Morreu hoje em Abrantes Virgílio Nuno Rapazote (1935-2017), figura incontornável na história do dirigismo desportivo concelhio e, em particular, do centenário Sport Abrantes e Benfica (SAB). O seu corpo chegou à casa mortuária da Igreja de São João Batista às 18:00. Segundo fonte da direção do SAB, o funeral do histórico dirigente realiza-se às 16:00 desta quinta-feira, partindo da Igreja de São João Batista para o cemitério da cidade.

Em declarações ao mediotejo.net, António Carvalho, vice-presidente do SAB, disse que o momento “é de tristeza para todos os que estão ligados ao SAB e para a história do desporto em Abrantes. Virgílio Rapazote foi uma pessoa que lutou durante muitos anos por este clube e é uma figura incontornável na história centenária do SAB”, afirmou.

“Virgílio Rapazote foi um construtor de homens” – Vereador Luís Dias

Contactado pelo mediotejo.net, o Vereador com o pelouro do Desporto na Câmara de Abrantes, Luís Correia Dias, disse que Virgílio Rapazote “foi uma pessoa muito importante na minha vida e na de muitos jovens, de várias gerações”, tendo lembrado que esteve durante 5 anos a ser orientado pela estrutura dirigente onde o histórico dirigente liderava. “Foi um construtor de homens e recordo a defesa intransigente de valores como a ética no desporto, o fair play, a disciplina, o desportivismo. Foi um extraordinário dirigente e um homem que ajudou a construir Abrantes”, vincou.

Na sua página do facebook, André Grácio, presidente do concelho fiscal do SAB, deixou a seguinte mensagem:

“Chamavam-me o Pirata porque nunca gostei de deixar créditos pelas mãos alheias e se havia que manter a ordem eu resolvia o problema . Saio ao meu pai que morreu com 91 anos e trabalhou até aos 89. Trabalhei 25 anos no Sport Abrantes Benfica, dei mais de 50 mil horas de trabalho, sem qualquer interesse e hoje voltava a fazer o mesmo. Muitos se lembram de mim, passo por essas aldeias e ouço chamarem pelo Pirata ou pelo Vadio. Eram miúdos com quem trabalhei, que hoje são doutores e engenheiros e que se lembram de mim”

Descansa em Paz, Velho!”

Recuperamos, em sua memória, uma entrevista concedida ao boletim municipal ‘Passos do Concelho’, por ocasião dos 40 anos do 25 de abril, e em que Virgílio Rapazote relata como se iniciou no dirigismo desportivo no Sport Abrantes e Benfica (com os agradecimentos à CM Abrantes)

Virgílio Rapazote, ex. dirigente do Benfica de Abrantes

Depois de um período de três anos como voluntário em Moçambique regressa a Portugal em 1973, altura em que já lhe “cheirava a 25 de Abril”.

Com a sua determinação que lhe é característica, Virgílio Rapazote diz-nos que, no seu entender, a principal missão do 25 Abril foi “fugir ao Ultramar”.

Numa comparação da história com os dias de hoje, reconhece que “nem o 25 de Abril conseguiu mudar a história. Os barões continuam a reinar e os miseráveis são cada vez mais”.

Onde estava no 25 de Abril de 1974?

No dia 25 de Abril estava em Abrantes.

A revolução não me surpreendeu. Tinha regressado de Africa em 73 e nessa época já sentia “qualquer coisa de estranho”. Fui militar durante cerca de oito anos, de onde mantive alguns contatos que, nessa altura me deram a perceber que “algo se iria passar”.

Tenho uma perspetiva do que se passou naquele dia um pouco diferente. No meu entender a missão do 25 Abril serviu para “Fugir ao Ultramar”, pois percebia que o que movia as pessoas para a revolução era o “pânico em ir para Ultramar”.

Em termos de participação de massas, o verdadeiro 25 de abril foi a 1 de maio…

Sim. Assisti ao 1 de Maio na Praça Raimundo Soares, local onde está o meu café ainda hoje a funcionar. Presenciei inclusive algumas manifestações feitas no varandim da câmara que entendo um pouco despropositadas e demasiado efusivas.

O que é que mudou nestes 40 anos?

Em matéria de desporto, fui dirigente associativo durante 28 anos e sempre me dediquei à formação, ao deporto e juventude.

Em 1966/67 já pertencia ao Benfica de Abrantes. Quando regressei de Angola encontrei o clube fechado.

Como o meu filho Paulo era jogador (júnior) do clube, na altura apercebi-me da existência de alguma indisciplina. Tendo sido convidado para treinador do Clube aceitei de imediato e “assim tudo começou”.

Reconheço que tive bons adjuntos o que me facilitou a tarefa de treinar uma equipa que a partir de 1973 se dedicou em exclusivo à formação, com uma ação “espetacular”, “rodeado de gente muito séria como o Prof João Paulo Milheiriço Dias, o Prof Rui Morais, o Pereirinha ou o vice-presidente Dr. João Viana Rodrigues”.

Na 1ª divisão distrital de Santarém chegamos a ter 4 escalões durante 10 anos. Infantis, iniciados, juvenis e juniores em que o pior resultado que tivemos foi um 5º lugar, ficando o clube durante muitos anos seguidos em 1º lugar.

Mas sentia que os Abrantinos não tinham bairrismo e não colaboravam. O apoio que tínhamos era da Câmara Municipal com a água e luz, ajudando o clube a ganhar incentivos para continuar num trabalho constante que, inclusive me trousse alguns prejuízos no meu negócio pessoal.

Virgílio Rapazote, em cima, o segundo à esquerda. Foto: DR

 

EM ATUALIZAÇÃO

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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