foto D.R.

2016 é o ano do regresso dos feriados, em particular do que se celebra esta quinta-feira, 26 de maio: o Corpo de Deus. Sendo uma das celebrações mais abstratas da Igreja, muitos se surpreendem ao constatar que a data torna a ser marcada como feriado nacional. O Corpo de Deus não tem muita tradição no Médio Tejo, mas há procissões e festas populares associadas, além dos rituais de Primeira Comunhão. Fará ainda sentido fazer do dia um feriado? O mediotejo.net foi tentar perceber a importância da celebração.

As celebrações do “Corpus Christi” remontam aos tempos de el-rei D. Dinis e a um conjunto de histórias da época associadas a hóstias milagrosas que sangravam. Durante muito tempo, as celebrações eram dias de faustosa festa popular, que misturavam o sagrado e profano, com especial tradição no Norte do País. O Corpo de Deus é celebrado no 60º dia após a Páscoa, na quinta-feira que segue ao domingo da Santíssima Trindade. Neste dia, os católicos têm por obrigação ir à missa, havendo por norma procissões e a celebração da Primeira Comunhão.

O antropólogo especialista em religiosidade popular Aurélio Lopes começa por fazer uma breve análise do crescimento do culto. “É uma razão da Igreja”, constata logo à partida. O Corpo de Deus nasceu no século XIII, enquanto “combate ao culto dos Santos”. Apesar da sua aparente aceitação a nível da religião católica, os Santos são uma derivação cristã da idolatria a certas entidades sobrenaturais nos cultos pagãos. Nesta fase da história da Igreja, procurou-se criar um conjunto de cultos não corporizados, de “aspectos místicos”, como o Espírito Santo e o Corpo de Deus, que afastassem a população desse tipo de devoções mais terrenas.

Ao longo dos séculos estas celebrações adquiriram contornos de grandes festas, muitas com encenações de histórias religiosas, ganhando importância cultural em vários pontos do país. A partir do século XV foram momentos que reuniam as elites e instituições governativas e eclesiásticas do reino, além de grande adesão dos fiéis, até que o constitucionalismo e a República lhes retiraram, lentamente, a importância.

Atualmente, constata Aurélio Lopes, a Igreja tem feito um esforço para recuperar os cultos místicos não corporizados, razão pela qual entendeu reanimar este feriado com a restituição dos feriados abolidos. Há reativação de festas e Igrejas, da qual o culto do Santíssimo Milagre de Santarém, cuja história é também do século XIII, é um exemplo.

Mas porquê cultos místicos abstratos se as pessoas estabelecem uma relação tão mais próxima e mais reconhecível com os Santos? Aurélio Lopes sublinha que o problema é exatamente esse. Estudioso dos fenómenos de religiosidade popular de toda a região, o antropólogo salienta que as pessoas pedem a estas entidades “as coisas mais egoístas possíveis, até para prejudicar” outros. Embora o Santo deva ser tido como um intermediário com Deus, acaba muitas vezes por ser assumido como uma personagem com poderes sobrenaturais.

O culto dos Santos acaba por ser muito “exterior à Igreja”, sintetiza. Há um “excesso”, destaca, um “mercantilismo da relação com os Santos que se quer combater”. As pessoas “através dos Santos estão sempre a fazer atalhos na relação com Deus”. A Igreja procura outro tipo de relação, em que a própria seja a intermediária.

Ao contrário da Festa do Divino Espírito Santo, que possui bastantes celebrações no Médio Tejo (Tomar, Torres Novas, Alcanena), o Corpo de Deus não possui festividades de maior significância. O Santuário de Fátima assinala a data, tanto na quinta-feira, com missa no recinto e procissão, como no Domingo. A solenidade litúrgica do Sagrado Corpo e Sangue de Cristo “começou a ser celebrada há mais de sete séculos, em 1246, tendo sido alargada à Igreja latina pelo Papa Urbano IV através da bula ‘Transiturus’, em 1264, dotando-a de missa e ofício próprio “, refere a respeito da data a instituição.

Segundo a Lusa, citando o Patriarcado de Lisboa, “no início, esta festa não teve muita repercussão no interior da Igreja, mas, aos poucos, foi tomando força e hoje é celebrada com grande solenidade em todo o mundo” católico. “O Sacramento da Eucaristia é levado às ruas como um gesto e expressão de fé e, ao mesmo tempo, como convite à renovação da própria fé”, refere a mesma fonte. É a “mais antiga e participada de todas as procissões”.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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