Albufeira de Castelo do Bode. Foto: mediotejo.net

Minguado pela ausência de chuvas, o rio Zêzere está irreconhecível para quem chega à beira da albufeira de Castelo de Bode em Aldeia do Mato (Abrantes). Há quem se lembre de ter visto apenas uma única vez o caudal tão lá em baixo e já vão algumas décadas. O nível da água preocupa, primeiro porque não chove e segundo porque mesmo com precipitação começa a ser complicado repor os habituais níveis de água que os turistas encontram no verão. E estamos no inverno, seco, sendo que as regas agrícolas começam em março. Se a “normalidade”, vinda das nuvens, não for reposta, a captação de água, para consumo humano, na Estação de Tratamento de Cabeça Gorda também poderá estar em causa e será um rio de problemas sem chuva à vista.

A albufeira que repousa lá em baixo, vista por quem espreita o rio Zêzere pelo miradouro de Aldeia do Mato, em Abrantes, parece tranquila mas é tudo menos tranquilizadora.

Poucos se lembram de ter visto aquele nível de água, tão baixo que os barcos encalham na lama e as encostas rochosas resumem-se a terra seca com pedras, sem uma única erva pois só este inverno viram o sol, em décadas. Mais de 20 anos, segundo a Agência Portuguesa do Ambiente.

“Na albufeira de Castelo do Bode já foram atingidos valores mais baixos em 2000”, garante a APA ao nosso jornal, ou seja, há 22 anos.

Albufeira de Castelo de Bode em Aldeia do Mato, onde o rio Zêzere apresenta baixos níveis de água, para esta época do ano. Créditos: mediotejo.net

Certo é que Álvaro Paulino não se lembra de nada semelhante, exceto em 1979. O presidente da União de Freguesias de Aldeia do Mato e Souto manifesta-se preocupado com o nível de água do rio Zêzere na albufeira de Castelo de Bode mas reconhece que esta não é uma situação inédita.

“No final da década de 1970, inicio de 80, a água desceu a um nível consideravelmente inferior ao que está neste momento. Mas aí sabíamos que era devido a realização de obras junto à Barragem”, disse ao mediotejo.net.

Agora, há vozes que também falam de obras mas nenhuma intervenção foi oficialmente comunicada à Junta de Freguesia de Aldeia do Mato.

Ao nosso jornal, fonte oficial da EDP, entidade exploradora da Barragem de Castelo de Bode, na produção hídrica de energia elétrica, explicou que “o baixo nível da albufeira de Castelo de Bode resulta do facto do ano hidrológico ter sido, até agora, extremamente seco, não se tendo registado ainda precipitação em volume significativo que permita reforçar o armazenamento de água após o período de verão”.

No entanto, apesar das condições meteorológicas, que contribuem para o atual período seco que o país está a viver, a EDP diz manter “uma gestão eficiente dos recursos hídricos de forma a garantir que nem a produção de energia, nem os usos prioritários da água, sejam colocados em risco”.

Releva, contudo, e apesar dos níveis baixos, que “as albufeiras têm estado acima dos níveis mínimos de exploração definidos nos contratos de concessão e que são monitorizados em permanência. Este trabalho de monitorização das albufeiras está a ser feito de forma articulada entre a EDP, a Agência Portuguesa de Ambiente, a REN e a Direção-Geral de Energia, tendo também em consideração as necessidades energéticas do país”.

Albufeira de Castelo de Bode em Aldeia do Mato, onde o rio Zêzere apresenta baixos níveis de água, para esta época do ano. Créditos: mediotejo.net

Não obstante, para Álvaro Paulino “a situação começa a ser preocupante, não tanto pela água que vamos consumir, atendendo a que a barragem alimenta milhões de pessoa, creio que até à zona da grande Lisboa” mas porque “várias cooperativas das aldeias, até da freguesia, captam a água para rega”.

É certo, ainda estamos no inverno mas “já precisamos dela”, assegura.

Albufeira de Castelo de Bode em Aldeia do Mato, onde o rio Zêzere apresenta baixos níveis de água, para esta época do ano. Créditos: mediotejo.net

Contudo, a grande preocupação do autarca prende-se com o turismo, uma vez que Aldeia do Mato é o ex-libris do concelho de Abrantes no que toca a praia fluvial de excelência. “Se não houver reversão desta situação, vai ter um impacto grande no turismo no próximo verão”, vaticina, olhando o rio do miradouro.

Lá em baixo está a praia fluvial de Aldeia do Mato, deserta, com a piscina a boiar na pouca água que resta, e o ancoradouro ao fundo de um passadiço inclinado de tal forma que não arriscamos percorre-lo, não vá o desequilibro estar com mais sorte do que a abundância de água.

Ao chegar ao parque de estacionamento, também ele vazio de veículos, a vista assusta um visitante desavisado, habituado à beleza de uma albufeira azul quase a roçar o verde das árvores que crescem no serpentear do rio. O Zêzere, definitivamente, já teve dias melhores.

Não é que tal nível de água não tenha acontecido antes, como explicou o presidente da Junta, mas causas que expliquem o fenómeno é que permanecem em aberto.

“Se é apenas falta de chuva ninguém, obviamente, tem de dar explicação, e temos de aguardar que venha chuva. Se o motivo é outro, que desconhecemos completamente, deveriam ser dadas algumas explicações”, considera Álvaro Paulino, até porque tal situação origina “muitas especulações”.

Desde logo “os comentários começam pela produção de energia que tem ocorrido nos últimos tempos. Também se especula que poderá ter a ver com o eventual projeto de instalação de painéis fotovoltaicos na albufeira. Mas oficialmente não sabemos de nada”.

Albufeira de Castelo de Bode em Aldeia do Mato, onde o rio Zêzere apresenta baixos níveis de água, para esta época do ano. Créditos: mediotejo.net

Quanto ao sentimento dos habitantes de Aldeia do Mato, o presidente fala em alarme “precisamente com receio do que possa vir nos próximos meses. Se o ano hidrológico continuar como está, vai ser muito mau para todos”, conclui.

Do lado da Câmara Municipal de Abrantes, o presidente lembra que “nos últimos anos Castelo de Bode, mesmo no verão, tem mantido níveis muito satisfatórios” no que toca a dimensão da bacia hidrográfica do rio Zêzere tendo feito notar que, “na verdade, os níveis de água na albufeira baixaram de forma assustadora”.

Manuel Jorge Valamatos dá conta de ter manifestado a sua preocupação à APA. “Vamos estar atentos nos próximos dias, com esperança que possa chover e que a albufeira de Castelo de Bode possa voltar a ter os níveis normais de água”.

Se a natureza não colaborar com esta esperança de chuva, o presidente considera que “o governo, neste caso particular o Ministério do Ambiente, vai ter de tomar uma posição muito forte”, nomeadamente “medidas preventivas ou antecipar algumas medidas”.

Manuel Jorge Valamatos referia-se à produção hídrica de energia elétrica. “Neste momento a Barragem de Castelo de Bode não deve promover esse tipo de ação, atendendo a que, se os níveis continuam a baixar desta forma, corremos o risco de o abastecimento público de água ser colocado em causa”.

O tempo rapidamente veio dar razão ao autarca e esta terça-feira o Governo deu ordens para suspender a produção hidroelétrica em cinco barragens, por causa dos efeitos da seca meteorológica que está a afetar todo o país, entre elas as do Cabril e Castelo de Bode, ambas no Zêzere, barragens que param de produzir eletricidade a partir da água, para além do mínimo para o equilíbrio do sistema.

Comprovámos, em reportagem, esse rio diminuto. Em certos locais, os barcos aguardam melhores dias para desatolarem da lama que num passado recente era água profunda. E parece impossível que qualquer embarcação possa navegar ali, uma vez que o fundo está à vista. A montante de Aldeia do Mato situa-se Cabeça Gorda, onde está situada uma estação de tratamento de água para consumo humano, com captação, que sem chuva poderá engrossar a lista de problemas provocados pela seca, nomeadamente quanto à qualidade.

“Para já não, não temos razão de preocupação com a qualidade”, garante o presidente da Câmara de Abrantes, dando conta que as análises da água são realizadas de forma regular “quase de minuto a minuto”. No entanto, preocupa, sim, “as questões da quantidade”, particularmente “se os níveis continuarem a baixar de forma drástica e tão acelerada”. Aí, alerta, “podemos ter problemas”.

Manuel Jorge Valamatos, que também é vice-presidente da Comunidade Intermunicipal (CIM) do Médio Tejo, manifestou preocupação com todo o território, para além de Abrantes. “Somos muito poucos, temos de estar todos juntos”, disse, tendo feito notar que “não se nega a água a ninguém. É um bem fundamental para todos”.

ÁUDIO | PRESIDENTE CM ABRANTES, MANUEL JORGE VALAMATOS:

Mas segundo a Agência Portuguesa do Ambiente o caudal ecológico do rio Zêzere não está em causa. “O caudal ecológico e o abastecimento público estão garantidos. A APA está a acompanhar a situação com os principais utilizadores no sentido de promover um uso mais eficiente da água e garantir a reserva de segurança para o abastecimento público e RCE”, assegura.

Acrescenta também, à semelhança da explicação da EDP, que “os níveis na albufeira do Castelo do Bode estão abaixo da média devido ao facto de no presente ano hidrológico não ter ainda ocorrido precipitação significativa que permita repor os níveis de armazenamento após o verão”.

E salienta que “o último trimestre de 2021 se caracterizou por valores abaixo da média em termos de precipitação e superiores à média em termos de temperatura”.

Para a APA “as afluências às albufeiras do Cabril refletem bem esta situação. O regime de exploração hidroelétrico da cascata tem permitido afluências superiores à albufeira de Castelo do Bode do que aquelas que se observam à albufeira do Cabril. As afluências ao Cabril, e consequentemente a toda a cascata, são significativamente inferiores quando comparadas com anos anteriores para a mesma época do ano, refletindo os baixos níveis de precipitação que têm ocorrido”.

Informa também que “o volume total armazenado na albufeira de Castelo do Bode está a 62%, efetivamente um volume inferior ao observado nos últimos anos (em 2017 estava a 71%) e reflete as características meteorológicas do ano hidrológico em curso”, justifica.

Panorama em Dornes, Ferreira do Zêzere. Foto: Carlos Silva

Perante as preocupações públicas de agricultores, ambientalistas e empresários turísticos de Castelo do Bode a APA responde que “a situação está a ser acompanhada e é preciso realizar uma gestão que permita garantir os usos prioritários e a manutenção dos ecossistemas aquáticos na albufeira e a jusante”.

Recomenda “aos setores e todos os cidadãos devem aumentar a eficiência e a poupança da água. Os efeitos das alterações climáticas fazem-se sentir cada vez com maior intensidade e como se verifica não basta construir barragens é preciso que estas encham pelo que a aposta tem de ser sobretudo na eficiência, na utilização de águas para reutilização, diminuindo os volumes de água natural captados”, defende.

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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3 Comentários

  1. Ao jornal mediotejo, que eu até tinha algum apreço, digo o seguinte.
    Eu sei que é mais fácil vender uma mentira ou uma inverdade mas que a mesma nunca será verdadeira, não. Então passemos a factos. No passado ano/mês a barragem de Castelo de Bode, passou para regime de manutenção, tendo isso em conta toda a secção das turbinas foram abertas, não, não é seca estrema como aqui é escrito.
    Antes de vender peixe convém saber alguns factos.
    Sem mais com votos de uma boa continuação Rúben Gonçalves

    1. A classificação de “seca extrema” em que o país se encontra é decretada pelos Ministérios do Ambiente e da Agricultura, com base em dados oficiais do IPMA, não é uma opinião do jornal, e muito menos uma mentira que queiramos veicular…

  2. Com tanta notícia que tem sido veiculada em tudo o que é OCS, estava curioso por ir ver a “desgraça”, passei lá há um par de dias, precisamente pela Aldeia do Mato, estava como a notícia documenta, mas pessoalmente pensava ir ver muito pior.

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