Abrantes relembra Mário Rui Cordeiro, o poeta desassossegado. Foto: CMA

O MIAA – Museu Ibérico de Arqueologia e Arte de Abrantes, acolheu na terça-feira, 28 de outubro, a sessão de apresentação do livro “New York Central Parque”, de Mário Rui Cordeiro. O artista, falecido em 2016, era livros, era desassossego, era pintura, era ruas floridas, era Abrantes.

A apresentação do livro esteve a cargo do editor José Antunes Ribeiro, de Hugo Beja, poeta, pintor e homem de ciência e de Hélder Paulo Tiago, pintor, poeta e amigo do artista e contou ainda com a presença do vereador da Cultura da Câmara de Abrantes, Luís Dias.

Esta apresentação decorreu no âmbito da exposição Malas Artes de Mário Rui Cordeiro, patente no MIAA até 15 de março de 2026.

Abrantes perdeu em dezembro de 2016 uma das suas referências artísticas e culturais. Muito debilitado fisicamente, nos últimos anos de vida, os locais que frequentava notaram a sua ausência nos últimos dias. Os bombeiros foram encontrá-lo à noite, em sua casa, sozinho, já cadáver, na cidade florida e por si pintada.

Tinha 66 anos [nasceu em Santa Margarida/Constância no dia 28 de outubro de 1950]. Poeta, pintor, desenhador e encadernador, o Mário Rui Cordeiro era desassossegado e desassossegador.

Nas palavras de Estevão de Moura, na pequena edição intitulada “C’est triste la vie de l’artiste” retrospectiva de Mário Cordeiro, de 1982: “Escrever sobre ele, como Protagonista, é o mesmo que escrever sobre a cidade em que ele, em vagas sucessivas, criou e destruiu (criativamente) a sua imagem… O Mário Rui foi um Protagonista da cidade.”

Ou na leitura de José-Alberto Marques: “Um artista não tem um nome definitivo, ou antes: nomeia-se um artista através da vida e da expressão, no acumular diário de sinais e raiva, de textos e anos, desenhos e ódio.”

Ou pela pena do próprio Mário Rui Cordeiro, in Central Park:

“Trata-se de um pequeno território dum mundo que certamente não existe. A força é uma catedral entre laranjais. Escrevam sobre isto, dizem. E nós escrevemos para disfarçar uma impossibilidade. Depois chegam as coisas que andam connosco pelos caminhos e os que são tristes sorriem e os alegres choram.

Assim se cumpre a nossa inclinação para o que é magnífico. Somos frios, às vezes somos também os que sabem os nomes mais serenos: água, fogo, ternura. Esta noite podia ser um século de força na nossa vida. Será numa noite destas que acenderemos os archotes aos amigos que partem. Vão sós. É assim o silêncio. Então aprendemos a dar importância à nossa primeira descoberta e o mundo inteiro estabelecerá que se deve falar disto ou daquilo.

E numa noite destas procuraremos pelas ruas a palavra porque partimos e chegamos e os nossos braços buscarão a distância. Falar-se-á dela sempre que se necessitar de um objecto batido pela luz. Uns dirão: é o sol e o mar. São algas e bichos. Outros: é um nome.

Será uma coisa destas – digo eu e paro de escrever, porque escrever pesa-me imenso.”

Mário Rui Cordeiro, in Central Park

Mário Rui Cordeiro nasceu em Santa Margarida/Constância no dia 28 de outubro de 1950. Cedo adotou Abrantes como a cidade da sua vida. Foto: DR

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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