A revista de história local Zahara assinala 20 anos de escrita ininterrupta, contando já com 39 números publicados, que foram saindo semestralmente. Foto: Paulo Jorge de Sousa

Foi feito um apelo e um agradecimento, a todos os que têm acreditado no projeto e que o têm alimentado e contribuído para a sua longevidade. Mas por outro lado, também foi deixado o desafio a novos colaboradores, nomeadamente pessoas jovens, que possam vir acrescentar novas nuances e dinâmicas ao grupo que tem feito parte da Zahara ao longo de duas décadas.

ÁUDIO | JOSÉ MARTINHO GASPAR, DIRETOR DA REVISTA ZAHARA:

Entrevista a José Martinho Gaspar, coordenador da revista Zahara e do Centro de Estudos de História Local de Abrantes

O custo tem-se mantido fixo, no valor de 5 euros, e por isso “tem sobrevivido à inflação”. A caminho do nº 40 e dos 20 anos de existência, o mais recente número conta com o MIAA na capa, ilustrando o artigo escrito pelo historiador e professor José Martinho Gaspar.

Foto: mediotejo.net

Fala na requalificação do Convento de São Domingos, e na instalação do Museu Ibérico de Arqueologia e Arte de Abrantes, tratando-se da reconversão de um emblemático e histórico edifício da cidade.

Participa também Teresa Aparício, que habitualmente assina artigos relativos a profissões em vias de extinção, recolhendo testemunhos e memórias. Desta vez, e após já ter escrito sobre capadores, lavadeiras, latoeiros… seguiram-se os barqueiros. Fala do último barqueiro de Constância, Sérgio Silva, que mantém atividade no Tejo ligando a margem sul e a margem norte. Também aborda a Barca da Amieira, que foi reposta, e os testemunhos que trouxeram recordações do Ti Vitorino, responsável pela travessia entre Alvega e Ortiga e vice-versa. Recorda-se ainda o barqueiro de Rio de Moinhos.

Teresa Aparício acrescentou ter encontrado outro testemunho, relativo à Barca do Pego – daí a toponímia da localidade – sendo que o último barqueiro dali se chamava Ti Chico.

Um dos artigos do nº39 da revista Zahara é sobre os antigos barqueiros da região, caso de Vitorino Fernandes, o mítico barqueiro que unia as margens de Alvega e Ortiga. Foto: mediotejo.net

Aqui, João Filipe, de Ortiga, partilhou memórias sobre o Ti Vitorino Fernandes, natural de Mouriscas. Consta da memória das populações, nomeadamente dos jovens que tinham de vir estudar até ao Externato em Alvega.

Referiu que, naquela época, “o rio unia, não separava” e que as barcas de passagem tinham influência nisso. Lembrou que diariamente, a todas as horas, fizesse chuva ou sol, Vitorino Fernandes fazia a passagem entre as margens.

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Gritava-se “Oh Ti Vitorino!”, e do outro lado ouvia-se um “Lá vou!”, restando esperar pela chegada da barca.

João Filipe, natural de Ortiga e ex-aluno do Externato de Santo António, de Alvega, recorda a passagem para o outro lado. Lembra os 15 ou 20 miúdos que ali se orientavam para ir estudar.

“O Ti Vitorino respeitava o rio, mas o rio também respeitava o Ti Vitorino”, disse, acrescentando que não houve um único acidente registado que envolvesse aquela barca.

Recordou ainda, com saudade, quando em altura de cheia os jovens forçavam o barqueiro para seguir viagem, indo para a escola de barca, subindo a ribeira adjacente à escola e entrando com a embarcação na entrada principal do externato; ali faziam a festa, numa entrada diferente do habitual.

Também José Rafael Nascimento, que residiu na cidade das Caldas da Rainha durante oito anos, recordou a relação entre essa cidade e Abrantes; recordando que há uma Rua Cidade das Caldas na cidade abrantina, e que nas Caldas da Rainha há uma Rua Cidade de Abrantes.

Tudo se deveu a uma relação que seria um género de geminação ou intercâmbio, numa relação institucional e social, e que foi amplamente relevada pela imprensa à altura, nomeadamente pelo Jornal de Abrantes.

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Esta relação foi bastante valorizada, sendo que Diogo Oleiro terá escrito que “está Abrantes no coração das Caldas e as Caldas no coração de Abrantes”, desejando que “assim seja para todo o sempre”. Recorda-se até que terá sido um empresário abrantino, José Peres, que terá inspirado o artista Bordalo Pinheiro, das Caldas da Rainha, a produzir o afamado “Zé Povinho”. José Rafael Nascimento desafia que se retome esta ligação de outrora.

Fala-se também na Biblioteca Pública de Sardoal, num artigo assinado pela bibliotecária Dulce Figueiredo, sendo que a biblioteca assinala 25 anos de existência.

Também do Sardoal, Mário Jorge de Sousa retoma a história da ex-Rua Simões Baião, recuperando a memória dessa rua nos anos 50/60. Disse ter sido ali que lhe nasceram alguns dos irmãos, e onde inclusive o pai instalou a sua tipografia.

Do concelho de Gavião, o médico Jorge Branco traz a história da reativação do Clube Castelanense, com 72 anos de história em Castelo Cernado/Comenda. Foi fundado em 1950, sendo que um dos fundadores mais entusiastas foi o Prof. Monteiro – falecido este ano aos 95 anos. Deu aulas durante 40 anos naquela terra.

O clube, um dos mais antigos do Gavião, marcava pela diferença nomeadamente pelo futebol, ping pong e teatro amador.

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Inclui-se a história da fundação, cruzada com os estatutos antigos, e com isto conseguiu agora, com 20 sócios, reerguer esta coletividade desde 2021. As atividades têm sido essencialmente culturais.

Também do Alto Alentejo, Carlos Grácio traz um artigo sobre a cozinha tradicional de Belver, com as suas especificidades do Aquém-Tejo e junto da Beira Baixa.

Mantém caraterísticas do Alentejo, mas também tem influências pela passagem do rio Tejo de onde ressalta a lampreia e a sopa de peixe. Por outro lado, os maranhos ali são confecionados de forma diferente. E no que toca aos doces, as cavacas são inspiradas nas fofas de Mação. Há também hábito para confecionar as tigeladas em tigela grande de barro, uma influência claramente beirã.

Outro tema prende-se com Martins Júnior, republicano de São Miguel do Rio Torto, e que segundo o autor tem uma história de vida que “dava um excelente filme”.

Joana Margarida Carvalho recuperou a tradição e a história da salsicharia MF, de Rio de Moinhos, onde a charcutaria assume especial preponderância, pela tradição na localidade e um pouco por todo o concelho. Chegavam a vir pessoas de outras localidades trazer os porcos para desmanchar e fazer carne e enchidos naquele local.

Os 500 anos da morte de D. Manuel I, o rei que mais tempo residiu em Abrantes, estão plasmados no artigo assinado por Joaquim Candeias da Silva.

De Queixoperra, Lurdes Vicente e Vasco Marques trouxeram um artigo de reflexão sobre a importância do tratar da terra e de cultivar, especialmente numa altura em que assiste à Guerra na Europa e se anuncia uma crise e inflação que terá impactos no acesso a determinado abastecimento de produtos e matérias-primas.

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Já José Alves Jana, filósofo, escreveu dois textos um sobre a dimensão humana da Guerra e a importância dos arquivos para preservar a memória e história para as gerações vindouras, que estão desligadas de uma temática que se vai afastando cada vez mais. Exemplo disso, a Guerra Colonial em África e o impacto e memórias que ficaram na população que lá esteve e nos familiares que cá ficaram à espera, em Portugal.

Sobre a importância do papel arquivístico, um outro pequeno texto com anexos que remetem para a importância de recolher e tratar objetos, “papéis”, exemplares de outros tempos que possam ajudar a compreender projetos ou acontecimentos antigos. Exemplo disso, uma capa antiga das primeiras Jornadas Pedagógicas de Abrantes, realizadas na então Escola Secundária nº2, em 1986. Ou a obra “O Romance de uma Tricana”, de Solano de Abreu, editada em 1929.

Na ocasião estiveram presentes autarcas dos concelhos de Mação, Abrantes e Sardoal, Vasco Marques (vereador CM Mação), Miguel Borges (presidente CM Sardoal) e Manuel Jorge Valamatos e Luís Dias (presidente e vereador da CM Abrantes, respetivamente).

Relevaram o papel deste projeto e pronunciaram-se sobre os caminhos que ainda precisam ser percorridos nos seus territórios para a preservação e valorização do património local, guardando memórias que possam ser transmitidas aos mais jovens e que, com isso, possam dar continuidade ao que foi feito no passado ou, pelo menos, não deixar que caia em esquecimento.

A revista semestral, cujo caminho continua a ser trilhado desde 2003, é recetiva ao contributo de todos, desde que os trabalhos se enquadrem nas temáticas que a envolvem, e sai normalmente entre junho/julho e em novembro (por ocasião das Jornadas de História Local, em Abrantes), sendo pensada uma data limite para entrega de trabalhos para quem quiser colaborar com trabalhos ligados à antropologia, história local, sociologia, quotidiano e etnografia.

A revista Zahara pode ser adquirida nos pontos de venda habituais, nomeadamente no edifício Sr. Chiado, junto dos membros do CEHLA, na Biblioteca Municipal de Abrantes e no Espaço ‘Cá da Terra’ em Sardoal. Pode ainda ser contactada a equipa através da página de Facebook da Revista Zahara.

Foto: mediotejo.net

Joana Rita Santos

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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