Jornadas Sociais em Abrantes refletiram sobre o impacto da Covid-19 na saúde mental. A vereadora Raquel Olhicas. Créditos: mediotejo.net

Os impactos que a pandemia Covid-19 e o isolamento provocaram na saúde mental das crianças, jovens e nas pessoas adultas e idosos estiveram em análise durante dois dias, em Abrantes, no âmbito das Jornadas Sociais. Na sessão de encerramento, a vereadora Raquel Olhicas fez um balanço positivo dos trabalhos, tendo anunciado que a Unidade de Cuidados à Comunidade de Abrantes conta já com “um especialista em saúde mental e psiquiátrica” que recebe os utentes de acordo coma referenciação dos médicos de família.

A saúde mental saiu a perder em todo o mundo devido à pandemia de Covid-19, com estudos em vários países a refletirem o aumento dos índices de medo, ansiedade e depressão nas suas populações. É sabido que o isolamento imposto aos idosos que vivem em lares, por causa da pandemia de Covid-19, agravou a saúde mental, trouxe mais solidão, depressão, tristeza, e alguns casos de desespero.

Como consequências efetivas da pandemia na população os números indicam o aumento de crises de ansiedade e pânico e comportamentos suicidários a afetar todas as faixas etárias, sendo importante saber identificar e não desvalorizar os sinais.

Para reflexão sobre a problemática, os impactos que a Covid-19 e o isolamento provocaram na saúde mental das crianças, jovens, idosos e grávidas estiveram em análise e debate em Abrantes nos dias de quarta-feira e quinta-feira.

No final de mais uma edição das Jornadas Sociais de Abrantes, a vereadora Raquel Olhicas, responsável pelo pelouro de Ação Social, deu conta de um balanço “muito positivo” apesar de reconhecer a “sensibilidade” e “dificuldade” do tema.

Para a vereadora, os participantes nestas Jornadas Sociais, que decorreram no auditório do Edifício Pirâmide, “saem diferentes”. No primeiro dia “tivemos momentos de autorreflexão que nos fizeram mergulhar em nós próprios e termos uma consciencialização sobre os nossos problemas”. Apesar da maioria dos participantes serem técnicos de saúde “saem com uma perspetiva diferente. Foi uma aprendizagem coletiva. Vieram pessoas de Norte a Sul do país e foi uma experiência muito enriquecedora. Aprendemos uns com os outros”.

A escolha da temática deve-se “a ser muitas vezes escondida. A saúde mental ainda é um tabu, têm muito receio de falar sobre isso. Temos dados concretos que a saúde mental está a ser muito agravada tendo em conta a consequência da Covid-19. Optamos por tentar desmistificar um bocadinho a saúde mental”, justificou a vereadora.

Além do isolamento físico e social, como consequências apontou “situações de angústias muito acentuadas, depressões inicialmente não identificadas” mas que, “mais tarde, percebe-se ser uma depressão major porque não foi previamente identificada, a ansiedade típica de não poder contactar com a outra pessoa e têm muito medo da perda”.

Nas faixas etárias mais avançadas Raquel Olhicas exemplificou com casos de idosos impossibilitados de fazer o luto de entres queridos. “Idosos que perderam familiares, filhos, tendo em conta a questão da Covid-19, não se despediram deles. É um problema gravíssimo!”, considerou.

Jornadas Sociais em Abrantes refletiram sobre o impacto da Covid-19 na saúde mental. Créditos: mediotejo.net

Já nas faixas etárias mais jovens relata “dificuldade em adormecer, insónias constantes, perturbações ao nível da alimentação, da atenção cognitiva para o sucesso escolar, porque sabemos que as nossas crianças tiveram de se adaptar às novas tecnologias e ao ensino à distância, e isso também não trouxe fatores positivos”. Ou seja, “situações mais agudas” por falta de prevenção, designadamente esquizofrenia e situações de demências mais agudizadas.

Tal como referiu na sua intervenção de encerramento das Jornadas Sociais, ao nosso jornal Raquel Olhicas insistiu que “o autoconceito é fundamental” como medida de prevenção. Isto é, “conhecer-nos a nós próprios é importantíssimo”. Realizando uma “autorregulação” facilita a adoção de medidas para minimizar situações de stress. “É muito importante trabalharmos nas nossas crianças, desde logo, o autoconhecimento”, defendeu.

Quanto a medidas a nível institucional, no contexto comunitário de Abrantes “queríamos ter psiquiatras – são poucos em contexto hospitalar e a nível comunitário também não são em quantidade suficiente, embora já os tenhamos”, notou.

A responsável deu ainda conta da existência, recentemente implementada, na Unidade de Cuidados à Comunidade “de um especialista em saúde mental e psiquiátrica” que recebe os utentes de acordo com a referenciação dos médicos de família.

“O médico de família quando diagnostica alguma situação de depressão encaminha para a enfermeira especialista que dará continuidade”, explica. Profissionais de saúde aos quais acresce outra “enfermeira especialista a terminar o mestrado. Portanto conseguimos abranger muito mais população do concelho de Abrantes”, notou.

Raquel Olhicas defendeu, no entanto, que a resposta deve ser de âmbito nacional para um problema que é global. Governo e administração central “deverão estar mais sensibilizados para as questões da saúde mental. Não é uma doença física, não é uma perna ou um braço partido e portanto não tem o impacto que devia ter”, nota.

Jornadas Sociais em Abrantes refletiram sobre o impacto da Covid-19 na saúde mental. Créditos: mediotejo.net

Por isso preconiza que a aposta “em mecanismos reguladores de autoproteção” e de “promoção de uma boa saúde mental” deve ser implementada ao nível do pré-escolar para um crescimento mais saudável. Contudo, não basta trabalhar as crianças mas também os pais, uma tarefa que admite “menos acessível” porque “por vezes não assumem algumas problemáticas em casa. Para eles o ambiente é normal. Traduzem e refletem comportamentos como aprenderam nas suas infâncias e portanto não acham anormalidade ao nível de alguns comportamentos”.

Importa sensibilizar e despertar os pais “para alguns tipos de emoções dos seus filhos que podem revelar dificuldades ao nível da saúde mental”. Como? Através de “ciclos de partilhas. Chamá-los à conversa connosco” na Unidade de Cuidados à Comunidade referiu Raquel Olhicas, enfermeira de profissão.

Dá conta que as unidades de saúde “têm uma relação muito próxima com as escolas e as próprias escolas sinalizam algumas crianças com algum tipo de perturbação” quer ao nível da atenção quer ao nível do comportamento.

ÁUDIO | RAQUEL OLHICAS, VEREADORA AÇÃO SOCIAL CM ABRANTES:

A UNICEF já havia alertado em outubro para o impacto negativo e duradouro da atual pandemia na saúde mental das crianças e jovens, num relatório que também denuncia a falta de investimento público nesta área e reivindica uma maior atenção governamental.

Esta é uma das conclusões do relatório global intitulado “A Situação Mundial da Infância 2021 – Na minha Mente: promover, proteger e cuidar da saúde mental das crianças”, divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e que faz uma alargada reflexão sobre a saúde mental das crianças, adolescentes e cuidadores, com uma especial atenção para o último ano e meio, marcado pela pandemia da doença covid-19 e pela nova realidade (com fortes restrições) que esta crise sanitária veio impor à população mundial.

Segundo a UNICEF, a saúde mental das crianças e jovens já era um desafio anterior à pandemia, mas o atual cenário, marcado por diversas perturbações nas rotinas, nomeadamente ao nível da educação e do lazer, veio adensar essa realidade.

De acordo com as últimas estimativas disponíveis, citadas pela UNICEF, calcula-se que, a nível mundial, mais de um em cada sete jovens com idades compreendidas entre os 10 e os 19 anos vivam com um distúrbio mental diagnosticado.

Quase 46 mil adolescentes morrem anualmente de suicídio, uma das cinco causas principais de morte neste grupo etário, aponta a agência das Nações Unidas.

O relatório mostra igualmente que, a nível global, apenas 2% dos orçamentos públicos da área da saúde são atribuídos a despesas com a saúde mental.

Durante a sua intervenção Raquel Olhicas sugeriu ainda práticas de relaxamento, ou seja, “um mergulho nos nossos pensamentos. “No final do dia dedicar uns minutos a nós próprios e refletir o que foi bom e menos bom e em que posso melhorar”.

O objetivo passa pela “aprendizagem, autoconhecimento e mudança de algumas atitudes que identificamos como erradas”, agindo assim como promotores da nossa saúde mental.

O evento anual organizado pela Câmara Municipal de Abrantes, reuniu no Edifício Pirâmide vários agentes sociais, profissionais, parceiros da Rede Social e a comunidade em geral para debater o tema do impacto da pandemia Covid-19 na saúde mental.

Os trabalhos iniciaram com um painel que abordou o impacto da pandemia na saúde mental dos jovens e crianças. E no dia de encerramento esteve em análise o impacto da pandemia na saúde mental das pessoas idosas e das grávidas.

C/Lusa

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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