Um dia escreverei sobre Agustina. Ou tentarei pelo menos. Que isto de escrever sobre a chuva sem que se lhe conheça a nuvem, ou sobre o jasmim sem que se lhe sinta o cheiro, é assim como falar de Zeus em dia de sol radioso.

Este não é o tempo. Requer um voo de águia, que não apenas um esvoaçar de pardal de telhado. Se aqui a trago à baila, ela que me perdoe, mais não é porque, quando por estes dias compunha a árvore de natal de autores torrejanos, tropecei num livro, “O Homem e a Ilha”, por ela prefaciado, sobre o qual o Vítor Antunes, professor aqui no burgo e passageiro frequente aqui do espaço, havia escrito brilhantemente sobre ele (o livro) e o seu autor, o Jesuíta Mário Martins (1).

Nascido na Zibreira em 1908, Mário Martins foi um homem de cultura superior, cimentada na Companhia de Jesus, saído das faldas da serra para os in-fólios da cultura medieval, viajando de Herodes para Pilatos, meditando e filosofando sempre, mergulhando “… na observação comovida das pequenas condições do corpo e da alma…”, tarefa rara num escritor português.

E Agustina? Que afinidades entre uma escritora maior das nossas letras e um pensador das profundezas do nosso espírito? Já nos anos setenta, o Jesuíta havia feito a recensão a um ou outro livro da autora (2), fosse porque “… um santo nas mãos de um romancista, corre o risco de se tornar outro…”, fosse porque, como sempre acontece entre o dito e o escrito, “… ali se percebe que os sermões escritos de Sto. António não equivalem bem aos pregados. O pregador tinha que explicar tudo melhor, introduzir cambiantes, amaciar as arestas…”.

Como diz Martins, mesmo quando discordamos de Agustina, ganhamos sempre em lê-la, pelo seu gosto em filosofar à margem. Dos homens e das coisas. Com erudição. Porque se ela diz que o Sto. António era um “asceta com saudade de morrer” e que, apesar de tudo “amava a vida”, convida o leitor a completar a frase.

Esta superior recensão de Mário Martins ao livro de Agustina, leva-nos ao sublime prefácio com que a mesma Agustina, nos brinda em “O Homem e a Ilha”.

Será que um prefácio pode valer um livro? Mas há livros que, sem ele, não seriam a mesma coisa. E Mário Martins soube disso, como o terá sabido Agustina ao escrevê-lo. Deliciosos os dois. O livro e o prefácio. Que só poderiam ter sido escritos por alguém com a tal densidade de quem já cheirou o jasmim, peneirou as almas, inquietou os espíritos.

Tropeçar, assim, naquele livro, fez oferecer-me uma prenda antecipada. Sorrateiramente, antes que o descobrissem, deliciei-me com “O amolador”, “Garotos e cães” ou “A hora de Deus e do Diabo”. E agora, debaixo do braço, cá vai comigo, meio escondido, com a sombra de Agustina e os contos de um jesuíta, nascido aqui na Zibreira a dois passos de onde vos escrevo.

Notas:
(1) Antunes, Vítor. “O Homem e a Ilha”, O Almonda. 3 Janeiro 2014;
(2) Martins, Mário. (Recensão crítica a “Santo António”, de Agustina Bessa-Luís). Colóquio Letras, nº. 19, Maio 1974, pág. 88.

Adelino Pires nasceu em Portalegre, em 1956, num dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou, e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Alfarrabista no centro histórico de Torres Novas, gosta do que faz e faz o que gosta. Mais monge que missionário, cronista nalguns jornais, publicou um livro em 2015 (“Crónicas Com Preguiça”). É nos seus escritos vadios que, no dia a dia, vai olhando o que sente.

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