma intenção clara de permanência e de fixação no território”, refere a vereadora, dando conta que essa mudança reflete-se igualmente nas escolas.

Atualmente, o Agrupamento de Escolas de Alcanena integra cerca de 300 crianças de 25 nacionalidades diferentes no ensino regular, enquanto o ensino de adultos acolhe aproximadamente 80 alunos.

Alcanena faz da imigração uma oportunidade para o futuro. Clara Baptista, vereadora em Alcanena. Foto: CMA

Segundo a responsável, este contexto exige um esforço acrescido por parte das escolas, que têm vindo a adaptar métodos de ensino e estratégias de integração, trabalho que considera reconhecido pelos resultados obtidos.

Empresas dependem cada vez mais da mão-de-obra migrante. Impacto faz-se sentir também na economia local

A indústria dos curtumes, um dos setores tradicionais do concelho, a indústria da pedra, a construção civil, os transportes, o setor social e vários serviços recorrem hoje de forma crescente a trabalhadores estrangeiros para responder à escassez de mão-de-obra.

Além dos trabalhadores por conta de outrem, começam igualmente a surgir pequenas iniciativas empresariais promovidas por cidadãos migrantes, desde estabelecimentos comerciais a pequenos projetos agrícolas.

“A diversidade cultural traz uma nova dinâmica às comunidades. Quando a integração é bem acompanhada promove-se uma sociedade mais participativa, mais inclusiva e mais preparada para responder aos desafios de um mundo cada vez mais global”, sustenta.

Alcanena aposta na integração para fazer da imigração uma oportunidade. Foto: CMA

Habitação continua a ser o maior desafio. O crescimento da população coloca, contudo, novas exigências.

“A integração não acontece de forma automática. Exige investimento, planeamento e um trabalho contínuo de proximidade”, afirma, dando nota que a habitação continua a ser o principal problema identificado.

“A dificuldade em encontrar alojamento disponível e a preços acessíveis continua a condicionar a fixação e a integração das pessoas migrantes”, reconhece.

A autarquia acredita, porém, que o investimento em curso na construção e reabilitação de habitação pública acessível permitirá aliviar parte dessa pressão nos próximos anos, sendo que, também o setor da saúde, enfrenta desafios.

Segundo Clara Baptista, o Centro de Saúde de Alcanena presta atualmente cuidados a cerca de 19 mil utentes inscritos, bastante acima dos cerca de 13 mil habitantes residentes no concelho, refletindo o crescimento populacional e a pressão sobre o Serviço Nacional de Saúde.

Na educação, além do aumento do número de alunos estrangeiros, o município está a reforçar a oferta de respostas sociais através da construção de duas creches municipais, do aumento de vagas nas IPSS e do reforço da capacidade dos jardins de infância.

ALLCome acompanha centenas de processos

Grande parte desta resposta é assegurada através do programa municipal ALLCome – Acolher em Liberdade, criado em 2024 e que integra o CLAIM – Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes.

Mais do que um balcão de atendimento, Clara Baptista descreve-o como “uma estratégia integrada” que articula habitação, educação, ação social e integração comunitária.

Só no primeiro quadrimestre deste ano, o CLAIM tinha 191 processos ativos e realizou 302 atendimentos, sendo a maioria dos pedidos relacionada com a renovação de títulos de residência, reagrupamento familiar e regularização documental.

Apesar da melhoria da articulação com a Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), a autarca considera que continua a ser necessário reduzir os tempos de espera e reforçar a capacidade de resposta dos serviços.

Alcanena aposta na integração para fazer da imigração uma oportunidade. Foto: CMA

“O CLAIM acaba também por dar resposta a pessoas de concelhos vizinhos que já não dispõem deste tipo de apoio, o que aumenta significativamente a nossa procura”, refere.

Um encontro para aproximar culturas

É precisamente essa filosofia de integração que estará em evidência no domingo, durante o IV Encontro das Comunidades Migrantes Residentes no Concelho de Alcanena, integrado na programação do festival Entretanto, iniciativa que vai muito além de um momento festivo.

Durante várias semanas, representantes das diferentes comunidades participam em reuniões de preparação, onde partilham histórias de vida, experiências migratórias e tradições dos seus países de origem, criando relações de proximidade antes mesmo do evento.

No domingo, essa partilha ganha expressão pública através da gastronomia, da música, da dança e de diversas manifestações culturais.

“Trata-se de uma iniciativa de mediação intercultural, que aproxima pessoas de diferentes origens e reforça a ideia de um concelho onde existe espaço para o diálogo, para a diversidade e para a convivência assente no respeito mútuo”, afirma Clara Baptista.

Desde a primeira edição, em 2023, o encontro tem vindo a crescer em número de participantes e de comunidades envolvidas, assumindo-se hoje como um dos momentos mais simbólicos da estratégia municipal de acolhimento.

Alcanena faz da imigração uma oportunidade para o futuro. Clara Baptista, vereadora em Alcanena. Foto: CMA

“O nosso objetivo mantém-se inalterado: construir um concelho onde o acolhimento seja digno, a integração seja efetiva e a convivência entre cidadãos locais e migrantes se traduza numa comunidade mais coesa, inclusiva e sustentável”, conclui a vereadora.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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