Não tem sido um mandato autárquico pacífico em Abrantes, em que a discórdia e a subida de tom têm vindo a reinar nas reuniões de Câmara Municipal entre o executivo de maioria socialista e os vereadores de oposição. Em mais um momento de altercação e de não entendimento sobre o uso da palavra e o tempo de intervenção no período antes da ordem do dia, o vereador Vítor Moura, eleito pelo PSD, decidiu abandonar a reunião de Câmara desta terça-feira, dia 1 de outubro, por não lhe ter sido permitido voltar a intervir naquele período, classificando de “ditador” o presidente Manuel Jorge Valamatos (PS).

Já se tornou um hábito que as reuniões de executivo camarário de Abrantes tenham extenso período antes da ordem do dia, mas mais ainda que sejam constituídas de momentos de tensão e conflito entre a governação de maioria socialista e os vereadores eleitos pelo Partido Social Democrata e movimento ALTERNATIVAcom.

Quando não são temas concretos a debate, não raras vezes se esgrimem argumentos sobre a postura, a linguagem, o tempo de intervenção a mais ou a menos ou o tipo de questões ou respostas dadas, havendo por vezes situações de confronto que extrapolam o órgão executivo e o círculo político, com intervenções que chegam a tocar o plano pessoal e profissional.

Esta terça-feira, dia 1 de outubro, depois de os vereadores de oposição já terem feito a sua intervenção no período antes da ordem do dia, e após intervenção do vereador Luís Dias (PS) em defesa da Feira Nacional de Doçaria Tradicional sobre a qual Vítor Moura (PSD) havia proferido considerações na sua intervenção inicial tendo voltado a admitir ser contra a realização do certame, eis que tentou novamente tomar a palavra nesse período após as respostas que o autarca Manuel Jorge Valamatos entendeu dar antes de encerrar este ponto e avançar para a ordem do dia (ver transmissão da reunião a partir das 2:12:18).

“O senhor nos pontos da ordem do dia tem tempo mais que suficiente, pode intervir. Já lhe dei tempo suficiente”, começou por dizer o presidente de Câmara, Manuel Jorge Valamatos, referindo que o vereador do PSD já tinha tido o respetivo tempo de intervenção.

“Temos tempos [de intervenção], temos uma ordem de trabalhos também extensa. Já teve o seu tempo. Eu depois percebi que estava a fazer uma intervenção na defesa do vereador Vasco Damas”, indicou, mencionando que se estaria “a perder tempo”.

Por seu turno, e discordando do que fora dito pelo edil, Vítor Moura insistiu em tomar a palavra naquela altura, por querer responder sobre um tema tratado naquele período, crendo não fazer sentido retomar o assunto noutros pontos da ordem de trabalhos, mas Manuel Jorge Valamatos (PS) informou ter esgotado o tempo naquele momento e que a ordem de trabalhos era extensa, entendendo que já se havia perdido muito tempo com intervenções.

Este que tem sido motivo de discórdia entre o vereador do PSD e o presidente de Câmara neste mandato, sobre os tempos intervenção e a gestão da reunião pelo autarca, atingiu um novo patamar com o vereador Vítor Moura a abandonar a sessão mesmo antes de começarem os trabalhos no período da ordem do dia, não tendo por isso participado nas deliberações tomadas nesta reunião.

“O senhor não permite? Sou questionado pelo vereador, e não permite que eu responda. Isto é a democracia que funciona aqui. Simbolicamente, em respeito a todos os que votam no concelho de Abrantes, eu vou-me ausentar desta reunião. Eu não sei lidar com ditadores. Há coisas que têm limite”, terminou Vítor Moura, protestando enquanto reunia os seus pertences e se levantava, acabando por sair do auditório do Edifício Pirâmide cerca das 11h30.

Antes disto, já o verniz tinha estalado, com Manuel Jorge Valamatos a retirar a palavra e a repreender o vereador do PSD pelo uso da expressão “deitar alunos”, quando este se referia ao projeto para criação da nova residência de estudantes na cidade.

“Peço-lhe desculpa, o senhor não volta a usar essa linguagem aqui nesta reunião de Câmara, porque os nossos alunos do ensino superior e todos os outros merecem muito respeito, e é mesmo uma questão de linguagem que eu acho que o senhor não deve utilizar aqui. Não vamos deitar ninguém, modere a sua linguagem, tem essa responsabilidade enquanto vereador de o fazer”, disse, com Vítor Moura a reagir.

“Não é democrata. O senhor é um ditador”, vociferou o vereador social democrata, noutro momento quente desta manhã.

Entre muitas outras razões, as reuniões de Câmara deste mandato ficarão certamente para a História, mais que não seja pela ténue linha que tão facilmente é ultrapassada e que as transforma em verdadeiros campos de batalha, com transmissão ao vivo e a cores e abertas ao público.

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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1 Comment

  1. Se calhar, o mal é querer transformar uma Reunião do Executivo (1) municipal num debate como existe numa sessão Plenária (2) de uma Assembleia ou Parlamento.

    (1) «Que tem capacidade de decidir e executar» in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2024, https://dicionario.priberam.org/executivo.

    (2) «Diz-se de ou assembleia, reunião, etc., em que todos os membros são convocados.
    in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2024, https://dicionario.priberam.org/plen%C3%A1ria.

    Faria sentido um Conselho de Ministros ter na sua composição membros (Ministros) da oposição?

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