Adnan Mevic continua a viver em Visoko, zona onde as tropas portuguesas estiveram aquarteladas durante alguns anos, integradas nas forças da NATO que garantiam a estabilização da paz na Bósnia e Herzegovina. Foto: DR

Visoko é um nome familiar para milhares de militares portugueses que passaram pela Bósnia-Herzegovina entre o final dos anos 1990 e a primeira década de 2000. Já Adnan não será um nome conhecido de todos, mas ficou marcado de forma especial nas memórias do batalhão português que, de forma espontânea e voluntária, organizou a festa do seu baptizado, no ano 2000.

Adnan era um menino especial. Nascera no ano ano anterior em Sarajevo, no dia em que o secretário-geral das Nações Unidas visitava a cidade-mártir do conflito que fez mais de 200 mil mortos entre 1992 e 1995, na sequência do desmembramento da ex-Jugoslávia. Com a Humanidade a atingir o marco dos 6 mil milhões de habitantes, Kofi Annan escolheu simbolicamente o primeiro bebé que tivesse nascido naquele dia em Sarajevo. Era o filho de Jasmin e Fátima Mevic que, de repente, se viram rodeados pelos flashes de jornalistas internacionais.

Ainda sem nome definido, o bebé logo ali ficou Adnan, por ser semelhante ao apelido do diplomata nascido no Gana.

Kofi Annan, secretário-geral das Nações Unidas, com Adnan ao colo, no dia em que nasceu, em Sarajevo. Foto: DR

A declaração de Kofi Annan, com o “bebé 6 mil milhões” ao colo, foi noticiada em todo o mundo: “Nem esta terrível guerra, nem o cerco brutal de Sarajevo, nem mesmo a campanha de limpeza étnica conseguiram impedir este e muitos outros nascimentos na Bósnia e Herzegovina. Espero que celebrem o nascimento deste bebé como se celebrassem o renascimento da tolerância e da atmosfera multi-religiosa que outrora caracterizou Sarajevo e a Bósnia e Herzegovina. Este deve ser o nosso presente comum aos 6 mil milhões de pessoas que hoje habitam a Terra.”

A família Mevic não voltou a ter notícias da ONU, nem recebeu qualquer ajuda especial, ao contrário do que muitos dos seus conterrâneos pensaram. No dia seguinte, o casal voltou à sua modesta casa em Visoko, que o pai de Adnan sustentava com alguns biscates e como projecionista do cinema local.

A vida naqueles anos de pós-guerra era suavizada com a afabilidade dos militares portugueses que ali estavam aquartelados, durante as missões da NATO. Ao longo dos anos, ficaram para a história pequenos gestos que fizeram muita diferença. Por exemplo, logo após a chegada das tropas portuguesas à pequena cidade, muitos bósnios pensavam que “bom dia” em português se dizia “pudim”, porque ouviam as crianças dizerem sempre “pudim” para os militares que encontravam. Afinal, o que queriam mesmo era perguntar se havia mais pudim… porque todos os dias os mais de 300 homens de cada batalhão prescindiam da sobremesa do jantar (um pudim flan), para que de manhã pudessem ser oferecidos na porta de armas às crianças que passavam a caminho da escola.

Os militares portugueses ajudaram também a reconstruir a escola de Visoko, e parte da verba necessária para comprar materiais de construção foi angariada em Constância – um concelho que criou especiais ligações à Bósnia, uma vez que era no Campo Militar de Santa Margarida que se preparavam os batalhões que partiam em missão para aquele país.

António Mendes com Adnan Mevic ao colo, no dia do baptizado, em Visoko. Foto: DR

António Mendes, que era então presidente da Câmara Municipal, foi convidado para estar presente numa cerimónia simbólica, a assinalar a reconstrução da primeira sala de aula da escola de Visoko. Mas a “pequena” celebração depressa se transformou numa festa gigante, quando os pais de Adnan perguntaram se o seu filho podia ter como padrinho o autarca português, mostrando o apreço pela ajuda de Portugal a Visoko.

Segundo a tradição da família, o baptizado tem de realizar-se no 1º aniversário da criança – e era logo no dia seguinte. Nada que demovesse os 332 militares do 2° BIMEC, que depressa abraçaram a missão de organizar uma festa “em condições”.

“Nós já tinhamos decidido que seria um português o padrinho do nosso filho. Quando soubemos que o presidente de Constância vinha de visita à Bósnia, não hesitámos. Telefonei imediatamente ao comandante Serronha a dar-lhe conta da nossa vontade. Estamos muito orgulhosos por ele ter aceite o nosso convite e ficar a pertencer agora à nossa família”, disse na altura o pai aos jornalistas presentes.

GALERIA

Assim que aterrou em Sarajevo, António Mendes foi levado para a cerimónia de baptizado, onde todos o aguardavam. E logo viu alguém aproximar-se de tesoura em riste… “Fiquei um pouco assustado quando percebi que me queriam cortar o cabelo… é que já não tinha muito”, ironiza. Mas depressa lhe explicaram que era tradição cortar um pedaço de cabelo do padrinho e da criança.

A festa prosseguiu, em grande animação, envolvendo todo o quartel e a população. O comandante Serronha, do 2º BIMEC, fez o brinde final: “Sendo o bebé 6 mil milhões, representa também o nosso futuro. Que seja um futuro de paz.”

ENTREVISTA

“Os meus pais falaram-me sempre do padrinho António”

Adnan tem hoje 23 anos e vive com a mãe, Fátima. O pai morreu quando ele era ainda criança. Foto: DR

Conhece a história do seu baptismo, quando tinha 1 ano de idade? Os seus pais falaram-lhe do seu padrinho português, António Mendes?
Sim, os meus pais falaram-me sempre do padrinho António, que era autarca de uma cidade de Portugal e que veio em visita oficial ao batalhão português na Bósnia-Herzegovina e me apadrinhou nessa ocasião. Infelizmente não tive mais notícias dele. Pensamos no Sr. António muitas vezes, mas não tínhamos forma de falar com ele. Eu gostaria de fazê-lo… Diga-lhe que ele não foi esquecido, simplesmente não encontrei forma de comunicar com ele. Pode dizer-me o que aconteceu com o sr. António, como é que ele está?
(Comentamos que já se reformou, que a saúde não tem sido sempre a melhor, mas que está bem e vive em Constância.)
Por favor, cumprimente-o muito e deseje-lhe uma rápida recuperação, de mim e de minha mãe. Vamos rezar pela sua saúde.

Como lida hoje com a circunstância de ter sido considerado o bebé de 6 mil milhões pela ONU? Como é que isso isso afetou sua vida?
A ONU não desempenhou um grande papel na minha vida porque não fizeram nada por mim. Nunca tivemos qualquer ajuda. Eu nem sequer tenho um certificado de que sou o habitante 6 mil milhões do planeta. Cresci com alguma atenção diferente, sobretudo da comunicação social, e tive a oportunidade de conhecer algumas pessoas famosas e de fazer viagens… A câmara de Sarajevo pagou os meus estudos até aos 18 anos, o que foi bom. Sobretudo porque o meu pai morreu quando eu era ainda pequeno e foi a minha mãe, Fátima, que teve de criar a família sozinha.

Continuou a estudar depois dos 18 anos?
Sim, o governo estendeu o apoio além dos 18 anos, comprometeu-se a financiar os meus estudos universitários também. Terminei este ano um Mestrado em Economia e estou à procura de trabalho, mas não é fácil… gostaria de começar o meu próprio negócio, mas talvez tenha de emigrar para algum país da União Europeia.

Eu sei que tentou promover uma iniciativa com o habitante 5 mil milhões, da Croácia, mas não correu bem… Acha que poderia ter sido uma voz pela paz e que a ONU lhe deveria lhe dado mais apoio nessa missão?
Sim, tentei criar um projeto com o Mateo, da Croácia, mas sem sucesso, porque ele não quer aparecer em público, quer manter o anonimato. Penso que sim, poderia ter desempenhado um papel pela paz nos Balcãs, e que deveria ter recebido mais apoio, tanto da ONU como de Portugal.

Ainda mora em Visoko, onde as tropas portuguesas estiveram aquarteladas quando nasceu. Que diferenças existem entre a Visoko (e a Bósnia) de então e a de hoje, 20 anos depois?
A vida em Visoko não mudou muito desde o dia em que nasci. É uma cidade linda, com uma história rica e muito agradável para se viver, é habitada por pessoas maravilhosas, cultas e educadas, é incrível. Eu já visitei muitos lugares, mas como Visoko raramente encontrei.

A população diminuiu bastante e a taxa de natalidade caiu para metade. Como símbolo de uma nova geração no seu país, como vê estes números?
Tenho pena. Há menos nascimentos e muita emigração. Costumo dizer que não vai sobrar ninguém para pagar as reformas dos velhos.

Adnan (e a sua mãe) com Cristiano Ronaldo, no estádio do Real Madrid. Foto: DR

Um dos seus desejos de criança foi realizado: conhecer o Cristiano Ronaldo. Como é que isso aconteceu?
Um dia, quando tinha 10 anos, referi isso numa entrevista a um jornal inglês… era um grande sonho, mesmo. E o Real Madrid viu a entrevista e convidou-me para ir assistir a um jogo e conhecer o Ronaldo. Ele foi muito simpático comigo, mostrou-me a sua bota de ouro e tudo… e estivemos bastante tempo a conversar.

E hoje, quais são seus sonhos e esperanças para o futuro?
Graças a Deus tenho realizado a maioria deles. Tenho apenas um desejo, que é ter saúde.

* As tropas portuguesas retiraram-se da Bósnia em 2002 e, algum tempo depois, António Mendes ainda tentou, mas perdeu forma de contactar a família Mevic. Depois de localizarmos Adnan Mevic, mostrámos a António Mendes uma mensagem em vídeo do seu afilhado. O autarca também gravou uma mensagem para Adnan, que depois lhe fizemos chegar. Ambos ficaram felizes pelo “reencontro”, mesmo que à distância, e trocaram contactos.

NOTÍCIA RELACIONADA

Sou diretora do jornal mediotejo.net, diretora editorial da Médio Tejo Edições e da chancela de livros Perspectiva. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

Deixe um comentário

Leave a Reply