Num destes dias, nas aulas em Torres Novas, depois de ter incentivado alguns alunos a estudar anatomia comparada para melhorar os seus desenhos, começamos a falar em como, depois de ter aprendido as proporções e pormenores da anatomia, o artista poderia começar a sua própria pesquisa de simplificação ou interpretação do corpo humano para definir o seu próprio estilo. Por exemplo Michelangelo, mantendo as proporções, ampliou e evidenciou os músculos das suas personagens até que é impossível um homem ou mulher ter aquelas medidas, mas estão harmónicas e expressivas; Rubens pintou mulheres gordas e com celulite, assim como Rembrant; as figuras de El Greco tinham pescoços e mãos extremamente longas e Modigliani é conhecido pelas suas mulheres com pescoço comprido. Até Stan Lee, falecido recentemente, criou uma sua anatomia de Super-herói que apaixonou e apaixona multidões.
Mas o artista Suiço, o escultor, que chegou ao ponto extremo da simplificação e personalização do corpo humano, foi Alberto Giacometti. Nascido em 1901 estudou em Paris, Genebra e Roma. Teve como professor o genial Antoine Bourdelle e conheceu os maiores artistas da época aderindo depois ao movimento surrealista com Breton que o admirava muito.
Aqui há uma viragem no seu trabalho, que fica evidente nos seus desenhos que reafirmam a linha como conceito de movimento e forma e isto depois vai ser desenvolvido na escultura.
As suas obras começam a ser sempre mais simples, quase evanescentes, o corpo humano é dissecado, resumido até ser uma imagem etérea, apesar de ser de bronze, que apaixonou tantos artistas e assim granjeou também muitos reconhecimentos e… clientes.
As suas figuras são compridas, altas, sem pormenores definidos mas existe uma simetria, uma “melodia” que encanta e que é única. Uma das suas esculturas, l´Homme qui marche, foi a mais cara vendida até hoje e quem estuda arte reconhece logo as suas obras.
O conceito que quero aqui transmitir é que na arte se pode fazer muito, podemos simplificar, acrescentar, separar, aglomerar, usar técnicas diversíssimas, mas a base é sempre o estudo da natureza. Pode ser ela a anatomia, prospectiva, como a teoria das cores ou a composição, um estudo sincero e profundo com uma aplicação diária.
Só assim podemos chegar a interpretar com o coração e criar a NOSSA arte.

