O professor José Eduardo Alves Jana. Créditos: mediotejo.net

Entre as várias histórias, testemunhos, elogios e até poemas que se ouviram na terça-feira, durante a cerimónia de homenagem promovida pelo Rotary Club de Abrantes ao Profissional do Ano rotário 2021/2022, prendemos a atenção nas palavras ditas por tantos, mas numa frase em particular: “o desacordo é a essência do entendimento”. Proferida por Francisco Lopes, amigo há décadas de José Alves Jana, professor.

Muitos outros amigos, como o historiador José Martinho Gaspar, o também historiador Joaquim Candeias da Silva, o filósofo Mário Pissarra, o padre José da Graça ou a vereadora Celeste Simão recordaram passagens da vida de José Eduardo Alves Jana.

Salientaram o seu percurso profissional que mereceu o reconhecimento dos seus pares no ensino, falaram do homem que “se meteu em todas as coisas de Abrantes”, de ser um “desassossegador”, da sua dedicação ao associativismo, no seu envolvimento na comunicação social e em todas as causas a que se dedicou, sendo por isso um exemplo a seguir e apelaram a que Alves Jana continue a “desassossegar” os seus conterrâneos com alertas atuais como aquele que escreveu na tese do seu doutoramento em Filosofia: “nada está perdido mas nada também está garantido” .

Homenagem do Rotary Club de Abrantes a José Alves Jana. Créditos: mediotejo.net

Professor e formador em vários domínios a título pessoal ou através de organismos públicos ou de empresas de formação, a escola e os alunos marcaram a vida de José Alves Jana, nascido em Lisboa há 70 anos. A sua origem é o Bairro de Alcântara de onde era natural a sua mãe. O seu pai, natural de Mação, era oficial de diligências de Tribunal. Alves Jana reside em Abrantes desde os 7 anos devido à profissão do pai.

Contando 35 anos de docência, nos quais teve de lecionar 20 disciplinas diferentes, esteve na comissão de instalação da Escola Preparatória de Sardoal. Foi colaborador (como voluntário) na comunicação social de Abrantes desde 1969, tendo dirigido vários jornais (Nova Aliança, Gazeta de Abrantes ou Jornal de Abrantes) e a rádio Antena Livre.

Participante no movimento associativo concelhio desde 1973 (Secção Cultural do Pego, Palha de Abrantes e Cres.Ser – Associação de Desenvolvimento Pessoal e Comunitário, entre outras).

Fez parte da ADEPRA – Associação para a Defesa e Estudo do Património da Região de Abrantes, tendo sido diretor do periódico Abrantes: cadernos para a história do município. Em 1995 foi um dos fundadores da associação cultural Palha de Abrantes.

Homenagem do Rotary Club de Abrantes a José Alves Jana. Créditos: mediotejo.net

Presentemente, dirige a Cres.Ser, coordena (há 10 anos) o Clube de Filosofia de Abrantes, dirige o projeto EscritAfricando de apoio a jovens escritores africanos de língua portuguesa através da ONGD Ser Mais valia, onde também participa num programa de reforço de competências em Língua Portuguesa para funcionários dos vários ministérios da Guiné-Bissau.

É associado da Sociedade Portuguesa de Filosofia, publicou vários artigos e participou em inúmeros programas de rádio. E tem 3 livros publicados: ‘Para uma teoria do corpo humano: apresentação e crítica da teoria do corpo humano de Pedro Laín Entralgo’; ‘Pego: direito à memória’; ‘O meu seminário (1963-1974)’.

Naquela que é uma atividade normal na vida rotária, o homenageado considerou a escolha generosa chegando mesmo a afirmar que teria sido “um erro” dirigindo-se aos companheiros do Rotary Club de Abrantes.

Homenagem do Rotary Club de Abrantes a José Alves Jana. Créditos: mediotejo.net

Ao nosso jornal manifestou-se “grato. As homenagens não se merecem, agradecem-se”, disse, enaltecendo “a atitude do Rotary Club de Abrantes de, todos os anos, chamar a atenção para a importância das profissões e dos profissionais. Este ano calhei eu na rifa”, disse, no seu característico tom brincalhão.

Dando, portanto, destaque à atividade de professor, “da importância da profissão docente na construção da sociedade. Olhando à volta, quem quer que olhe, encontraria seguramente muitos outros profissionais merecedores tanto ou mais que eu”, acrescentou.

José Alves Jana confessa que ser professor foi a profissão que escolheu logo em criança. “Ser professor foi qualquer coisa que de alguma forma sempre esteve no meu feitio, no meu espírito. Aquilo que vivi como mais importante foi sempre ajudar os meus alunos a conseguir. É fundamental! No fundo o que tenho feito também fora da atividade docente”, por exemplo no associativismo.

Quanto ao envelhecimento da classe dos professores, um assunto hoje na ordem do dia, Alves Jana diz ter sido “a sociedade portuguesa que se distraiu e não se deu conta, por várias razões, uma das quais do ponto de vista estritamente económico-financeiro, que vão ser precisos novos professores, que estavam a ser aguentados na escola até ao limite da sua resistência e da resistência da substituição da classe docente. E agora estamos ‘despidos no meio da praça’ ou semi-despidos”.

Apesar de reconhecer dificuldades, assegura não ser o mais importante a avaliar, até porque todas as profissões apresentam barreiras para ultrapassar, e ser professor “é uma ótima profissão porque trabalhamos numa das coisas mais importantes do mundo – não é a única – criar recursos humanos, criar gente madura, ajudar a crescer, ajudar a criar pessoas que no futuro vão tomar conta desta cidade, deste país. É uma das profissões fundamentais”.

Para José Alves Jana, apesar de já der deixado o ensino há cerca de 12 anos, o grande desafio passa pela “formação de professores, nomeadamente naquelas que são as competências centrais, nucleares, para ajudar as crianças a tornarem-se homens e mulheres”.

Sobre a sua cidade de Abrantes teceu uma critica aos resultados escolares dos alunos que “deviam ser motivo de preocupação, tanto pública como privada”, opinou.

Homenagem do Rotary Club de Abrantes a José Alves Jana. Créditos: mediotejo.net

Numa cerimónia realizada durante um jantar, na noite de 26 de abril – por janeiro estar ainda este ano condicionado pela covid-19 -, o clube rotário homenageou mais um profissional do concelho de Abrantes que se tem distinguido na sua profissão, tanto a nível local como nacional, desta vez na área do ensino.

O presidente do Rotary Club de Abrantes, Leal Neto, explicou que “nos clubes rotários procuramos conhecer as pessoas e o que elas valem” onde cabem as homenagens a Profissional do Ano, “às pessoas que se esforçam por melhorar a vida de todos à sua volta, para que com elas possamos aprender e juntos possamos trabalhar para deixar este mundo melhor do que encontrámos”. A escolha de Alves Jana como profissional do ano está relacionada com “tudo o que tem feito pela comunidade abrantina”.

Professor José Alves Jana em declarações ao mediotejo.net

O Ano Rotário inicia a 1 de julho e termina no dia 30 de junho e todos os meses do ano têm uma área de enfoque. A do mês de janeiro é dedicada aos serviços profissionais no Rotary. Cabe a cada clube rotário homenagear um profissional da sua comunidade, uma instituição ou uma pessoa que os rotários entendam ser merecedor do conceito da Prova Quádrupla.

Ou seja, sendo o clube um grupo de profissionais trata-se de uma ação que nenhum clube rotário do mundo deixa de praticar durante o mês de janeiro, homenageando alguém que seja reconhecido na sua comunidade como um líder, independentemente do seu grau académico.

Durante a cerimónia, José Alves Jana recebeu das mãos do presidente do Rotary uma placa com o símbolo do clube rotário.

O Rotary propõem-se ser “uma organização internacional dedicada à prestação de serviços humanitários e educacionais, constituída por pessoas que se preocupam, de forma voluntária, em melhorar a qualidade de vida dos seus semelhantes nas respetivas comunidades e em todo o mundo. Uma entidade humanitária a política e sem vínculo religioso, aberta a todas as culturas, raças ou credos”.

Propõem-se ainda “desenvolver projetos comunitários de prestação de serviços, apoia jovens no desenvolvimento da sua educação escolar e profissional e fomenta o companheirismo como elemento capaz de criar novas amizades e proporcionar oportunidades de servir de acordo com o lema Rotary: Dar de si antes de pensar em si”. O lema deste ano rotário de 2021/2022 é: “Servir para transformar vidas”.

Homenagem do Rotary Club de Abrantes a José Alves Jana. Créditos: mediotejo.net

Na cerimónia estiveram presentes diversas individualidades nomeadamente a vereadora Câmara de Abrantes, Celeste Simão, que deu ênfase ao facto desta homenagem contribuir para a valorização da profissão de professor.

A homenagem contou também com entrega de dois diplomas; um a João Paulo Rodrigues no âmbito de uma palestra realizada via zoom, e outro a Zeferino Pereira, por mérito relativo a uma bolsa de estudo. E ainda com dois momentos de poesia de António Botto e um momento musical.

Homenagem do Rotary Club de Abrantes a José Alves Jana. Créditos: mediotejo.net

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.