Em declarações ao mediotejo.net, a diretora do ACES disse que todos os anos são abertos dois concursos, um de época normal, que visa recrutar os médicos que terminam a especialidade na época normal (e que acontece normalmente no final da primavera), e outro de época especial, que se destina a recrutar os médicos que terminam a especialidade em outubro, concurso esse que terminou recentemente.
“Nós tínhamos quatro vagas – normalmente são sempre menos porque é época especial e há menos médicos a formarem-se nesta altura –, sendo que uma era em Ourém e ficou vazia. No ACES Médio Tejo só conseguimos colocar um médico em Torres Novas”, afirmou.
O mediotejo.net aproveitou o encontro com Diana Leiria, na realização de um rastreio à acuidade visual e auditiva no Centro Escolar das Misericórdias (Ourém), onde pediu um ponto de situação sobre a falta de médicos. Em relação a Ourém, a diretora do ACES explicou que o concelho ouriense vive uma situação com “dois mundos completamente diferentes”.
“A freguesia de Fátima, que é uma freguesia muito grande, a maior do concelho, com uma cobertura quase plena, através da USF de Fátima, uma USF com organização modelo B, e depois a parte de Ourém propriamente dita, do Centro de Saúde de Ourém, com uma falta grave e grande de médicos de família, designadamente na UCSP (Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados), que é uma unidade caraterizada por uma enorme dispersão, com 13 polos, e que nos dificulta ainda mais a capacidade de atrair recursos e, para além de atrair, de os manter nos polos”, explicou Diana Leiria.
Esse fator tem-se notado ao longo dos anos, com os os médicos mais velhos a saírem paulatinamente por aposentação, e com os profissionais mais novos a não concorrem ou, quando o fazem, estão um ano ou dois e depois “assim que podem saem e vão-se embora”, algo que se notou “bastante” em Ourém.

No entanto este é um problema “que não se fixa só em Ourém, é um bocadinho transversal a toda a região e a todos os concelhos do Médio Tejo, com honrosas exceções, e em que sentimos grande dificuldade em, por um lado, captar recursos, e por outro em manter os novos profissionais nas nossas unidades”, afirmou.
Relativamente a problemas relacionadas com a falta de outros profissionais da área da saúde, Diana Leiria destaca a falta de assistentes operacionais, em parte devido ao envelhecimento desse grupo profissional, mas também devido a “alguma ambivalência pelo facto de eles passarem – com a descentralização – para as autarquias”, sendo que neste momento essa competência ainda não passou por completo mas a ARSLVT (Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo) também já não tem a competência, pelo que se tem sentido “alguma dificuldade” nesse aspeto.
“Em termos de enfermeiros temos conseguido ir colmatando as necessidades com os vários contratos, também durante o tempo Covid abriu-se a possibilidade de facilitar alguma contratação através dos contratos Covid, e temos vindo, apesar de tudo, a conseguir dar resposta sem grande dificuldade. Eu poria mesmo a tónica na falta de médicos”, declarou a diretora do ACES do Médio Tejo.
Após dois anos de pandemia, a prioridade do ACES da região passa pelo “acesso” a cuidados médicos.
“Não só pelo facto de estarmos com esta dificuldade da falta de médicos e que é uma grande preocupação para nós, mas também precisamente por causa da pandemia, porque os cuidados de saúde – todos eles e os cuidados de saúde primários não foram exceção – vimo-nos confrontados com uma série de tarefas muito ligadas à resolução da pandemia e ao socorro às pessoas que eram vítimas de Covid e algumas situações foram ficando para trás. Neste momento temos tentado recuperar, com muito enfoque na questão das consultas presenciais, das consultas de vigilância e dos rastreios oncológicos, e temos vindo a conseguir alcançar níveis muito próximos de 2019, a nossa bitola, a época antes da pandemia”, explicou Diana Leiria.

Aos utentes sem médico de família, a diretora do ACES diz que se tem tentado aumentar o número de consultas realizado por médicos que não são integrantes do ACES, ou seja, médicos contratados através da prestação de serviços, mas que mesmo essa solução não tem sido fácil, tendo em conta a grande competitividade do mercado e que “os cuidados de saúde primários parecem não oferecer aquilo que os profissionais procuram”.
“Por outro lado também temos tentado centralizar alguns recursos. Temos mantido, a muito custo, o atendimento complementar aos sábados, domingos e feriados, com um horário alargado, de forma a correspondermos à procura. Aumentámos também o número de recursos de médicos escalados de um para dois, no sentido de aumentar o acesso e tudo aquilo que está ao nosso alcance temos tentado”, disse Diana Leiria.
O Agrupamento de Centros de Saúde do Médio Tejo lançou ainda o repto para que as Unidades de Saúde Familiar (USF) se candidatem ao modelo B, algo que aconteceu em Fátima (em outubro de 2021), sendo que a USF Auren, em Ourém, tem encontra-se em processo de candidatura, pelo que agora é necessário reforçar os recursos humanos médicos no sentido de ser criada uma USF no restante concelho.
Em Tomar, onde a situação em termos de cobertura de médicos de família é “bastante mais simpática” – algo que se deve, em parte, ao facto de existirem duas unidades de formação de médicos – está também a ser iniciado um projeto para a constituição de uma nova USF rural, com vários polos, a qual está também em fase de candidatura, pelo que se podem esperar novidades a breve trecho, disse Diana Leiria, que mantém boas perspetivas em relação ao projeto.
CUSMT preocupada aponta soluções
A Comissão de Utentes da Saúde do Médio Tejo (CUSMT) aponta que, no Médio Tejo, existem atualmente mais de 50 mil utentes sem médico de família, defendendo uma aposta integrada e estrutural, apontando como soluções a vinda de médicos estrangeiros , um nivelamento das condições de prestação de serviços e salariais do conjunto dos médicos e ainda a criação de unidades móveis de saúde.
Tendo em conta os resultados deste concurso, com apenas uma das quatro vagas a ser preenchidas, a CUSMT, na pessoa de Manuel José Soares, seu porta-voz, não se mostrou surpreendida com os resultados, tendo em conta o facto de estes concursos serem feitos “de uma forma igual para todo o país, não tendo em conta as especificidades e os locais de trabalho que são destinados aos médicos”.
Segundo Manuel José Soares, as vagas que são abertas nunca correspondem aos médicos que são precisos e não são do agrado dos próprios médicos, “pois tendo eles possibilidade de escolher para outros lados, quer em prestação de serviços, quer no setor social quer no setor privado, há sempre alternativa para os médicos poderem trabalhar onde querem porque é generalizada a falta de médicos de família”.
“Lamentamos. (…) estas quatro vagas a serem preenchidas resolveriam alguns problemas, assim vamos continuar com uma situação muito complicada em matéria de recursos humanos médicos, também de assistentes administrativos, também de enfermeiros, e o caso do Médio Tejo terá de ter uma análise mais fina para se tomarem as medidas que são necessárias”, disse o porta-voz da Comissão de Utentes.
Segundo o entendimento de Manuel Soares, os incentivos que estão a ser dados concelho a concelho não resolverão grande parte do problema, tendo defendido que a organização dos cuidados primários tem de ter outras regras.
“Não se compreende que haja três formas de organização, uma de USF B, outra de USF A e depois ainda há as Unidades de Cuidados de Saúde Personalizados, que parecem ser o parente pobre. Este concurso foi aberto para Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados, porque se eventualmente fosse para uma USF tipo B, evidente que haveria candidatos dadas as diferenças que existem em termos de incentivos e de retribuições, e até da própria organização de trabalho”, afirmou Manuel José Soares.
A CUSMT avança ainda com algumas soluções que poderiam ser implementadas para resolver ou minimizar os problemas, nomeadamente com a vinda de médicos estrangeiros ou com um nivelamento das condições de prestação de serviços e salariais do conjunto dos médicos.
Manuel José Soares explicou ainda que a CUSMT propôs a criação de unidades móveis de saúde, em que “médicos devidamente recompensados pudessem, junto das aldeias e das unidades de saúde que estão encerradas, prestar algum tipo de serviço”, apontando ainda o porta-voz da comissão que as entidades que têm responsabilidades de representação das populações e que têm como obrigação organizar estes serviços se deviam juntar e chegar “realmente a soluções que fossem exequíveis”.

É de louvar que a CUSMT se refira à promoção da saúde e é pena que seja quase uma voz no deserto. Outros, com mais obrigação de falar do assunto, passam ao lado. Explicar a pouca apetência dos jovens médicos pelo SNS cos salários é redutor. No modelo B USF os ordenados médicos não são baixos. A medicina familiar está, injustamente, desprestigiada.