Para mim, chega mas não Chega. Nunca Chega. Não por estar de acordo com o que temos vivido nas últimas décadas mas porque, por mais farto que esteja de um sistema que claramente não tem funcionado, nunca uma opção pouco – ou nada – democrática entrará no meu radar de alternativas.
Tenho o defeito ou a virtude de ter estudado a fundo matérias como ciência política, teoria política, política internacional, diplomacia e política externa. Sei, por isso, talvez de forma mais clara do que gostaria, os efeitos nocivos de qualquer solução política nacionalista, assente num discurso racista e xenófobo, habitualmente veiculado através de três ou quatro frases-chavão repetidas até à exaustão.
Soa familiar, certo? Mesmo àqueles que votaram Chega no domingo, se se permitirem admiti-lo.
Vamos aos detalhes, até porque importa desmistificar de uma vez por todas o primeiro baluarte da defesa automática do Chega, tanto por parte de membros do partido, como dos seus votantes: “ah, mas o Chega é um partido legalmente constituído e que se apresenta a eleições como qualquer outro”. Certo, sem dúvida; exatamente como o NSDAP de Hitler ou o PSUV de Chávez e Maduro. Da extrema-direita à extrema-esquerda; teoricamente antagónicas, estruturalmente irmãs.
Infelizmente, o que não falta ao longo da nossa história política são exemplos de partidos que acederam ao poder através do voto e que, após a sua eleição, derivaram irremediavelmente para o totalitarismo e devastaram sociedades inteiras. Os traços comuns? O radicalismo do discurso, a criação de inimigos comuns, o apelo a sentimentos irracionais.
“Limpar Portugal”, diz-vos algo? Planos de confinamento específicos e segregados para comunidades ou grupos específicos de pessoas, lembra-vos alguma coisa? “Acabamos com a corrupção em seis meses” é a minha preferida, devo admitir.
Nós contra eles, sempre.
A técnica mais velha do mundo: semear o medo de forma irracional e completamente desproporcionada. Algo que, por razões óbvias, tem particular impacto em quem vive em situações mais fragilizadas
Renato Sousa Antunes
A técnica mais velha do mundo: semear o medo de forma irracional e completamente desproporcionada. Algo que, por razões óbvias, tem particular impacto em quem vive em situações mais fragilizadas e que, por isso, não se pode dar ao luxo de ser tão corajoso como quem vive em condições mais folgadas – sejam financeiras, materiais ou emocionais.
Não é, portanto, difícil perceber alguns dados referentes à votação de domingo. Portugal tem apenas 11 freguesias em que a maioria da população tem ensino superior, tendo sido nestas que o Chega obteve as votações mais baixas (algumas delas abaixo dos 10%).
Com menos formação, há menos rendimentos. Com menos rendimentos, há menos condições financeiras, materiais e emocionais. Com menos condições, há menos liberdade. Com menos liberdade, há menos coragem. Com menos coragem, há mais medo. E o medo procura culpados.
O medo procura bodes expiatórios para os nossos problemas e dificuldades.
Nessa busca incessante e desonesta por culpados, embarca-se mais facilmente em soluções simplistas que colocam no outro – seja lá quem for – o ónus da vida desgraçada que temos. A vida a que os sucessivos governos nos têm vetado. Esses sim, os verdadeiros responsáveis pela pobreza crónica em que os portugueses (sobre)vivem.
Quando chegamos a tal nível de frustração com aquilo em que a nossa vida se tornou, é indiferente quem é o responsável ou qual é o inimigo – tenha a pele de outra cor, siga um código cultural diferente ou, simplesmente, fale outra língua. Qualquer motivo serve, pois o que importa é definir um alvo a abater, alguém em quem descarregar as nossas frustrações. É exatamente desses sentimentos básicos que agremiações de pessoas mal intencionadas, como é o caso da maioria dos dirigentes do Chega, se alimentam.
Os dirigentes do Chega são cínicos, cruéis, sanguinários. Descaradamente interesseiros e egoístas. Sedentos de poder – o único impulso que realmente os move. No entanto, básicos. Tão básicos como eficazes. E justamente por isso, perigosos.
Renato Sousa Antunes
Cínicos, cruéis, sanguinários. Descaradamente interesseiros e egoístas. Sedentos de poder – o único impulso que realmente os move.
No entanto, básicos. Tal como a sua mensagem-chave. Daí ser tão fácil de passar, ecoar e amplificar. Daí ter angariado tantos seguidores tão rapidamente. Daí ter mais dificuldade em vingar nas freguesias em que há mais formação e conhecimento.
Tão básicos como eficazes. E justamente por isso, perigosos.
Tão básicos quanto os seus seguidores e eleitores. Afirmo-o e reafirmo-o com segurança mas sem o objetivo de ofender ninguém. No entanto, é preciso ser básico para decidir entregar o seu voto – ou seja, a responsabilidade da sua representação nas decisões de Estado – a alguém que era (praticamente) impossível conhecer. Cuja identidade efetivamente se desconheceu até 48h antes das eleições.
E atenção; isto não é nenhuma figura de estilo. É mesmo assim: 1 345 689 portugueses votaram numa lista de deputados que só foi divulgada dois dias antes das eleições – algo que, na minha opinião, além de imoral em toda a linha, não devia sequer ser legalmente permitido num Estado de direito.
O que é que aqueles deputados pensam? O que defendem? Como irão representar quem lhes confiou o seu voto? Uma incógnita absoluta.
Conceder o direito – e o dever – de me representar a alguém de quem só soube o nome dois dias antes do ato eleitoral é a negação absoluta da democracia representativa. É a prova factual de que há mais de 1 milhão de portugueses que se estão nas tintas para quem os representa.
Já nem vou entrar, por exemplo, na ilegalidade que as listas do Chega configuram face à lei da paridade. Nos círculos da emigração, apenas 25% dos candidatos são mulheres, quando a referida lei exige 40%.
Portanto, a culpa desta viragem vertiginosa para um precipício absolutamente desconhecido é de quem votou no Chega. Certo?
Errado. Nada mais errado.
A culpa é da pobreza crónica a que os sucessivos governos das últimas décadas nos têm vetado. A culpa é de nos terem desgovernado até chegarmos à cauda da Europa em matérias como salários[1], educação[2], produtividade[3], PIB per capita[4], corrupção[5], apenas para citar alguns exemplos.
A culpa é das falhas inaceitáveis e consecutivas de todos esses governos em matérias-chave como educação, saúde e segurança. Até porque os dados não nos dizem apenas que o Chega é mais fraco onde há mais formação – também nos mostram, por exemplo, que é mais forte nos concelhos onde a criminalidade é maior.
1 345 689 portugueses votaram numa lista de deputados que só foi divulgada dois dias antes das eleições – algo que, além de imoral em toda a linha, não devia sequer ser legalmente permitido num Estado de direito
Renato Sousa Antunes
Independentemente do vazio efetivo que as suas propostas tentam atabalhoadamente esconder, a verdade é que o Chega tem o mérito – para mim, o único – de verbalizar alguns dos problemas mais flagrantes que Portugal enfrenta.
Aquele quase milhão e meio de pessoas tem razão. Na minha opinião, só não encontrou ainda a forma certa de a expressar e fazer valer.
Por isso, reitero a abertura desta crónica: para mim, chega. Nunca Chega, mas chega de uma vez por todas.
São precisas soluções efetivas que criem riqueza e que nos tirem deste marasmo cinzento em que vivemos há anos enquanto país. São precisas, acima de tudo, pessoas boas e competentes. Por essa ordem.
São precisas ideias criativas e arejadas para revolucionar positivamente a política em Portugal. É preciso, na minha opinião, pensar o eleitor como se pensa um cliente; isto é, ter foco absoluto nas suas necessidades. Não no sentido mercantil, mas sim no de centrar a política naquilo que as pessoas verdadeiramente precisam para ter mais recursos e, com isso, serem mais felizes, mais realizadas e mais livres. Para poderem decidir em consciência e com todos os dados à sua disposição.
É preciso honestidade, bom senso e menos ego(s).
São precisas soluções de compromisso e cedências em prol de uma sociedade mais rica, mais próspera, mais equilibrada e mais justa.
É preciso tudo isso para que não seja preciso medo. Enquanto for preciso medo, haverá pulhas da pior espécie a tentar usurpar o poder – e a culpa não é das pessoas, é inteiramente da falta de soluções e de honestidade de quem nos tem (des)governado.
[1] https://observador.pt/2024/04/30/portugal-e-o-5-o-pais-da-ue-com-o-salario-medio-mais-baixo
[2] https://epale.ec.europa.eu/pt/resource-centre/content/education-glance-2024
[3] https://eco.sapo.pt/2023/08/04/ha-seis-anos-que-portugal-esta-a-afundar-no-ranking-da-produtividade-europeia
[4] https://www.gee.gov.pt/pt/indicadores-diarios/ultimos-indicadores/34283-pib-per-capita-eurostat-5
[5] https://pt.euronews.com/2025/02/11/percecao-da-corrupcao-esta-a-piorar-em-toda-a-ue-alerta-indice-da-transparencia-internacio

COMUNA TOMA RENNIE QUE ISSO PASSA
Deixem-se de tretas, inventam tudo e mais alguma coisa, aceitem a derrota, Portugal e a Europa estão a virar a direita, respeitem as decisões do povo.
Não vejo ninguém a falar do PS ou do PCP ou do BE a dizerem que são extrema esquerda e a criar artigos como este, sempre a criticar o Chega, quanto mais criticam mais votos ganha o Chega.
E verdade, eles ainda não perceberam, ACABOU O SOCIALISMO…..este jornalixo, comentecos ainda não perceberam nada,,,,continuem,,,,,que o CHEGA continua a crescer…mas que comenteco este pseudo doutor,,,,não percebem nada…o vosso tempo acabou…….socialismo e comunismo NUNCA MAIS……..