Foto: Etienne Laurent/EPA

Escrever sobre os acontecimentos nos Estados Unidos da América, em Minneapolis, que levaram ao assassinato do cidadão George Floyd, não é fácil. Encontrar as palavras que consigam descrever aquilo que se sente quando se vê as imagens de um polícia a canalizar toda a sua força para o joelho que comprime o pescoço de uma pessoa, deitada no chão e algemada nas costas… e pensar que essa atitude durou 9 minutos, mesmo quando a vítima dizia “não consigo respirar”, não é fácil. Podemos usar muitos adjectivos para caracterizar a brutalidade deste polícia, mas pensando bem e, sobretudo, olhando para a revolta e indignação que enchem as ruas das cidades da América, percebemos que há uma palavra que define tudo: RACISMO.

A história da América está cheia de actos e práticas racistas e a luta pelos Direitos Civis não foi assim há tanto tempo. Mas isto justifica a permanente discriminação da população negra? A permanente agressão e o assassínio pelas autoridades policiais? As condenações à morte e a prisão perpétua, algumas revogadas depois daqueles que foram injustamente acusados passarem décadas na prisão, têm justificação? Há alguma espécie de atenuante que possa justificar que ser negro ou negra significa que aumentam exponencialmente as possibilidades de ser preso sem justificação, agredido por um polícia, maltratado e condenado? Não, não existe.

A palavra de ordem das manifestações resume tudo “sem justiça não há paz” (no justice no peace). A participação nas manifestações, que tem crescido mesmo aumentando as medidas repressivas e o recolher obrigatório, é plural e transversal à sociedade, une aqueles e aquelas que independentemente da cor da pele e da sua origem querem viver em paz e não conseguem desviar os olhos das injustiças e dos atentados aos direitos e à vida humana.

A “manobra de imobilização” usada pelo polícia é proibida em vários estados da América, demonstrando a sua perigosidade. Porquê aplicá-la num homem que pode ter utilizado uma nota falsa de 20 dólares para comprar tabaco e não ofereceu nenhuma resistência à detenção, como se vê nos vídeos? Porquê esta brutal desproporção dos meios utilizados face ao putativo crime? Também sobre este aspecto encontramos parte da resposta na frase gritada nas ruas e que corre mundo: “black lives matter” (as vidas negras contam). Acontece que para alguns não contam e isso chama-se racismo.

No meio da pandemia, com números de infectados e de mortos altíssimos, com milhões de novos desempregados, Trump age como incendiário e ameaça enviar o exército para as ruas e disparar a matar. As políticas de Trump são responsáveis pelas agressões, têm fomentado o ódio e a discriminação. Pior que isto é difícil. Ai América, que este sofrimento permita virar esta página da História para que a justiça se instale e que se abram as portas para a paz.

Até lá, ajoelhemo-nos* por George Floyd, como fazem centenas de milhares de americanos

*O acto de ajoelhar como forma de protesto contra a discriminação popularizou-se quando o jogador de futebol americano do San Francisco 49ers, Colin Kaepernick, começou a ficar nessa posição enquanto tocava o hino nacional durante a época de 2016. Depois disso, não voltou a ser contratado por nenhum clube da liga norte-americana de futebol americano. Agora ganhou novo ânimo quando polícias se ajoelharam frente à sua esquadra e acaba por ter também um valor simbólico relacionado com a forma como George Floyd foi assassinado.

Helena Pinto vive na Meia Via, no concelho de Torres Novas. Nasceu em 1959 e é Animadora Social. Foi deputada à Assembleia da República, pelo Bloco de Esquerda, de 2005 a 2015. Foi vereadora na Câmara de Torres Novas entre 2013 e 2021. Integrou a Comissão Independente para a Descentralização (2018-2019) criada pela Lei 58/2018 e nomeada pelo Presidente da Assembleia da República. Fundadora e Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação Feministas em Movimento. Escreve quinzenalmente no mediotejo.net

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