Com foco na inclusão, na capacitação através da arte e no trabalho em rede, o encontro deu palco à partilha de projetos, experiências e estratégias que têm vindo a transformar a resposta local a problemáticas como o autismo, défice de atenção ou dificuldades motoras. A sessão de abertura contou com intervenções de representantes da Subcomissão Regional de Lisboa e Vale do Tejo, da Câmara Municipal de Abrantes, da ULS Médio Tejo, dos agrupamentos de escolas do concelho, do CRIA e da Santa Casa da Misericórdia de Mação.
A vereadora da Câmara Municipal de Abrantes, Raquel Olhicas, reforçou o papel da Equipa Local de Intervenção (ELI) na promoção de melhores práticas na intervenção precoce com crianças dos 0 aos 6 anos. Após a sua intervenção e em declarações ao mediotejo.net, sublinhou o crescimento significativo do programa: dos cerca de 40 casos atendidos em anos anteriores, a intervenção passou a acompanhar mais de 120 crianças no concelho de Abrantes e na zona de Mação.

Raquel Olhicas destacou que o sucesso do trabalho da ELI está diretamente relacionado com o diagnóstico precoce, afirmando que um diagnóstico realizado ainda na primeira infância permite tratamentos mais eficazes e direcionados, em áreas como psicologia do desenvolvimento, neuropsicologia e trabalho em rede interinstitucional. A vereadora acrescentou que, embora intervenções tardiamente implementadas sejam úteis, “as consequências não são tão terapêuticas” quanto as realizadas precocemente.
Em declarações ao nosso jornal, destacou também a visibilidade promovida pela realização dos encontros. O primeiro, em Mação, dedicado à intervenção nos contextos infantis; o segundo, em Sardoal, focado na aprendizagem e no brincar em contextos de neurodiversidade, momento em que foi assinado um protocolo de colaboração entre o município de Abrantes e a ELI, que formalizou as condições de articulação institucional e operacional em torno da intervenção precoce em Abrantes.

A vereadora vincou ainda o papel da equipa multidisciplinar presente, e enalteceu a resposta e resiliência dos pais, que considerou “o pilar central de todo o processo”. Recordou também o projeto de desporto inclusivo, uma iniciativa inovadora do município abrantino destinada a crianças com necessidades especiais.


Raquel Olhicas referiu que as principais problemáticas sinalizadas no âmbito da intervenção precoce em Abrantes são o espectro do autismo, transtornos cognitivo-comportamentais, défice de atenção e dificuldades motoras. Nesse contexto, destacou o trabalho articulado com a consulta hospitalar de Tomar e a rede da ELI, que assegura encaminhamentos e respostas especializadas para estas crianças.
Para a vereadora, o trabalho em rede, envolvendo escolas, saúde, famílias e comunidade, é o que torna os resultados da intervenção precoce verdadeiramente “significativos e gratificantes para as crianças, famílias e comunidade”.
O Subcomissário Regional Pedro Caldeira, também pedopsiquiatra, salientou a importância de integrar princípios da saúde mental na intervenção precoce, acrescentando que a aprendizagem é um processo contínuo, que acompanha crianças e adultos ao longo da vida. Durante a sua intervenção, referiu que se aprende na observação, na discussão de casos, na escuta ativa e no contacto direto com as crianças e que é essa aprendizagem constante que deve guiar os profissionais.

Pedro Caldeira alertou para a necessidade de trabalhar com base na dúvida, e não em certezas absolutas, sublinhando que a complexidade do desenvolvimento infantil exige abertura a diferentes interpretações e modelos.

Segundo o especialista, “a dúvida pode ser desconfortável, mas procurar certezas absolutas é, muitas vezes, contraproducente.” Acrescentou ainda que o elemento diferenciador na intervenção precoce deve ser o verdadeiro interesse pela criança individual, sendo a relação construída quando a criança percebe que o adulto está genuinamente empenhado em compreendê-la.
A diretora do Agrupamento de Escolas nº2 de Abrantes, Isabel Alves, começou por sublinhar a “alegria” de ver reunidos tantos profissionais e instituições com um objetivo comum: promover o crescimento harmonioso das crianças desde os primeiros anos de vida.
Durante a sua intervenção, sublinhou que esse desenvolvimento depende da ação de cada um, dos técnicos, das instituições e de todas as pessoas que se dedicam diariamente às crianças, mas também das famílias, que considerou “parceiros fundamentais” e cuja resiliência fez questão de enaltecer.
A diretora realçou a intervenção precoce como um fator decisivo para o futuro das crianças, permitindo potenciar as suas capacidades, minimizar dificuldades e abrir caminho a percursos de vida mais positivos.

Inspirando-se no tema do encontro – “Capacit’ARTE – Isabel Alves propôs uma leitura dupla da palavra “arte”, sugerindo que, para além de representar a capacidade técnica e humana de capacitar, pode também ser entendida como meio e linguagem de desenvolvimento. “Podíamos também pensar em capacitar através da arte”, afirmou, sublinhando o papel das expressões artísticas como ferramenta poderosa no estímulo ao desenvolvimento motor, cognitivo e emocional das crianças.
Nesse sentido, deu a conhecer dois projetos implementados no agrupamento que dirige: o EducARTE, que promove a educação pela arte no pré-escolar e 1.º ciclo, e o mais recente ReinventARTE, que propõe novas abordagens pedagógicas sem descurar o potencial da dimensão artística. Segundo a diretora, estes projetos vão ao encontro da filosofia do encontro e mostram como é possível “reinventar a forma de ensinar e capacitar crianças e profissionais com base na arte”.
A diretora frisou que este dia era dedicado às crianças, aquelas que, diariamente, desafiam, inspiram e mobilizam os profissionais para um trabalho mais atento, humano e colaborativo. Realçou também o papel determinante da ELI na vida das escolas, nomeadamente no Agrupamento de Escolas nº1.


Segundo Ana Rico, essa colaboração tem permitido não só dar respostas mais eficazes às necessidades das crianças e das suas famílias, como consolidar práticas de trabalho em rede, assentes na confiança e na ação conjunta. Destacou ainda o impacto direto desta articulação na atividade diária de professores e educadores, reforçando a importância de uma intervenção coordenada e sensível ao contexto.
Referindo-se ao tema do encontro, Ana Rico fez questão de dar uma interpretação pessoal, ligando-o à sua própria formação nas artes. Para a diretora, a arte deve ser vista como uma linguagem universal e uma poderosa ferramenta de desenvolvimento e inclusão. “Capacitar com arte é criar oportunidades de expressão, descoberta e crescimento, respeitando sempre a individualidade de cada criança”, afirmou.

A enfermeira Maria José Mota, em representação da ULS Médio Tejo, destacou a importância de uma abordagem centrada na valorização da individualidade de cada criança no contexto da intervenção precoce. Defendendo que “ser capaz é uma arte”, sublinhou que a missão dos profissionais é ajudar cada criança e cada família a atingir o seu potencial máximo.
Maria José Mota começou por destacar o conceito de capacitação como um processo profundo, que vai muito além da simples aquisição de competências. Segundo afirmou, capacitar é “fazer emergir o melhor de cada um”, respeitando as especificidades, as singularidades e as diferenças de cada ser humano. “O ser humano é uma obra de arte magnífica, maravilhosa, que devemos estimar, ajudar a crescer e a desenvolver-se”, afirmou, alertando para a tendência atual de, por vezes, desvalorizar essa dimensão.

A representante da ULS frisou que esta visão humanista deve estar na base de todo o trabalho realizado por educadores, profissionais de saúde, terapeutas e técnicos da área social. Um trabalho que, acredita, só pode ser bem-sucedido se for feito em rede, com sensibilidade, compromisso e clareza de propósito.
Referindo-se à importância da referenciação precoce, Maria José alertou para a necessidade de uma maior atenção no momento de sinalizar crianças com necessidades de desenvolvimento. Sublinhou que, embora a referenciação não garanta por si só resultados absolutos, é decisiva para assegurar respostas mais rápidas, eficazes e adequadas. “O sucesso deste trabalho está diretamente relacionado com a precocidade”, reforçou.



O presidente do CRIA – Centro de Recuperação e Integração de Abrantes, Vítor Moura, abordou os desafios estruturais e políticos que envolvem as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), destacando que estas organizações surgem para complementar, muitas vezes, o trabalho que o Estado deveria garantir.
O presidente explicou que as IPSS, como o CRIA, têm na sua génese o papel de colmatar falhas do sistema público, atendendo a necessidades sociais que permanecem por resolver, sobretudo no apoio a pessoas com deficiência. Nas suas palavras, a existência e a sustentabilidade destas instituições dependem fortemente da participação cívica e do “sentimento de amor ao próximo”, pois, ao contrário de outras organizações públicas, não dispõem de nomeações formais ou formação específica para os seus dirigentes.

O presidente alertou ainda para o facto de que a gestão das IPSS exige competências financeiras e de gestão complexas, uma vez que os recursos são limitados e dependem de atualizações e financiamentos que muitas vezes não acompanham as necessidades crescentes das respostas sociais.
Vítor Moura destacou a importância do trabalho da equipa do CRIA, que há cerca de 20 anos assegura serviços essenciais no âmbito da intervenção precoce, e que tem conseguido manter um padrão de qualidade, apesar das limitações e desafios impostos pela falta de recursos e apoios institucionais adequados.
Francisco Corga, representante da Santa Casa de Misericórdia de Mação, destacou o papel fundamental da instituição na intervenção precoce no concelho, atividade que a Santa Casa assume desde 2008. De acordo com o orador, a instituição está empenhada em promover o desenvolvimento das crianças da região, acreditando que a forma como acolhem e intervêm junto das crianças e suas famílias pode transformar realidades e construir futuros mais inclusivos.
Atualmente, a equipa da Santa Casa em Mação acompanha em média 25 crianças e seus familiares. Além da intervenção precoce, Francisco Corga salientou que a Santa Casa possui outras valências importantes, como creche e ERPI, reforçando o trabalho social que a instituição desenvolve no território.

No discurso de abertura do encontro dedicado à intervenção precoce, Francisco Corga reafirmou o compromisso da Santa Casa com a qualidade dos serviços prestados e expressou a sua gratidão a todos os profissionais que diariamente dedicam esforços neste caminho de inclusão.

Para além do reconhecimento às equipas, deixou uma palavra especial às famílias que acompanham este percurso, destacando a importância da parceria e da proximidade no sucesso do trabalho desenvolvido.
O programa da manhã prosseguiu com o Painel 1, moderado por Celeste Simão, Vereadora da Educação da Câmara Municipal de Abrantes, tendo reunido profissionais da ULS Médio Tejo, que partilharam estratégias de sinalização precoce e acompanhamento de casos. A sessão contou também com a intervenção da nutricionista Elisa Costa, que abordou os desafios da seletividade alimentar em crianças.
Durante a tarde, o Painel 2 promoveu um momento de diálogo com educadoras de infância, refletindo sobre os desafios e boas práticas nos contextos pré-escolares. O encontro terminou com uma mesa reflexiva, que reuniu representantes da Subcomissão Regional, autarcas e responsáveis de projetos educativos e inclusivos da região.



