Paulo César Luís ocupa agora o lugar de presidente da Câmara de Vila de Rei, substituindo Ricardo Aires durante pelo menos 40 dias. Foto: mediotejo.net

Nasceu em Vila de Rei a 27 de julho de 1981, fez o seu percurso escolar na sua terra e na Sertã – concelho para o qual foi estudar por “haver transporte todos os dias” – e concluiu o percurso académico em Lisboa. Logo depois regressou a Vila de Rei, local que escolheu para continuar a viver porque, diz, é ali que se “sente bem”. Licenciado em Gestão e Administração Pública, na vertente de Planeamento e Controlo da Gestão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, Paulo César Laranjeira Luís entrou na vida política aos 18 anos, na Juventude Social Democrata, tendo sido vice-presidente dessa estrutura na distrital de Castelo Branco. Na sequência das eleições autárquica de 2005 assumiu o cargo de vereador pela primeira vez. Tinha 24 anos. Agora, 19 anos depois, senta-se na cadeira da presidência do Executivo de Vila de Rei, substituindo o homem de quem foi “vice” nos últimos 10 anos, e lidera a Concelhia do PSD… ainda que por pouco tempo.

Sempre viveu em Vila de Rei? Foi estudar para fora, regressou. O que o prende à interioridade?
A minha essência. Sou de Vila de Rei, sinto-me bem aqui, estou realizado em Vila de Rei. Às vezes para percebermos o que queremos, temos de perceber o que não queremos e eu não queria viver em Lisboa. Sentia-me acorrentado e preso na vida de Lisboa. Ter vindo para Vila de Rei foi uma decisão que tomei num dia. De facto tive a possibilidade de fazer um estágio remunerado na Câmara Municipal de Lisboa, que podia mudar a minha vida. Decidi que não queria e não concorri, preferi, por opção sem qualquer perspetiva de nada, propor e fazer um estágio curricular, gratuito, na Câmara Municipal de Vila de Rei, para estudar a evolução da dívida da Câmara e com esse estudo fazer um relatório de estágio, defender o mesmo e acabar a licenciatura, no Seminário de Investigação. E fiquei na Câmara até hoje.

Portanto, ao terminar o percurso académico, o percurso profissional levou-o até à Câmara…
Não foi por acaso. Tenho uma premissa para a vida: quero estar onde me sinto bem. A minha vida evoluiu a partir de uma decisão, que mudou tudo. Nada foi planeado. Queria seguir gestão de empresas e concorri para o ISCTE, para um curso de Gestão e Organização Empresarial, mas o exame de matemática correu mal, numa disciplina onde era bom e tinha uma boa média. Coloquei como segunda opção Gestão e Administração Pública no ISCSP para ter a certeza que entrava. Na realidade só queria a primeira opção mas não entrei porque não tive nota mínima a matemática. Na segunda fase de exames consegui a nota mínima a matemática, mas identifiquei-me com o espírito que a minha escola tinha, com o Palácio Burnay, com as gentes, uma escola onde me sentia em casa. Uma escola velha, ocupada – um instituto público que tinha meia dúzia de funcionários ocupava metade do edifício, éramos 3 mil alunos e tínhamos de dividir o resto do Palácio. No Palácio funcionava ainda o Instituto de Investigação Científica Tropical, sentíamo-nos acorrentados. Sempre foi uma necessidade a escola ter novas instalações, como veio a ter e participei na transição, mas aquele sentimento de pertença à escola fez com que não mudasse de curso. Portanto, quero estar onde me sinto bem, onde me sinto bem acolhido, quero ficar junto dos meus. Nem queria estar numa escola de política mas acabou por ser a minha vida. Imediatamente a seguir comecei a colaborar com a Associação de Estudantes, ganha na altura por um caloiro que foi o Duarte Marques, de Mação. No ano seguinte entrei para a Associação de Estudantes e foi um continuar de vida ao serviço dos outros. Tenho alguma saudade do Palácio de Burnay porque transformava a escola numa comunidade, coisa se perdeu ao mudarmos de edifício, porque o Palácio era mítico.
Fiz o meu estágio na Câmara Municipal de Vila de Rei, e depois de acabar surgiu um concurso para assistente técnico. Tinha a licenciatura praticamente acabada, faltava-me uma cadeira, por isso concorri, ganhei, entrei e iniciei a minha vida laboral na Câmara, que se precipitou com as eleições autárquicas a seguir. Foi-me sugerido que integrasse a lista, em representação da JSD, num quarto lugar. Na altura a expectativa do quarto lugar ser eleito era diminuta. Mas procurámos fazer diferente, rejuvenesceu-se a lista… não sei se fez a diferença, quero acreditar que sim. Conseguimos eleger o quarto lugar; fui eleito. Entrei como vereador em 2005.

Ou seja, é funcionário da Câmara Municipal. Se interrompesse as suas funções de político…
…Assumiria a minha profissão como técnico superior de Gestão e Administração Pública do Município de Vila de Rei.

A ligação à política surgiu então na Juventude Social Democrata. Com que idade?
Tinha 19 anos. Estava numa escola de política, os meus amigos estavam na política e ainda hoje grande parte deles estão. Militavam na JSD, na Juventude Socialista, na Juventude Comunista, na Juventude Popular, no Bloco Esquerda.

Concluo que tem amigos de todos os quadrantes políticos?
Tenho. Alguns passaram pelo governo, quer do Partido Socialista quer do Partido Social Democrata. Porque as amizades são bem mais importantes do que as ideologias.

Consegue fazer essa distinção, entre a pessoa e a sua ideologia?
Claramente! Tenho um grande amigo, que na altura tinha uma ideologia ainda mais de esquerda, era do Partido Comunista, e eu uma ideologia mais de direita, e dávamo-nos muito bem – e continuamos a dar-nos muito bem, ainda ontem estivemos a falar… não privamos mais devido à distância. A ideologia é a nossa forma de conceber a organização de uma sociedade e posso ter a minha opinião e o vizinho ter uma opinião completamente diferente e sermos os melhores amigos, podemos socializar e podemos trabalhar juntos. Não tem de ser necessariamente com a ideologia de um ou com a ideologia do outro, para que a sociedade melhore. Fazer política é a arte de convencer o outro mas se não conseguirmos convencer o outro temos de ter a capacidade de trabalhar com ele. E é isso que levo para a vida.

É um social democrata convicto?
Sim. Sou um social democrata convicto, defendo que o Estado só deve intervir onde realmente é necessário. É necessário acudir a necessidades das populações. Muitas vezes aquilo que fazemos na Câmara é entendido como sendo um bocadinho de esquerda, e outras é entendido como um bocadinho de direita, mas é a capacidade de acudirmos ao interesse da população. O PSD é um bocadinho isso: umas vezes tem de ir mais para a esquerda outras vezes mais para a direita. Sendo que temos de observar quais as necessidades da população, qual a melhor solução para responder àquela necessidade e se for através da nossa intervenção que seja, Mas se também for para liberalizar e dar oportunidade às empresas e aos indivíduos de trabalharem por si, de cresceram por si sobre nossa “regulação” que seja também.

Ou seja, defende o estado social… embora no seu partido exista uma corrente defensora do liberalismo económico. Onde é que se posiciona?
Sou alguém do centro direita. Mas no PSD, seja a ala mais à direita seja a ala mais à esquerda todos pensamos que o Estado só deve regular o mercado, não deve impor, não deve nacionalizar, salvo raras exceções. Há matérias em que sou mais de esquerda e outras mais de direita. Por exemplo, acho que o Estado não tem de ter uma companhia de aviação. Mas pode e deve estabelecer um contrato de privatização da companhia aérea garantindo o pressuposto que interessa, nomeadamente um caderno de encargos que obrigue a empresa que ganhar a fazer ligações à diáspora, ligações aos países estratégicos onde estão os nossos emigrantes, um conjunto de condições. Sendo que essas condições, não sendo lucrativas do ponto de vista de quem adquire a empresa, têm um custo, é essa a análise que fazemos no âmbito do concurso.

No seu entender não devem existir empresas estratégicas no setor do Estado, designadamente na área da energia, a rede energética nacional, da água, da aviação?
Há um conjunto de matérias sobre as quais, desde que esteja em causa a soberania nacional que pode ser avaliado a intervenção do Estado e a intervenção do governo, nomeadamente a REN pode e deve ser avaliada, a água pode e deve ser avaliada. Mas não me choca ser um privado a abastecer o público de água. Aliás, uma parte do País é abastecido por sistemas privados de água. Vila de Rei não é. Porque não foi encontrada nenhuma solução que defenda melhor os interesses da população do que aquela que atualmente temos. Porque a partir do momento que uma empresa privada ficar com a responsabilidade de abastecer a população de água vai aumentar o preço e andamos aqui numa luta titânica para não aumentar o preço da água às pessoas. Mas o governo tem de nos ajudar a ajudar. Para Vila de Rei, e outros concelhos, poder continuar a ser entidade abastecedora de água à população tem de ter acesso aos mesmos financiamentos que as empresas têm. E os sistemas agregados têm possibilidade de se candidatarem a fundos comunitários. Só podemos modernizar os nossos depósitos, emissários, condutas gerais, as captações, sem refletir muito no custo à população, se tivermos capacidade de obter fundos comunitários, como os outros têm. Mas tem-nos sido negado e apesar disso temos resistido à tentação fácil de entregar a água a uma empresa privada, que tem a possibilidade de obter esses fundos. Não me choca que outros concelhos tenham entregue a gestão da água a empresas privadas, eles saberão qual é a melhor forma de defender o interesse das pessoas. Nós ainda não encontrámos uma alternativa à que temos hoje, que defenda os interesses das pessoas… mas muitas vezes sentimos que estamos a ser empurrados pelo governo, quer do PS quer do PSD. Lembro, no entanto, que nos últimos 23 anos o PSD esteve duas vezes no governo; o governo de Durão Barroso durou dois anos, ainda houve um governo de cinco meses que caiu devido a umas poucas demissões, comparando com as demissões no último governo é uma brincadeira, e o governo de Passos de Coelho com um programa emanado do governo anterior assinado com um conjunto de entidades que nos emprestaram dinheiro, portanto não considero aquilo um governo mas um tarefeiro. Por isso, atribuo a maioria da responsabilidade a quem lá esteve na maioria do tempo.

Paulo César Luís, na Câmara Municipal de Vila de Rei. Foto: mediotejo.net

Quando aceitou pela primeira vez integrar a lista candidata à Câmara, imaginou um dia ser presidente?
Não. Vivo muito o dia a dia. A situação que temos hoje acontece porque o presidente atual decidiu, com espírito de missão, dar o contributo dele para um Portugal melhor. Com espírito de tal maneira desprendido que aceitou integrar a lista em terceiro lugar. A possibilidade de Ricardo Aires ser eleito na lista da AD em Castelo Branco é diminuta. Tenho a certeza absoluta que a maioria dos presidentes de Câmara deste País não ia aceitar ir em terceiro lugar, com muito poucas hipóteses de ser eleito. Ricardo Aires dá o seu nome, o seu contributo, o seu esforço, a sua dedicação por uma causa que acredita. Vai naquela arte de procurar convencer que representa a melhor solução para o País, com esforço pessoal. A minha missão neste caso é representar a lista vencedora nas últimas autárquicas e assumir a função enquanto as funções do senhor presidente Ricardo Aires estiverem suspensas, que são 40 dias.

E se Ricardo Aires for eleito deputado?
Teremos de analisar de outra maneira. Estou cá para servir, fui o número dois da lista e assumir todas as responsabilidades de número dois da lista. Tal e qual como assumi ser vice-presidente, porque não tem de ser necessariamente o número dois. O vice-presidente assegura férias, faltas, licenças e impedimentos do presidente de Câmara, e neste caso estou a assumir uma suspensão de funções enquanto durar, e depois logo se vê. Se for eleito terá suspender funções ou abdicar do mandato e nesse caso terei de assumir, com todo o espírito que assumi todas as minhas funções até agora; com espírito de lealdade para quem nos elegeu e nos escolheu, com um cardápio para cumprir, que é o nosso programa eleitoral, com um quadradinho à frente ou atrás de cada ação, para que as pessoas possam lá colocar o visto de que está feito. E é esse o nosso mote; temos um programa para cumprir. Ricardo Aires se for eleito terá uma função muito digna, de procurar ajudar na melhoria do País, e quem cá ficar terá a missão de levar por diante o programa sufragado nas últimas eleições.

Tendo havido compromissos do PSD assumidos com o CDS e com o PPM, também para as eleições autárquicas, como é que será em 2025?
Na minha opinião, e já aconteceu no passado, não faz sentido irmos coligados com o CDS. Neste momento, em que sou presidente da concelhia do PSD, não faz sentido nenhum, até por uma razão histórica. Até há alguns anos a oposição neste concelho era o CDS. E normalmente nas coligações que se estendem para além das eleições legislativas e europeias, quando abrange a parte autárquica, é deixada à consideração das concelhias, realidades locais que não são perspectivadas por quem tomou a decisão. Há liberdade para fazermos ver que em Vila de Rei não faz sentido. E no passado, aquando da PAF, já havia essa abertura e fomos sozinhos, não fomos coligados. É esta a minha posição enquanto presidente do PSD de Vila de Rei… mas nas autárquicas provavelmente já não serei o presidente do PSD. Quem lá estiver terá de decidir.

Mas presentemente é o presidente da concelhia do PSD. Será o cabeça-de-lista do PSD às eleições autárquicas em 2025?
Não é uma decisão minha, é uma decisão do PSD. Não me coloco em bicos de pés para coisa nenhuma. Se o PSD de Vila de Rei quiser que seja cabeça-de-lista nas eleições autárquicas de 2025, vamos falar. Se o PSD não quiser que eu seja, tem todo o meu apoio para quem escolher, porque estou cá para servir. Estou autarca, não sou autarca, o meu mandato é do PSD e do povo. Tem de haver um convite por parte do PSD e, como já disse, não faço intenções de continuar presidente do PSD no próximo mandato.

E quando termina o atual mandato?
Em abril/maio de 2024. Tenho intenção de não me recandidatar. Até para dar completa liberdade a quem estiver no PSD a escolher o seu candidato sem ter de ser forçosamente o Paulo César porque é presidente da concelhia ou o Paulo César porque é vice-presidente, ou o Paulo César porque o Ricardo Aires foi eleito deputado. Não! O PSD tem toda a liberdade para escolher e não tem de estar amarrado à circunstância do seu presidente.

Está disponível?
Vou usar a expressão que o presidente Ricardo Aires usou: estou absolutamente disponível para aquilo que o meu partido precisar de mim, seja na Câmara, seja na Junta de Freguesia, seja onde for.

Que balanço faz da sua vida autárquica?
Não gosto nada de falar em causa própria, mas acho que tenho cumprido. A melhor forma de ver que tenho cumprido o mandato que me tem sido entregue pelas pessoas é que sucessivamente nos têm elegido com votações crescentes. Faço parte de uma equipa, sempre trabalhei em equipa, liderado por outros, é verdade, mas tenho liderado organizações partidária e até algumas associações, e acho que no final das contas tenho contribuído para melhorar a vida das pessoas. Muitas vezes achamos que por pertencermos a pequenas organizações ou por estarmos sozinhos que ninguém nos vai ouvir, e desde muito novo aprendi que não é bem assim. Podemos e devemos apresentar propostas, fazer ouvir a nossa voz. Às vezes uma proposta pequenina até pode fazer surgir efeitos extraordinários. Foi assim que surgiu o ginásio, o Parque da Vila e inúmeras coisas em Vila de Rei, porque alguém ousou pensar o concelho e apresentar uma proposta. Na altura, na JSD, apresentámos 12 propostas ao executivo, fizemos um caderno de reivindicações. Julgo que uma não foi concretizada porque não era possível, mas todas as outras até hoje foram implementadas, e com resultados bastante positivos. Aliás, os resultados do ginásio provam que fazia falta em Vila de Rei. O Parque da Ribeira da Vila e a utilização que tem prova-o, as bolsas de estudo provam, temos assistido a um aumento das bolsas de estudo para os nossos estudantes. Portanto, acho que tenho contribuído para a melhoria de vida das pessoas, se não fosse assim não estaria aqui a fazer nada.

Agora na qualidade de presidente, neste momento em regime de substituição de funções, vai acumular os pelouros do presidente com os de vice-presidente?
Sim. Na minha perspectiva são 40 dias e não vale a pena reformular aquilo que já está pensado e estruturado. Em boa hora pensámos na estruturação municipal em que dotámos a organização do município de chefias intermédias, nomeadamente com a criação de mais duas chefias de divisão. Ou seja, a Câmara está estruturada para os 40 dias que aí vêm. E como são só 40 dias, julgo não ser necessário fazer mais que isso.

Definitivamente, não acredita na eleição de Ricardo Aires…
Acredito e sou pragmático sobre a realidade que me circunda. Não faço conjecturas. Hoje, a realidade é 40 dias. Se Ricardo Aires for eleito, reestruturamos a partir daí. Sou mesmo assim; não vivo em função do dia de amanhã. Ainda há pouco tempo fiz um discurso por causa da situação do País. Portugal precisa de um governo, mas de um governo competente, que as pessoas se revejam. Não é naquele que cessou. Caiu por “indecente e má figura”, como bem disse Passos Coelho. Caiu de podre. Precisamos de um governo a sério, mas é hoje. E precisamos dos contributos de todos hoje, não é amanhã. E por isso vivo muito o hoje, não vivo com perspectivas do que vai acontecer daqui a 40 dias. Quero que o Ricardo seja eleito porque é uma mais valia para este País. É um candidato extraordinário e por causa disso é que o PSD de Vila de Rei o indicou para ser cabeça-de-lista. Claro que o quero ver na Assembleia da República, claro que acredito e farei campanha com ele e com a sua equipa, e da Liliana [Reis] e do Luís [Santos] e de todos os outros. Acredito que é a melhor solução para o País, mas também sou realista porque face aos resultados eleitorais nas anteriores legislativas, a eleição direta é extraordinariamente difícil. Já a eleição indireta não é assim tão impossível.

Vamos ter eleições legislativas a 10 de março, razão pela qual o presidente Ricardo Aires suspendeu o seu mandato. O que espera ver acontecer no País?
Espero mesmo que Portugal tenha um governo. Não tem tido. Temos tido um Teatro Politeama. Já chega, temos de crescer! O País precisa de uma classe governativa que dê confiança a quem está deste lado. E a provar isto é o expectável aumento de votações em partidos extremistas. Não é só o Chega, o Bloco de Esquerda igual, porque ponho ambos no mesmo patamar. Portugal precisa de crescer com a ajuda de todos. Estamos a ver que há gente que considera votar em partidos de protesto sem um projeto para o País e isto preocupa-me porque quem lá passou, quem lá esteve, quem tem estado na política, tem conseguido destruir o capital de confiança que havia e tem conseguido contribuir para a ideia de que estar hoje na política é muito semelhante a ser bandido.

Está a dizer que existe essa perceção por parte do eleitorado…
Sim. E a própria política tem-se aproveitado disso. O que se passou na Madeira foi uma vergonha. Os atos que alegadamente alguém praticou… não faço a mínima ideia, não vou comentar, mas jornalistas saberem de antemão que aquela operação ia ser executada e já estavam à espera da Polícia Judiciária, é um aproveitamento da comunicação social para um fim. É tão grave o controlo da comunicação social na região autónoma da Madeira, seja que de forma for, como é o uso da comunicação social através de fugas de informação propositadas para obter fins políticos. E esta fuga de informação, à semelhança de outras, tem fins políticos. É uma vergonha! E outra vergonha associada a isto é a quantidade de dias que as pessoas estão presas sem serem ouvidas. Não concebo que alguém esteja sete dias preso antes de ser ouvido. Muita coisa tem de mudar neste País e começa por confiar em quem lidera, e o governo liderar uma mudança. Com certeza que tem de haver reformas na Justiça! E temos de ser mais duros na corrupção, ser muito mais exigentes, temos que ter uma classe política que nos governa, em todos os órgãos de soberania, mais competente, mais capaz, e precisamos efetivamente de lideres capazes de envolver as pessoas numa mudança que é necessária e imperativa. Corremos o sério risco de entrar num ciclo viciosos de incapacidade governativa e isso é extremamente perigoso.

Como presidente da concelhia do PSD, se a direita conseguir maioria parlamentar, defende que a AD aceite o Chega no governo ou não? E apoio parlamentar?
Estou perfeitamente alinhado com o líder eleito do PSD. O líder eleito disse que não conta com o Chega para coisa nenhuma e por mim está bem. Se tivermos um governo minoritário é porque as pessoas nos escolheram com maioria relativa. Faremos as coligações que tiverem de ser feitas e sejam possíveis, com a Iniciativa Liberal. Se mesmo assim não chegar devemos governar em minoria e o Chega fará o que entender; ou aprova ou se abstém sobre o programa do governo. Estaremos nas mãos do Chega? Com certeza! Mas o povo estará cá para decidir também no caso do Chega nos mandar abaixo. António Guterres governou numa situação minoritária. Se o povo votar mais no Partido Socialista é porque quer que seja o PS a governar. Mas tal como disse o presidente do PSD; não podemos aprovar um programa de governo que é completamente contrário àquilo que perspetivamos para o País.

Há pouco afirmou colocar no mesmo patamar BE e Chega, sendo que o Chega se assume como um partido antissistema, sendo o nosso sistema a democracia é legitimo concluir que seja antidemocracia. O BE não se coloca nessa posição.
Sim. E não vi a onda quando António Costa se vendeu ao Bloco e ao Partido Comunista sendo que, em minha opinião, o PCP tem uma ideologia consolidada há muitos anos e não anda conforme o vento. Posso não concordar ou até discordar da aplicabilidade, porque na teoria é lindo, não consegue é ser aplicado. Agora o Bloco, aí é de outra maneira. O Chega não tem ideologia. O Bloco de Esquerda era contra a União Europeia mas candidatava-se às eleições europeias; é a mesma coisa! O BE está na extrema-esquerda e não é contra o sistema, a ideologia do Bloco de Esquerda é controlar o sistema. E o País levou com o Bloco de Esquerda sem o ter sufragado em urnas, para que Passos Coelho, e a PAF, não governasse. Não vi a onda critica que há agora sobre a possibilidade, negada até à exaustão. É uma forma de quem está na política conseguir orientar o foco mediático da comunicação social para o que dá mais interesse, e nesse jogo a comunicação social também vai.

Portanto, ao dizer que não tem ideologia, não entende que o Chega seja um partido xenófobo?
Não é não entender. Não partilho de nenhum ideal porque o Chega não tem ideais. Tanto são mais à esquerda como são mais à direita. Procuram ser aquilo que acham que é voz do povo, não apresentam uma solução. Dizem aquilo que acham que os outros querem ouvir; isto é ser populista! E qual é a frase mais ouvida neste País? “O André Ventura até fala bem.” Assim é fácil!
Há partidos, nesta Europa, que levaram a sistemas totalitários, devastadores para a Europa, que começaram assim, que com um autêntico desnorte, descontrolo e descrença da população sobre o sistema político e surge alguém que lhes diz aquilo que querem ouvir e apela ao seu e espírito nacionalista e à sua capacidade de resiliência para resistir aos tempos difíceis e dá esperança às pessoas baseado em nada, em ideologia da treta, e cria um estrado totalitário com uma visão expansionista pela Europa toda. Isto é perigoso! É impossível dar-se tudo aos médicos, aos enfermeiros, aos polícias, dar-se tudo aos guardas, aos reformados, à Polícia Judiciária, à comunicação social, dar-se tudo a toda a gente. Não dá! A própria definição de economia é a capacidade de com recursos escassos geri-los da melhor forma, e os recursos não são ilimitados.

Mas há escolhas políticas…
Com certeza! Mas se ouvir o que é dito pelas dirigentes do Chega, não há escolha. Tudo é uma escolha e é para dar tudo a toda a gente. Diz que vai buscar o dinheiro à economia paralela… Ventura nem sabe o valor da economia paralela, num dia consegue dar três valores diferentes. Nem explica como vai buscar o dinheiro à economia paralela. Nem tem noção quanto dinheiro consegue ir buscar… se acha que vai buscar o dinheiro todo está bastante enganado, a economia paralela sempre existiu e sempre vai existir. Além disso, não pode estar à espera de criar uma medida hoje e que tenha resultados práticos no final do ano, muitas vezes nem ao fim de 10 anos. As leis têm de ser aperfeiçoadas e melhoradas até que conseguem ter alguma operacionalidade. Portanto, tudo aquilo é dito para as pessoas ouvirem.

Entristece-o ver membros do seu partido mudarem para o Chega?
Não. Só queremos quem cá quer estar. Quem vai para o Chega cai-lhe a máscara. Está à procura do quê? De um lugar. Então não tem de ser do PSD. Ninguém espere, pelo menos comigo – é o que tenho dito a todas as pessoas que se filiam no PSD –, que por se filiar no PSD tem direito a mais do que qualquer outra pessoa. E aquilo que esses senhores têm feito, ao trocarem o Partido Social Democrata pelo Chega, é mostrar que estão agarrados ao poder. Esquecem-se que não somos autarcas, não somos deputados, estamos lá enquanto o povo quiser. O que estão a fazer é a forçar uma decisão do povo, que recai em si, perpetuando o lugar na Assembleia da República. Mostram que na sua cabeça não estão, são! Há uma diferença completa entre uma coisa e outra.

Como vive o ambiente político em Vila de Rei? Que papel assume o político na comunidade?
O político não anda pela comunidade. O Paulo César anda pela comunidade. Todos somos agentes políticos. Engana-se quem acha que não é. Todos fazemos política a toda a hora, cada vez que tomamos uma decisão ou cada vez que procuramos que outro tome uma decisão. E fazemos isso em casa, na relação que estabelecemos com os filhos, com os pais, com os amigos, etc. Continuo, sempre assim foi, a ir ao café de manhã, a treinar no ginásio, a ir aos meus treinos no Vilarregense, a jogar ao domingo, a ir à associação, a estar presente quando sou convidado. Estou cá para ajudar, não é para ser o político porque isso normalmente cria um afastamento. Não gosto que me tratem nem por senhor, nem por senhor doutor, sou o Paulo César, nascido e criado em Vila de Rei, toda a gente me conhece desde que nasci, exceto aqueles que são mais novos do que eu – e já começam a ser muitos -, por isso não é o político que anda na rua, é o Paulo César, o filho da terra.

Qual a maior dificuldade de ser decisor político num concelho do interior do País? É fazer-se ouvir pela administração central?
É. A maior dificuldade é fazermos sentir aos outros que somos mais do que um encargo. Quem está em Lisboa e no Porto não têm a mínima noção do que é viver no interior. E tratam-nos como um encargo. A questão das portagens é um encargo para o País, esquecem-se é que o País todo está a pagar passes gratuitos em Lisboa e nós aqui não temos autocarros, os que existem são da Câmara, saem do orçamento municipal. O Estado aqui não paga dívidas da empresa de transportes, que não existe. Ou seja, o País está inclinado porque os governos também são populistas nas decisões, não olham ao todo nacional. Olham onde está o voto. É em Lisboa? Então é para lá que canalizamos o dinheiro, colocamos Lisboa a receber fundos de coesão porque desenvolver Lisboa é desenvolver o resto do País. Tudo errado! E o interior que sempre tem sido visto como um encargo, a continuar a ser visto como um encargo, fica com ainda menos pessoas. Esquecem-se que, onde estão as pessoas precisam de recursos, e os recursos estão no interior, seja água, seja a floresta, seja o enquadramento dos nossos territórios para a descarbonização do País. Tudo isso vai ter de ser pago um dia; estamos menos desenvolvidos do que o litoral mas temos cá aquilo que não têm, que é a possibilidade de tornar o País mais verde e mais sustentável. É muito difícil que os decisores percebam que Portugal é mais do que os escassos sítios onde estão as pessoas. Portugal é um território inteiro. Tanto vale uma pessoa de Vinhais como uma de Faro, tanto vale uma pessoa de Lisboa como uma de Vila de Rei. Mas não é assim que é gerido e fica cada vez mais desigual.

Acredita que nos futuros Planos Ambientais possa haver uma discriminação positiva para o Interior?
Não é discriminação, é dar o seu a seu dono. Se o nosso território tem o necessário para descarbonizar o País, que sejamos compensados por isso. Se temos de ordenar floresta, reorganizar processos, reordenar os terrenos agrícolas, cadastro que não existia. Andámos com todo esse trabalho para quê? Para termos uma floresta resiliente e capaz de dar rendimentos às pessoas e ao País, porque a floresta não pode ser só um encargo, temos de tirar rendimento dela. Tudo isto tem de ter um valor pecuniário. Como a Barragem de Castelo de Bode; enviamos água para Lisboa, mas não conseguimos construir um empreendimento turístico perto da água porque o Plano de Ordenamento da Albufeira não permite. Temos sérios entraves ao desenvolvimento do concelho por razão dos Planos de Ordenamento da Albufeira de Castelo de Bode. Porque há gente a beber água dali, nomeadamente em Lisboa. Então o Plano de Ordenamento da Albufeira de Castelo de Bode é o mais restritivo de todos os planos de ordenamento das albufeiras portuguesas. Até a circulação fluvial está circunscrita a motores de 4 tempos e elétricos quando os motores de 2 tempos são muito mais baratos, supostamente porque são mais poluentes quando, atualmente, através dos óleos e métodos existentes já não é assim tanto. Ou seja, não podemos condicionar e amarrar o desenvolvimento do interior porque isso na cabeça de alguns pode afetar aquilo que está assegurado às pessoas nos grandes centros urbanos, como a água que chega a Lisboa de boa qualidade. Mas tem um conjunto de encargos e estes territórios são todos afetados por causa disso. Quando foi construída a barragem, a nossa maior relação – o concelho de Ferreira do Zêzere – morreu Aquela água é uma parede, só se fazia a ligação com uma barca de três tábuas, de um lado para o outro. A ponte só em 1991, a barragem é da década de 1950. Quarenta anos estagnados, famílias divididas, território partido ao meio. E houve preocupação em relação a isso? Não. Fazer uma ponte aquando da albufeira? Não valia a pena. Quantos é que votam lá? Não pode ser assim, Portugal é um todo, inteiro. Não pode ser visto como o encargo no interior e a solução no litoral, onde estão os votos. Neste concelho sempre tivemos uma premissa: começar as iniciativas de cariz concelhio pelas aldeias que estão longe de Vila de Rei, foi assim com o lixo, com os leds, com o abastecimento de água, com a reformulação da rede de águas e esgotos, nos depósitos que estamos a fazer agora. Porque não queremos ser vistos como um encargo e ver as nossas povoações com 3 ou 4 habitantes a 15 km de Vila de Rei ver aquela localidade como um encargo. Não! Tudo é um ativo neste concelho.

Até 2022 Vila de Rei pertencia à CIMT do Médio Tejo, depois por decreto governamental passou para a CIM da Beira Baixa em janeiro de 2023. Entende que Vila de Rei pertence mais ao Médio Tejo ou à Beira Baixa?
Entendo que Vila de Rei tem uma afinidade extraordinária e histórica à Beira Baixa e tem uma afinidade extraordinária e histórica com o Médio Tejo. As nossas relações comerciais sempre foram muito mais profícuas na zona do Médio Tejo, as nossas tradições grande parte delas estão alicerçadas na Beira Baixa mas também temos um bocadinho do Ribatejo. Estamos no Centro e temos influências do nosso Sul e do nosso Norte. Não consigo dizer se somos mais Norte ou somos mais Sul, somos o Centro. Apesar de sermos o Centro sempre fomos a periferia, nomeadamente no Médio Tejo, estamos na ponta, e na Beira Baixa estamos na ponta. Até naquilo que era a região Centro estávamos na ponta. Disse muitas vezes, a brincar, para terem atenção porque no dia que Vila de Rei deixar de pertencer ao Centro e passar a pertencer à Lezíria, que nome vão dar à região Centro, porque sem o Centro Geodésico acho que era descabido. Não consigo escolher com a qual região temos uma maior identificação.

Já integrou vários executivos municipais mas como é integrar um executivo até agora liderado por Ricardo Aires?
Trabalhar com Ricardo Aires é uma inspiração todos os dias porque o foco dele, e o nosso foco, tem de ser fazer o que tiver de ser feito para melhorar a qualidade de vida das pessoas, é para isso que estamos cá. É exigente como tem de ser, é líder como tem de ser e é extraordinariamente desafiante trabalhar com ele. Posso dizer que aprendi muito a trabalhar com o Ricardo – alguém que tem mais experiência que eu, seja na Câmara, seja na política – ao longo destes anos e estou-lhe muito grato por isso.

O que é que faz falta em Vila de Rei?
Acima de tudo quem cá está, perceber que tem valor, há muito valor em Vila de Rei. Poderia dizer que faz falta gente – e faz – mas temos primeiro de criar as condições para atrair mais gente e conseguir dar uma perspetiva de futuro. Faz falta habitação, faz falta que as pessoas invistam na sua terra acreditando na sua terra, nomeadamente na recuperação das casas que estão degradadas e devolutas. Arrendar a casa que está fechada a quem precisa dela, uma vez que passam anos sem vir cá e as casas estão fechadas. Falta que todos enquanto vilarregenses demos um bocadinho de nós para o desenvolvimento da terra e não fiquemos agarrados aquilo que é nosso, porque é nosso. É nosso mas também pode ser útil aos outros e o investimento que podem fazer, vai ter retorno. Sinto que muito investidores de Vila de Rei preferem investir fora de Vila de Rei, apesar das condições para esse investimento ser muito melhor em Vila de Rei. Deveria haver um chamamento muito maior, nessas pessoas.

Qual a razão que atribui a essa escolha de investir fora?
Porque vai-se com a expectativa legitima que o retorno financeiro é muito maior. Mas tenho assistido, com bastante interesse, que também há investidores em Lisboa que têm investido em Vila de Rei. Não tanto como gostaria mas tem existido.

E no País?
Faz falta o que disse: capacidade de liderança e capacidade de agregar e de unir um País inteiro com um objetivo comum. Não é isso que tem acontecido. É uma feira de vaidades e o teatro que tem acontecido até agora levou-nos a um estado extremamente preocupante e potenciador dos extremismos.

Como é que se gere a agenda em funções públicas, sendo que inclui semana e fins-de-semana, feriados, por vezes noites. Enfim… suponho que seja complicado fazer essa gestão com a vida familiar?
Normalmente quem passa por estas funções diz que a família é sempre a primeira prejudicada. E é. Estou ao serviço 24 horas por dia, sete dias por semana. Tenho às vezes intervalos, em que estou com a minha família, em que faço as minhas coisas. Mas estou disponível para atender o telefone mesmo nesses intervalos. É um serviço de dádiva ao outro, quem cá está tem de servir. Só concebo esta função assim. Não é fácil gerir.

Tem filhos?
Tenho dois.

Eles compreendem e aceitam a vida ocupada do pai?
Aceitam. Já nasceram comigo em funções na Câmara. Estão habituados. Às vezes levo-os comigo para algumas atividades, e aceitam, percebem e já estão inseridos no ambiente.

E como é separar a sua função autárquica das suas relações pessoais, que até podem não concordar com as suas decisões políticas?
Claro, tanta vez! Enquanto agente político dou a minha opinião e os outros podem concordar ou não mas há sempre a possibilidade de caminharmos juntos e trabalhar em beneficio deste concelho. As pessoas colocam os seus pontos de vista, eu coloco os meus, às vezes os argumentos dos outros não são fundamentados nas evidências que apresento porque tenho um conhecimento de causa, a nível autárquico, muito maior que as outras pessoas. Procuro ser eu todos os dias, não procuro envergar máscara, nem usar capa nenhuma, uma pessoa próxima e presente o mais possível. Por isso, a parte executiva e a parte pessoal tem casado bastante bem e espero que assim continue.

Como lida com a crítica, seja ela destrutiva ou construtiva?
Faz-me confusão a crítica destrutiva, muitas vezes vestida de construtiva. Mas quem está nestas funções tem de saber ouvir e muitas vezes engolir sapos, outras vezes elefantes, outras vezes dinossauros e respirar e contar até 10 e lidar com isso. É o que é!

Portanto, passou a sua infância e adolescência em Vila de Rei. Era um concelho diferente? Que memórias guarda?
Era um concelho bastante diferente. A minha infância foi com obras de implementação de sistemas de água potável a partir da albufeira de Castelo de Bode e depois saneamento que não havia. Morava na aldeia de Milreu, na confluência da EN 2, mas como obrigava a um desvio para a aldeia, nós brincávamos na rua até ao sol se por. Foi uma infância rural, extraordinariamente rica no conhecimento da fauna e flora do meu território, com muita brincadeira, muita aprendizagem e com trabalho rural a ajudar os pais e os avós e tudo isto junto, torna uma pessoa mais rica. Ganhamos experiências e capacidades para entender o mundo como está hoje e as dificuldades porque que passam algumas pessoas.

Se tivesse de se apresentar a alguém, apresentava-se como um homem reservado, é isso que o caracteriza?
Não. Não sou um homem reservado… às vezes até falo demais. Há situações que gosto de estar no meu canto e na minha introspeção, mas não costumo ser uma pessoa reservada. Percebo que as pessoas, ao não me conhecerem, possam ter uma interpretação sobre mim que não considero correta, mas costumo dizer: atrevam-se a falar comigo e tirem as ilações se de facto é assim ou não.

Quais os seu locais favoritos no concelho de Vila de Rei? Para onde vai se quiser pensar ou estar sozinho? Para onde leva os filhos em passeio? Para onde vai namorar?
Costumo ir para locais do concelho que me dizem alguma coisa naquele preciso momento. Tanto pode ser no Centro Geodésico, como pode ser no Miradouro de Fernandaires – que hoje é miradouro e tem mais gente do que na altura em que eu ia para lá e ficava sentado em cima das pedras – ou ler um livro no Miradouro da Pena, no Aivado, ou ir até Água Formosa e dar um passeio. Aprendi a gostar de correr e muitas vezes vou correr para sítios onde me quero perder nos pensamentos. Gosto muito de ir à Ponte dos Charcos, que é um local menos conhecido, menos turístico, na fronteira com o concelho da Sertã. Não tenho um sítio só meu, tenho um concelho com muitas potencialidades e que me dão vivências diferentes.

O que é que gosta de fazer nos seus tempos livres?
Gosto de andar na minha mota, gosto muito de desporto, aliás preciso de fazer desporto para bem da minha sanidade mental. Gosto de ir ao ginásio, gosto de futebol, de correr, passar tempo com a família e com a minha namorada.

Foi jogador federado de futsal no Clube Cultural Recreativo e Desportivo da Fundada e sei que é jogador de futebol no Vilarregense Futebol Clube. Não é muito comum um presidente de Câmara ser jogador do Inatel, pois não?
Não sei. Jogo futebol federado desde os 18 anos. Primeiro futsal porque era o que havia no concelho, o Vilarregense começou com camadas jovens e depois passei para os seniores do Vilarregense, já futebol de onze e fui ficando. Entretanto, a minha vida deu uma volta, abandonei o futebol federado mas passados poucos anos retornei ao futebol porque o grau de exigência era menor. Passámos a jogar no campeonato Inatel, a exigência de treinos era menor, o número de treinos e as horas despendidas era menor. Tenho procurado dar o meu contributo à equipa e assim será enquanto seja capaz e a minha agenda me permita.

Joga em que posição?
Gostaria muito que o meu treinador lesse esta entrevista. Na minha cabeça sou trinco, mas o meu treinador volta e meia põe-me no meio campo, às vezes põe-me na defesa… acho que já corri as posições todas, mas onde gosto mesmo de jogar é no meio campo defensivo. Porém, estou no Vilarregense para ajudar, e se for preciso ir à baliza, vou à baliza. Quero é ajudar, assim o treinador e a equipa sintam que sou uma mais valia. Se tiver de ir para o banco também vou… chateado claro, não gosto de estar no banco, ninguém gosta!

Mas o seu clube do coração é outro…
O meu clube do coração é o Vilarregense. Sou benfiquista, sou sócio do Benfica, sofro pelo Benfica mas sofro muito mais pelo Vilarregense. Uma derrota do Vilarregense no domingo, vou andar uma semana inteira a pensar naquilo, e com o Benfica não é assim. O Benfica perde, fico um bocado chateado naquele dia e no dia seguinte já passou.

E gosta de viajar? Qual a viagem da sua vida?
Desde pequeno que digo que gostava de ir à Nova Zelândia. Nunca aconteceu. Depois comecei a dizer: mais perto, Austrália. Também nunca aconteceu. Gosto de viajar, tenho algumas viagens agendadas, há umas que vou fazer de certeza, outras são projetos que farei quando tiverem de acontecer ou existir essa possibilidade. Como já disse, gosto de viajar de mota. Tenho feito juntamente com os meus irmãos e com a minha namorada umas viagens, quero acabar a segunda viagem pela EN 2 de mota, com a minha namorada: a parte Norte, já fizemos a parte Sul. E tenho algumas viagens para palmear estrada, outras de ligação aérea. Gostava de ir à Escócia, também. Mas tudo a seu tempo.

Que sonhos ainda tem por concretizar?
Não sonhei ser autarca. Como já disse, vivo muito o dia de hoje, não projeto. E não sou uma pessoa muito ambiciosa… ou melhor, sou muito ambicioso mas não é por lugares, nem por posições ou cargos. A minha ambição é ser capaz sempre de corresponder às pessoas e às suas necessidades. Se conseguir fazer isso sou bem sucedido e estou bem comigo próprio. Por isso, não estou com os olhos no lugar de ninguém, nem com a ambição de ser deputado, nem membro do governo, nem presidente de Câmara. A minha ambição é ajudar e servir. O meu sonho é viver o dia a dia e ser útil. A minha felicidade também passa por aqui.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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