Francisco Lopes, Kiko para os amigos e mais conhecido por kikopego93 no mundo do poker, é provavelmente o nome que mais partilhas tem tido por estes dias nas redes sociais e nas publicações desportivas que dedicaram atenção a esta modalidade. Porquê? O jovem de 24 anos arrecadou mais de 43 mil euros na final da World Poker Tour DeepStacks Portugal, no Casino de Vilamoura, ganhando ainda passaporte para novo evento que decorrerá em Berlim. Além das ovações e frenesim que se fizeram sentir na sua terra, Pego, e um pouco por todo o concelho de Abrantes, importa conhecer o jovem pegacho que veio mostrar que é possível fazer do poker vida. O mediotejo.net quis saber qual a sua história com este jogo, que assumiu como profissão.
Como surge o interesse pelo poker?
FL: Desde miúdo que tenho um interesse bastante grande por jogos de estratégia. A determinada altura conheci o poker e decidi experimentar. Inicialmente não sabia da complexidade do jogo, nem que era possível ter uma vantagem constante sobre os outros jogadores. Quando descobri isso, fiquei apaixonado pelo jogo.

Tem sido prática regular, a título amador, há algum tempo? Qual a sua história com este jogo?
FL: Tem sido uma prática regular desde o final do ensino secundário. Depois de jogar durante um ano a nível amador, comecei a conseguir ganhar regularmente algum dinheiro com o jogo. Claro que nessa altura ver muitos filmes de estratégia, ler livros e falar com outros jogadores que ambicionavam ter sucesso neste mundo, tinha que dar alguns frutos. Nisto, como noutra atividade, é preciso estudar, nomeadamente lógica, teoria dos jogos e probabilidades.
E houve necessidade de afirmar-se junto da família e amigos, mostrando que o poker tinha vindo para ficar…
FL: Foi também durante esta altura que fui fazendo ver aos meus pais e às pessoas mais próximas que o poker é um jogo de habilidade e estratégia. Nada tem a ver com os jogos de sorte e azar e está a anos luz do velho mito de alguém que perde tudo o que tem numa mesa de jogo. Isto pode viciar, mas não é um jogo para viciados, esses nunca serão profissionais.
Nesta altura ainda não existiam exemplos como o Brasil, que hoje em dia o considera um jogo mental como o xadrez. Utilizei gráficos e estatísticas de outros jogadores para fundamentar a minha opinião. Eles perceberam ao fim de algum tempo.
Quando acabei o secundário e tive que equacionar as minhas opções e não me apetecia tirar um curso superior para ser caixa num supermercado. Sugeri aos meus pais tirar um ano para me dedicar a cem por cento ao poker online. Já ganhava algum dinheiro mensalmente, meio a brincar, e parecia ser uma opção boa para o meu mais imediato futuro.
De amador a jogador profissional com a equipa LVLUP
FL: Pensei então que precisava de alguém que conhecesse bem o que eu queria fazer, para me guiar. Foi aí que conheci o João Silva, que me ensinou durante grande parte do meu percurso como jogador profissional. Ele tem uma equipa de Poker (LVLUP) que patrocina e ensina jogadores onde vê potencial.
Com a ajuda do João e dos meus companheiros de equipa fui evoluindo e jogando cada vez mais alto, o que fez com que os meus ganhos mensais fossem aumentando. Não foi uma subida em flecha, tive alguns altos e baixos enquanto subia, mas com mais estudo sempre consegui evoluir.

Entretanto chegou a legislação sobre os jogos online, que até aí não tinha enquadramento legal. Esse processo fez com que este percurso fosse mais demorado, pois estivemos sem jogo online durante quase um ano. Foi o pior momento deste percurso. Estava no NOS Alive e soube pela internet que na segunda-feira seguinte iria ficar sem trabalho, porque o governo decidiu fechar os sites enquanto legislava. Foi uma sensação horrível, pensei mudar de país para continuar a jogar, mas não o queria fazer nessa altura. Supostamente seria algo rápido… mas foi muito mau.
Como surge a oportunidade de participar no WPT? Descreva-nos o processo.
Hoje em dia ajudo o João a ensinar outros jogadores na sua equipa e comecei este ano a jogar mais eventos ao vivo. Já joguei este ano o PokerStars Festival de Londres, Marbella e as WSOP (World Series of Poker) em Rozvadov, na República Checa e no Estoril.
Estes eventos têm custos elevados, demorei cerca de quatro anos para que fosse seguro para mim participar e pagar todas as deslocações que envolvem e é excelente para mim ter conseguido um resultado destes em tão poucas participações.
No último confronto tinha expetativas quanto a conseguir bater o seu adversário?
Tinha quantas fichas ao chegar a esta fase?
Quando fiquei apenas um contra um com o jogador argelino, Omar Lakhdari, já tinha jogado muitas mãos com ele durante o resto do torneio. Ele tinha cerca de 2.5 milhões de fichas e eu 3.5 milhões, era uma diferença de prémios de 17.000€ mas eu sentia que tinha uma vantagem estratégica e de fichas que eventualmente me levariam à vitória. Não aceitei o acordo que o jogador me propôs e decidi jogar.
Este jogo não é um jogo exato e tem um fator sorte envolvido que pode fazer mudar as coisas de um momento para o outro. Entretanto, quando o número de fichas acabou por ficar mais equilibrado, ele propôs novo acordo, dividir o prémio a meio e jogar para o título e para a entrada no torneio em Berlim, em janeiro de 2018. Acabei por aceitar. Acabei por vencer e não me arrependo nada de ter feito o acordo.

Confirme-nos os seus ganhos neste evento.
Ganhei 47.000€ e uma entrada para o torneio WPT em Berlim no valor de 2000€.
Esperava conseguir estes resultados?
Jogo profissionalmente há tempo suficiente para perceber que um dia isto iria acontecer, sabia que podia demorar muito tempo, mas teria que acontecer.
A certa altura o poker começou por se tornar uma “moda”, nomeadamente em competições online ou entre amigos. No seu entender quais os requisitos básicos para ser bem sucedido e conseguir resultados no poker?
Penso que o gosto pelo que se faz e a capacidade de automotivação são os fatores mais importantes, bem como muito trabalho e muito estudo. É necessário ter também muito autocontrolo e perceber que quando se tem 80% de hipóteses de ganhar não tem 100%, e que às vezes vamos perder, é natural, não nos podemos ir abaixo com isso. É preciso ser também um bom gestor e ter sempre muito cuidado com o que se faz com o dinheiro, afinal de contas precisamos dele para continuar a jogar, pagar entradas para torneios e viagens. É como o fundo de maneio de uma empresa.

O que desperta mais interesse ou se torna mais desafiante?
O interesse, como em qualquer outra atividade, aumenta consoante o conhecimento adquirido, quanto mais se sabe melhor se interpreta a complexidade de algumas jogadas e isso leva a que o gosto e prazer aumentem.
Ficou agora com a possibilidade de participar no evento WPT em Berlim, no ano que vem. Vai preparar-se de alguma forma? Expetativas?
Vou continuar a trabalhar como sempre trabalhei até aqui e a estudar muito. É mais um torneio, vou jogar o meu melhor e ver no que dá.
Por fim, e não menos importante, como tem sido lidar com as reações de familiares e amigos?
Incrível! Nunca pensei receber tantas mensagens de felicitações. Sinto-me muito feliz com este resultado e com a reação dos meus amigos, familiares e com as felicitações do Município de Abrantes.
Fotogaleria: outros registos da mesa final que deu o título a Francisco Lopes
Créditos fotográficos: World Poker Tour
