Central nuclear de Almaraz gera preocupação dos dois lados da fronteira. Foto: DR

Na Central Nuclear de Almaraz situada junto à fronteira entre Portugal e o Estado Espanhol, a uns escassos 200 quilómetros do Médio Tejo, adensa-se o perigo. Uma central que já devia ter fechado – ultrapassou em muito o seu tempo de vida e cujos reatores acusam problemas com demasiada frequência é agora local para a construção de um aterro nuclear. A decisão é do governo espanhol e foi tomada unilateralmente, sem informação ao governo português e sem a realização dos estudos ambientais obrigatórios previstos na legislação europeia.

Esta Central é considerada pelas organizações ambientalistas como muito perigosa e mesmo um caso extremo, não cumprindo normas básicas como, por exemplo, não ter válvulas de segurança e sistemas de ventilação filtrada para prevenir uma explosão de hidrogénio como a que ocorreu em Fukushima; não tem dispositivo eficaz para contenção da radioatividade em caso de acidente grave; não tem avaliação de riscos naturais; não está sequer prevista a implantação de um escape alternativo para calor. Em 2016 cinco inspetores do Conselho de Segurança Nuclear do Estado Espanhol decidiram quebrar o silêncio e denunciaram várias situações detetadas depois de uma vistoria à central nuclear, motivada por repetidas avarias.

Nada disto é novo e o encerramento da Central de Almaraz há muito que é exigido. Saltou com maior relevo para a agenda política, pelas informações vindas a público que já não deixam espaço para dúvidas. A Assembleia da República pronunciou-se pelo seu encerramento em 29 de Abril de 2016 e em 11 de Junho realizou-se uma manifestação Ibérica em Cáceres, à qual aderiram muitas organizações ambientalistas, partidos políticos e cidadãos e cidadãs dos dois lados da fronteira.

Perante esta perigosa decisão de construir um aterro nuclear, o que evidencia a continuação do funcionamento da central por muitos mais anos, o Ministro do Ambiente reagiu. Reagiu bem, mas reagiu perante um facto consumado. Exige-se neste momento posições firmes do Estado português, recorrendo a tudo o que possa recorrer. Mas há que resgatar o tempo perdido e isso só será possível criando um movimento social que pressione pelo encerramento da central, demonstrando os perigos reais e cuja ameaça perdurará por milhares de anos. Aqui, mesmo à nossa beira, nas margens rio Tejo.

E nós aqui, no Médio Tejo, ficamos parados? Esta situação merece uma tomada de posição dos autarcas nos Municípios e da própria Comunidade Intermunicipal, em defesa da segurança das populações.

Se há matéria onde nada precisa de ser provado, infelizmente, são os perigos do nuclear, mais do que documentados pelas trágicas experiências que a humanidade já vivenciou. Agir ou esperar para ver não pode ser uma questão. Já vimos o que tínhamos a ver. Prevenção só pode significar encerramento.

Helena Pinto

Helena Pinto, vive na Meia Via, concelho de Torres Novas. Nasceu em 1959 e é Animadora Social. Foi deputada à Assembleia da República, pelo Bloco de Esquerda, de 2005 a 2015. Foi vereadora na Câmara de Torres Novas entre 2013 e 2021. Integrou a Comissão Independente para a Descentralização (2018-2019) criada pela Lei 58/2018 e nomeada pelo Presidente da Assembleia da República. Fundadora e Presidente da Mesa da Assembleia Geral da associação Feministas em Movimento.
Escreve no mediotejo.net às quartas-feiras.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.