Água das Casas celebra o seu património imaterial com Rota das Bruxas e Lebresomes. Imagem: Mouralves Fotografia

O fim de tarde do dia 20 de junho ficou marcado, em Água das Casas, aldeia do norte do concelho de Abrantes, pela 3.ª edição da “Rota das Bruxas e Lebresomes”, evento que contou com a participação de cerca de uma centena de pessoas, entre organizadores e participantes inscritos.

Tal como aconteceu nas duas edições anteriores, tratou-se de um evento dinamizado pelo CSCRD – Centro Social, Cultural e Desportivo de Água das Casas, numa parceria com a associação Mundo em Reboliço, também sediada na aldeia e liderada pela coreógrafa Filipa Francisco.

A Rota das Bruxas e Lebresomes passou por estradas, caminhos, carreiros e levadas de Água das Casas, num trajeto de aproximadamente 4km, e durante esse percurso foram desenvolvidas e recriadas, sempre numa perspetiva performativa, várias situações do quotidiano de um mundo rural em vias de se extinguir por completo, inclusivamente na memória dos habitantes locais.

A evocação das bruxas e dos “lebresomes”, designação local para lobisomens, funcionou apenas como ponto de partida para que fossem trazidas a público variadas características do dia-a-dia destas comunidades até há cerca de 40 ou 50 anos.

Recordando uma época sem as infraestruturas e os recursos do nosso tempo, evocaram-se os trabalhos rurais, a proximidade entre pessoas e animais, nas suas múltiplas funções, e a organicidade das relações comunitárias.

Ora, quando ainda não existia eletricidade e televisão, desenvolvia-se todo um imaginário em torno de forças sobrenaturais. Por outro lado, quando as condições de vida eram particularmente difíceis e as doenças muitas vezes fatais, procurava-se encontrar na natureza e em algumas figuras de referência soluções para os problemas individuais ou familiares.

Histórias e estórias, música, danças, dramatizações e outras manifestações artísticas deram forma à III Rota das Bruxas e Lebresomes.

Findo o périplo cultural, com duração de duas horas, ao mesmo tempo que se confraternizou em torno da mesa e se brindou às memórias que dão corpo a esta comunidade, recordou-se que, há 70 ou 80 anos, não era de bruxas que as pessoas destes espaços tinham medo, mas sim da fome, da violência e das agruras de um quotidiano marcado por inúmeras dificuldades.

A concretização desta iniciativa dispôs do apoio do FINAbrantes, programa municipal de apoio a coletividades da Câmara Municipal de Abrantes.

Imagens: Mouralves Fotografia

José Martinho Gaspar nasceu em Água das Casas (Abrantes), na década de 60 do século XX, e vive em Abrantes. É Professor de História e Mestre em História Contemporânea. Desenvolve a sua ação entre aulas, atividades associativas (Palha de Abrantes e CEHLA/Zahara, mas também CSCRD de Água das Casas), leitura e escrita, tanto de História como de ficção, sendo autor de vários artigos e livros. Apaixonado por desporto, já não vai em futebóis, mas continua a dar as suas voltas de bicicleta. Afinal, diz, "viver é como andar de bicicleta: não se pode deixar de pedalar e quando surge um cruzamento escolhe-se o nosso caminho".

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