Na aldeia ribeirinha de Rossio ao Sul do Tejo, concelho de Abrantes, um grupo de jovens decidiu deixar a postura dos braços cruzados e lançar mãos à obra, com intuito de fazer mais pela sua terra e proporcionar nova dinâmica na vida em comunidade, incentivar a participação cívica e estimular as parcerias no associativismo local. O mediotejo.net foi conversar com os jovens que passaram da ideia à ação e saber o que motivou a fundação da recém-criada AJR – Associação Juvenil Rossiense.

Constituída oficialmente a 19 de agosto enquanto associação juvenil de âmbito cultural e recreativo, a Associação Juvenil Rossiense (AJR) tem na presidência duas jovens amigas, Glória Sampaio e Bianca Mendes, respetivamente presidente e vice-presidente da mais recente coletividade do concelho de Abrantes.

Logótipo da nova Associação Juvenil do Rossio ao Sul do Tejo, em Abrantes. Os jovens quiseram que alguns elementos fizessem parte da imagem da AJR: os Mourões, o Pato Bravo, a cor azul também a simbolizar o rio Tejo.

Desengane-se quem possa à partida pensar que esta ideia foi rolando, e rolando nos últimos anos… A verdade é que a ideia surgiu há dois meses e foi posta em prática de forma quase imediata. Num impulso, género mergulho de cabeça, avançaram sem deixar margem para dúvidas.

Foi a 1 de julho que iniciaram as primeiras conversas sobre a intenção de fazer algo mais pela aldeia, mas antes disso já Glória tinha comentado com os pais sobre o porquê de não se fazer mais alguma coisa pela terra. Queria perceber porque não se promoviam mais eventos que unissem a comunidade e trouxessem mais motivos para alegrar o Rossio e demonstrar o orgulho em ser dali natural.

Glória Sampaio e Bianca Mendes arregaçaram as mangas e puseram mãos à obra: lançaram o desafio aos jovens rossienses e criaram oficialmente a AJR – Associação Juvenil Rossiense. Foto: mediotejo.net

A ideia foi ribombando na sua cabeça, e Glória não parava de pensar que não só podia como devia tentar fazer alguma coisa. Não ia passar a batata quente a outros, nem ia sugerir a ideia ou deixar para depois. Foi então que se lembrou da sua amiga, Bianca, que praticamente não teve alternativa e logo alinhou no plano, após perceber as verdadeiras intenções da parceira de aventuras.

“Enviou-me cerca de 50 áudios pelo WhatsApp, de 3 minutos cada, e eu só lhe respondi que ia ouvir e que já lhe ligava de volta”, conta Bianca, divertida, referindo que depois do telefonema devolvido a conversa culminou com um “Sim, ’tou nessa! Vamos a isto!”.

O objetivo, garantem, é “agarrar os jovens” à terra. “Eu vou para a universidade este ano… e é um exemplo… a Glória perguntou se eu voltaria cá aos fins-de-semana. E eu respondi que não sabia como iria ser, mas que voltaria cá pela família e pelos meus animais de estimação, porque de resto não vejo razão para vir cá com frequência. Porque não temos nada aqui que nos prenda”, lamenta Bianca Mendes.

“A maioria dos jovens pensa assim. Querem sair daqui, vão para Lisboa, vão para outras cidades estudar e arranjar trabalho, porque aqui não encontram as oportunidades que procuram. Os jovens estão dispersos, vai cada um para seu lado… não se juntam”, refere Glória Sampaio.

Foto: mediotejo.net

Nenhuma das duas integrou até agora movimento associativo no Rossio, embora Glória também pertença à associação de Vale de Zebrinho, e foi daí que se deu o clique.

Vendo aquela pequena aldeia com capacidade e dinâmica, e com jovens envolvidos, pensou sobre o porquê de no Rossio, numa zona mais central e perto da cidade, com tanta gente e juventude, porque não haveriam de criar algo que ajudasse a transformar a vivência em comunidade e a dar novo ânimo a esta terra plantada à beira-rio?

“Começámos a conversar com outros jovens daqui, caso dos irmãos da Bianca. Logo no dia seguinte a termos falado da ideia, começámos a fazer uma lista para ir contactando o máximo de jovens do Rossio. Fomos lembrando de amigos dos amigos, de pessoas com quem estudámos, e pessoas que pertenciam aos grupos dos nossos familiares. A ideia era angariar o máximo de jovens rossienses”, explica Bianca.

Desde a criação da associação, com os oito membros que integram a direção, e até aos dias de hoje, são já mais de 70 os jovens que integraram o projeto. E a campanha entretanto já foi facilitada pelo facto de outros jovens ao terem conhecimento entrarem em contacto com a AJR para fazer parte, voluntariando-se. “São todos bem-vindos”, assegura Glória.

Os órgãos sociais contam com o núcleo duro de doze fundadores. A presidente da direção é Glória Sampaio, acompanhada da vice-presidente Bianca Mendes, que conseguiu o apoio da irmã Rita Mendes enquanto tesoureira, uma ajuda preciosa por lidar com as questões administrativas e burocráticas, afiançam as duas jovens.

Foram definidos diversos departamentos dentro da associação, para onde foram destacados os membros que demonstraram interesse em apoiar ou que dominam mais determinada área: desde o departamento de ação social, departamento de design, departamento de cultura e eventos, área dedicada aos patrocínios e um departamento/grupo de apoio ao estudo para auxiliar os jovens nos estudos, preparação para avaliações e exames e outros.

Os jovens colocaram em marcha os vários canais de comunicação para chegar ao máximo de pessoas e divulgar o seu plano de atividades. São privilegiadas as redes sociais Facebook e Instagram, mas também o email

Na Assembleia Geral contam com o presidente João Morgado e Mariana Oliveira na vice-presidência, e no Conselho Fiscal assumem João Mira e João Tavares a presidência e vice-presidência, acompanhados dos secretários Jéssica Mendes, Núria Lopes, Margarida Alexandra, Inês Carvalho e Diogo Mendes.

Assumindo que os primeiros tempos foram desafiantes, destacam especialmente o primeiro mês em que tiveram de lidar com Finanças e Cartório para a constituição da coletividade. “Tem sido um desafio gigante. Existe uma burocracia tão grande que não tínhamos noção”, confidenciam.

Em termos de plano de atividades futuro, vai ser pensado e ponderado “passo a passo”, mas têm como certo o “retomar de algumas tradições que se perderam” com o tempo, caso da Festa das Tasquinhas, que eram conhecidas como as festas do Rossio e que representavam toda a comunidade e todas as coletividades e empresas locais, reunidos em torno do coreto, sendo umas festas que recordam com carinho por as terem vivido quando eram mais pequenos.

“Queremos promover umas festas que representem toda a comunidade rossiense, dos mais novos aos mais velhos”, assegura Bianca.

A rampa de lançamento já tem os primeiros eventos na calha: a primeira iniciativa está lançada, na área da ação social, com recolha de material escolar, roupa e calçado para apoiar crianças necessitadas e famílias carenciadas que estejam sinalizadas. A iniciativa solidária durará até 30 de setembro.

E no fim do mês, a 28 de setembro, decorre o primeiro evento produzido pela associação, um sunset para marcar o fim do verão, no ringue polidesportivo, que incluirá animação infantil, um torneio de penáltis e um torneio de beerpong, animação musical e serviço de bar.

As ambições dos jovens rossienses passam por incentivar “um maior dinamismo e mais iniciativas que juntem a população e revitalizem o dia-a-dia na terra”, mas também fomentar o espírito de iniciativa, de cidadania ativa e a participação coletiva.

A ideia é “formar uma comunidade associativa” juntando em parceria as associações já existentes como a União Desportiva Rossiense e o Clube Desportivo Os Patos.

Algumas das coisas que reivindicam passam por “modalidades desportivas para todos os gostos”, e “abrir as portas da Biblioteca, que está sempre fechada e que convinha abrir mais vezes e atrair a população para iniciativas, especialmente os mais novos e os mais velhos durante o verão”.

Também o parque de campismo, o Parque Tejo, tem “boas instalações e funciona bastante bem”, mas parece estar “apagado” e com pouca divulgação, dizem, e talvez seja por isso que não é “devidamente reconhecido”.

Por outro lado, reconhecem a falta de serviços essenciais, caso dos balcões de agências bancárias e as caixas multibanco, que nos últimos anos têm deixado a população apreensiva e desgostosa com notícias de encerramento das dependências bancárias que optam por ter balcões apenas no centro da cidade de Abrantes.

Uma das propostas desta associação passa pela “criação de um Espaço Jovem, para reunir os mais jovens, e onde se promovam iniciativas, reuniões do associativismo local, workshops e sessões de esclarecimento, etc”, além de crerem na necessidade de políticas que estimulem a fixação de população e de jovens casais, para batalhar contra um Rossio “desertificado e envelhecido”.

Falam na existência de “muitos problemas na (re)construção de habitação, e que a oferta existente não é a melhor, além de que há muitos entraves a nível legal por ser zona ribeirinha”, e que tudo isso afasta os interessados em construir ou reconstruir na terra.

A intenção é que, tendo uma ligação à associação local e iniciativas programadas ao longo do ano, haja mais um motivo para os jovens regressarem com frequência e não perderem a ligação ao Rossio, trazendo até amigos e conhecidos de fora para viverem experiências diferentes.

Sendo novidade, as responsáveis pela direção assumem que a associação ainda é olhada com dúvida, mas o grupo de jovens pede “um voto de confiança na associação”, que os seus conterrâneos “tenham fé e apostem neste grupo”, pois precisam do “apoio de todos” para conseguir levar o plano de atividades a bom porto e trazer uma nova energia e dinâmica ao Rossio ao Sul do Tejo que lamentam “estar sem vida”.

Foto: mediotejo.net

Já têm ouvido muitos nãos, mas não é razão para desmotivar e demonstram garra para lutar e mostrar enquanto “filhos da terra” quais as metas que querem atingir. “Queremos ser ouvidos. Mostrar que os jovens do Rossio têm voz”, afirmam as responsáveis.

As portas estão abertas a todos os jovens que queiram associar-se e ser voluntários na iniciativa. Para já têm uma sede temporária, numa antiga garagem, e qualquer contacto pode ser feito diretamente com um dos membros da direção ou associado, e através dos contactos e canais de comunicação nas redes sociais, por exemplo na página de Facebook ou pelo email associacaojuvenilrossiense@gmail.com .

Agora encontram-se a recolher patrocínios e a fazer acordos com potenciais patrocinadores e parceiros para levar a cabo iniciativas futuras, sejam causas solidárias, criação de eventos e dinamização de workshops, excursões, entre outras ideias que fervilham nas reuniões deste grupo de jovens unido por um objetivo comum: renovar a energia da sua terra, acordar os seus conterrâneos e pôr o Rossio ao Sul do Tejo a dar que falar na região pelos melhores motivos.

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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