Falta de médicos de família tem sido problema de difícil gestão no ACES Médio Tejo e em todo o país. Foto arquivo: mediotejo.net

“O ACES Médio Tejo tem cerca de 50.000 utentes inscritos e frequentadores sem médico de família atribuído, num universo de 225.000 utentes frequentadores. Para atribuir médico de família a todos os utentes inscritos e frequentadores necessitaríamos de 29 médicos, caso todas as variáveis se mantenham. Neste momento os concelhos mais carenciados são os de Abrantes, Ourém e Alcanena”, referiu ao nosso jornal o ACES Médio Tejo, questionado sobre a situação atual.

O ACES Médio Tejo, através da ARSLVT, realça que “o facto de um utente não ter médico de família atribuído não significa que não tenha assistência médica nos cuidados de saúde primários, pois, embora reconheçamos as dificuldades sentidas por estes utentes, o ACES disponibiliza horas médicas de prestação de serviços, bem como horas suplementares de vários médicos especialistas para o acompanhamento destes utentes”.

Questionado sobre contratações previstas ou programadas, a ARSLVT afirmou ter “a decorrer vários concursos de recrutamento para os vários grupos profissionais, designadamente médicos especialistas de Medicina Geral e Familiar, Enfermeiros e Assistentes Técnicos”.

O ACES Médio Tejo contratou em agosto cinco médicos de família, situação que os utentes da saúde dizem ser “insuficiente e preocupante”, tendo lembrado as 12 vagas a concurso e um défice de quase 30 médicos.

“Para o último concurso nacional foi pedida a abertura de 22 vagas para médicos de família, foram atribuídas 12 e só foram preenchidas cinco, o que é manifestamente insuficiente”, disse na ocasião Manuel Soares, porta-voz da Comissão de Utentes da Saúde do Médio Tejo (CUSMT), sublinhando que há um “défice de profissionais” para os cuidados médicos e “mais de 20% da população sem médico atribuído”, cerca de 50 mil utentes, numa situação que classificou de “preocupante”.

Manuel Soares afirmou que “os cuidados médicos são aqueles que têm mais problemas porque não se consegue garantir de momento a abertura das unidades de saúde de proximidade”, tendo acrescentado que “só foram colocados cinco médicos, concretamente um no Entroncamento, dois em Ourém e dois em Tomar”, e que os concelhos mais afetados eram os de Abrantes, Alcanena e Ourém, situação que se confirma e que se mantém.

O ACES Médio Tejo confirmou que “neste momento tem cerca de 50 mil utentes sem médico de família atribuído, pelo que necessitaria de 29 médicos especialistas em Medicina Geral e Familiar para garantir médico a todos os utentes inscritos e frequentadores”.

O porta-voz da CUSMT disse que a comissão vai manter-se “atenta e empenhada” e que “se justifica de toda a maneira que os utentes façam pressão junto das autarquias para que não abandonem esta reivindicação de haver cuidados de proximidade para todos os habitantes” do Médio Tejo, assim como a própria CUSMT vai pressionar as entidades competentes, não só relativamente a médicos, mas a outros profissionais, como assistentes técnicos e enfermeiros.

Manuel Soares lembrou ainda as questões relativas à saúde oral”, situação merecedora de particular atenção. “Embora com atraso de alguns anos, acabaram por ser instalados todos os gabinetes de saúde oral em todos os 12 centros de saúde”, realçou, dando conta, no entanto, que “hoje, dos 12 centros de saúde, apenas cinco estão a funcionar e têm profissionais” e que, “no caso de Fátima, Mação, Ferreira do Zêzere, Alcanena, Sardoal, Constância e Torres Novas, os profissionais abandonaram o serviço” nos gabinetes.

Contactado pelo mediotejo.net, o ACES lembra que a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) e a Comunidade Intermunicipal Médio Tejo (CIMT) estabeleceram um “protocolo para dotar os Centros de Saúde do ACES Médio Tejo de gabinetes de saúde oral” e que, nesse sentido, “a ARSLVT realizou obras de requalificação para adaptação dos gabinetes e as Autarquias adquiriram o equipamento para os seguintes centros de saúde:  Abrantes, Alcanena, Constância, Entroncamento, Ferreira do Zêzere, Mação, Ourém, Sardoal, Tomar, Torres Novas e Vila Nova da Barquinha”.

Segundo a informação enviada ao nosso jornal, “a empresa de recrutamento contratada pela ARSLVT tem tido dificuldade em encontrar e fixar profissionais interessados em trabalhar nesta região”. Assim, “neste momento, a Medicina Dentária funciona nos Centros de Saúde de Abrantes, Sardoal, Tomar, Ourém, Entroncamento e Vila Nova da Barquinha”, refere.

O ACES Médio Tejo confirmou ainda que, na semana de 10 a 14 de outubro, o centro de saúde de Tramagal teve médicos no local de trabalho mas que não puderam prestar as consultas previstas, num dia por falta de assistente administrativa, nos outros por não haver acesso ao sistema informático.

“No passado dia 13 de outubro ocorreu uma avaria no servidor de Abrantes. A situação foi de imediato reportada, tendo as equipas técnicas iniciado a reparação. A reparação da avaria implicou a substituição de peças, o que ocorreu com celeridade. Às 9h20 do dia 14 de outubro a avaria foi totalmente debelada e a normalidade foi resposta. As unidades funcionais de Abrantes mantiveram todas as consultas e tratamentos urgentes e/ou inadiáveis. As consultas passíveis de serem adiadas foram remarcadas”, referiu o ACES Médio Tejo, confirmando o problema em Tramagal.

“Concretamente o polo do Tramagal integra a USF Beira Tejo e, na semana que refere, ocorreram várias ausências não programadas e legalmente justificadas dos elementos do secretariado clínico. A situação foi rapidamente ultrapassada com a mobilização temporária de profissional de outra unidade funcional”.

Os utentes da saúde insistem em saber quais as perspetivas para o futuro imediato e a médio prazo, “nomeadamente no que respeita às contratações de médicos”, tendo em conta que “houve médicos que recusaram a majoração do seu salário para o dobro, porque não aceitaram onde iam ser colocados”.

“Há questões que precisam de uma análise mais fina”, disse Manuel Soares, lembrando que “não há alternativa em matéria de cuidados de saúde, não há alternativa aos cuidados primários” e que “é preciso todos os dias fazer um esforço” para que em alguns locais os serviços não venham a piorar.

O ACES Médio Tejo tem 2.706 quilómetros quadrados e abrange 11 municípios com cerca de 225 mil utentes/frequentadores, sendo composto pelos municípios de Abrantes, Alcanena, Constância, Entroncamento, Ferreira do Zêzere, Mação, Ourém, Sardoal, Tomar, Torres Novas e Vila Nova da Barquinha.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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