Fábrica da Cultura de Minde - REDES - Comunidades Colaborativas, Iniciativa promovida pela ADIRN

A Fábrica da Cultura, em Minde, acolheu na sexta-feira, 3 de fevereiro, a segunda sessão promovida pela Associação para o Desenvolvimento Integrado do Ribatejo Norte (ADIRN), no âmbito da Estratégia Local de Desenvolvimento 2030. Sob o mote “Redes – Comunidades Colaborativas”, o momento foi de partilha de experiências, com o foco colocado na cooperação entre agentes políticos, associativos e culturais, no sentido da valorização global do território.

Rui Anastácio, presidente da Câmara Municipal de Alcanena, teve honras de abertura da sessão e evidenciou a importância de se estreitarem laços entre os atores territoriais com responsabilidades no desenvolvimento do território da área de intervenção da ADIRN (municípios de Alcanena, Ferreira do Zêzere, Ourém, Tomar, Vila Nova da Barquinha e Torres Novas).

O autarca reforçou a necessidade de uma ação conjunta, menos egoísta e mais colaborativa, para contrariar a tendência tradicionalista enraizada nas práticas locais e nacionais.

“Um dos nossos problemas, enquanto país e enquanto sociedade, é a incapacidade de trabalharmos em conjunto. Nos últimos 10 anos, estamos a despertar para essa importância, de cosermos os territórios e os agentes desses territórios. De conseguirmos compreender o que é que os outros estão a fazer, como podemos ser complementares. Compreendermos, sobretudo, que juntos, podemos ser muito mais do que somos a nível individual. Dito assim, isto parece evidente e óbvio, mas do ponto de vista prático, não é tanto assim. Porque nós tendemos a ser egoístas”, refletiu Rui Anastácio, que defendeu o trabalho em rede no sentido do desenvolvimento sustentado do território.

Rui Anastácio, presidente da Câmara Municipal de Alcanena defende as sinergias entre agentes para promover o desenvolvimento territorial. Fotografia: mediotejo.net

“Este trabalho em rede é um combate ao egoísmo. E muitas vezes, é um combate à nossa natureza enquanto seres humanos. Porque, a verdade é que conseguir trabalhar em rede pressupõe que abdiquemos de algum poder pessoal, de fazer o que queremos, quando queremos, à hora que queremos e da maneira que queremos. Quando trabalhamos em rede, trabalhamos de uma forma complementar, procuramos sinergias, e temos de saber ceder. E isso, não é fácil”, reforçou o autarca, dando a conhecer que o Município que preside tem, vindo a apostar em parcerias estratégicas com diferentes autarquias.

“A autarquia de Alcanena, ainda agora, assinou um protocolo com a autarquia de Torres Novas. Temos um projeto para propor à autarquia de Santarém e outro para propor à autarquia de Porto de Mós. E nós, as autarquias das serras de Aire e Candeeiros, conseguimos nos últimos seis meses, estruturar um plano, que vamos agora candidatar e que vai permitir que um território com sete municípios, integrados em duas CCDR e em quatro comunidades intermunicipais, desenvolva um projeto comum, um produto turístico”, notou o autarca.

“Meter esta gente toda a trabalhar em conjunto, conseguir financiamento conjunto e depois, juntos, irmos vender este território e os nossos produtos regionais. É este o grande desafio. Percebermos como é que podemos ser complementares, organizarmo-nos, e criar um produto, um territórios que seja vendável”, defendeu Rui Anastácio, tendo apontado a um território vendável, do ponto de vista turístico, e capaz de fixar as gerações mais novas, para combater o decréscimo populacional.

“O concelho de Alcanena perdeu 1300 pessoas nos últimos 10 anos, o que representa 10 por cento da nossa população. E estamos a uma hora de Lisboa. Temos aqui um problema grande. Precisamos de ter uma economia que tenha a capacidade de fixar jovens recém formados e mão de obra diferenciada. E esses jovens, só vêm para cá se encontrarem um território atrativo a diferentes níveis”, afirmou,

Rui Anastácio diz que “é preciso ouvir muito”, identificar as potencialidades de cada concelho e perceber de que forma as sinergias entre agentes podem ser uma mais-valia. E deixou um alerta: “temos de perceber em que vetores nos podemos diferenciar, como é que o território e os agentes se podem organizar e fazer escolhas muito claras em relação à aposta que se quer fazer. Porque, muito francamente, parece-me que muitas vezes, quer-se apostar em tudo e depois não se aposta em nada.”

A terminar, fazendo menção aos fundos comunitários, Rui Anastácio deixou ainda um repto aos responsáveis políticos da região, para que invistam em projetos sérios e não em obras para “fazer vista”.

“As câmaras e as juntas de freguesia, por vezes, acabam por aproveitar um bocadinho estes financiamentos para fazerem aquelas obrinhas que dão votos. Eu acho que o desafio é, precisamente, contrariar essa tentação natural de qualquer autarca. O objetivo é perceber onde é que temos de pôr o euro, de maneira a que tenha a capacidade de se reproduzir. Precisamos que os jovens casais se reproduzam, mas também precisamos que os euros tenham essa capacidade. Esse é que é o grande desafio. Conseguir identificar quais são as opções que nos vão permitir multiplicar os euros”.

Até porque, as oportunidades são escassas e é preciso saber aproveitá-las, notou.

“Quem, como eu, já passou dos 50, já ouve falar em fundos comunitários há muito tempo, desde a década de 80. E, a sensação que tenho, é que olhando para trás, não tenho dúvidas de que fizemos muita coisa bem feita, mas também fizemos muita coisa mal feita. Penso que desperdiçámos muitas oportunidades e as oportunidades não surgem todos os dias. Cada vez surgem menos. Portanto, temos pela frente o desafio de aproveitar estas oportunidades da melhor maneira.”

ADIRN quer ouvir agentes para definir estratégia de desenvolvimento para o território

Ainda sem conhecer o montante que vai caber à ADIRN no próximo quadro comunitário para aplicar na Estratégia de Desenvolvimento Local 2030, Jorge Rodrigues, coordenador daquela associação, afirma que é altura de “ouvir e recolher contributos” para elaborar um plano de desenvolvimento, sem pensar, para já, no seu financiamento.

“Cada vez vamos tendo as nossas capacidades mais reduzidas. Mas, temos um papel muito importante na motivação, na dinamização do território e na proximidade com os promotores. Não vamos aqui discutir um quadro de financiamento, até porque, neste momento ainda não sabemos exatamente o que vai ser reservado para as associações, mas queremos discutir uma estratégia para o território e depois, logo se vê quem financia e quem implementa cada uma das medidas. Estamos a discutir uma estratégia alargada, sem pensarmos em balizas financeiras ou em programas de financiamento”, reforçou Jorge Rodrigues.

Foi para isso que convocou um ilustre painel de oradores, agentes culturais com influência direta ou indireta no território do Ribatejo Norte, para uma partilha de experiências no âmbito dos processos colaborativos e das boas práticas de trabalho em rede.

“Este encontro tinha o tema das comunidades colaborativas, muito focado para o trabalho das redes. Tivemos alguns exemplos interessantíssimos, nacionais e internacionais. E também experiências locais que estão em curso. E aprende-se muito aqui, a troca de experiências é muito enriquecedora. O que quase todos os oradores focaram foi a capacidade que este trabalho colaborativo tem de transformar as pessoas e de as transformar a elas próprias, em agentes de desenvolvimento dos seus territórios”, referiu Jorge Rodrigues.

Presidente da Federação Minha Terra defendeu menos “redes” e “mais trabalho colaborativo”

Convidado a falar da sua experiência passada enquanto ativista cultural, Miguel Torres, presidente da Federação Minha Terra, destacou a importância dos movimentos associativos para as dinâmicas territoriais, recusando a ideia da existência de uma crise associativista.

“Não acredito em nada disso. O associativismo não está em crise, está em transformação”, defendeu, lembrando que “o associativismo tem uma lógica transformadora” e que pode ter mesmo “um papel muito importante na fixação da população”.

Olhando ao tema da sessão, Miguel Torres reforçou que “os processos de trabalho colaborativo são fundamentais”, mas fez notar que, é preciso concretizar o conceito com práticas efetivas.

“O trabalho em rede é a matriz do nosso território e da nossa construção comunitária. O problema é que a determinada altura, o conceito de rede deixou de ser uma prática, para ser apenas isso mesmo, um conceito, uma definição. Precisamos mais de práticas do que de palavras. Precisamos, urgentemente, de deixar de trabalhar em rede, para começarmos, efetivamente, a trabalhar uns com os outros”, defendeu.

Nesta iniciativa, foram convidados a intervir, diversos atores culturais da região ligados a projetos como o Teatro de Minde “Boca de Cena”, a Associação de Jovens Lusodescendentes, o Museu Agrícola de Riachos, a Rede de Turismo e Bem Estar do Ribatejo Norte, a Rede de Museus do Médio Tejo, o festival Bons Sons ou o projeto Artemrede, além da apresentação do programa “Saber Fazer”, da DGARTES e da Rede de Dieta Mediterrânea (PNAES).

A próxima sessão promovida pela ADIRN no contexto da preparação da Estratégia de Desenvolvimento Local 2030, terá lugar no concelho de Ourém, dirigida às microempresas, em data ainda por definir.

Natural de Torres Novas, licenciada em jornalismo, apaixonada pelas palavras e pela escrita, encontrou na profissão que abraçou mais do que um ofício, uma forma de estar na vida, um estado de espírito e uma missão. Gosta de ouvir e de contar histórias e cumpre-se sempre que as linhas que escreve contribuem para dar voz a quem não a tem. Por natureza, gosta de fazer perguntas e de questionar certezas absolutas. Quanto ao projeto mais importante da sua vida, não tem dúvidas, são os dois filhos, a quem espera deixar como legado os valores da verdade, da justiça e da liberdade.

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