Projeto pioneiro em Abrantes visa a inclusão pela prática desportiva. Foto: CMA

O programa municipal de Abrantes “Desporto para Todos” inclui práticas de promoção da atividade física e da psicomotricidade para crianças portadoras de deficiência, portadoras de um grau de incapacidade igual ou superior a 60%, e sejam residentes ou frequentem as escolas do concelho. O projeto responde a uma necessidade dos pais que não conseguem respostas para as crianças até aos seis anos de idade. O programa está a ter resultados positivos e todos querem ir mais além.

A iniciativa é composta por três áreas de intervenção: a natação, a psicomotricidade e a hipoterapia. A natação realizada uma vez por semana, onde os alunos realizam um conjunto de atividades aquáticas adequadas e que permitem melhorar os níveis de coordenação motora, do equilíbrio e da lateralidade.

A psicomotricidade, realizada também uma vez por semana, contribuindo para que os mais novos tenham consciência e autodomínio do próprio corpo, do equilíbrio, da orientação espacial e temporal, da capacidade de comunicação e exteriorização do pensamento e da regulação das suas emoções nos diferentes contextos sociais.

O projeto integra ainda a hipoterapia, realizada na periodicidade quinzenal e que recorre aos movimentos do cavalo para a (re) educação terapêutica.

A singularidade do programa reside no facto de o trabalho ser realizado na metodologia de um para um. Todas as aulas são de acompanhamento individual, ou seja, um professor trabalha com um aluno, sendo que é responsabilidade do município de Abrantes investir na formação específica dos professores envolvidos neste Programa Municipal de Desporto para Todos.

O vereador com o pelouro do Desporto na Câmara de Abrantes, Luís Correia Dias, disse ao mediotejo.net que o projeto ‘Desporto para Todos’ assenta na inclusão e na integração, sendo um programa que começou com sete crianças e que hoje trabalha com 22, apoiadas por 15 técnicos.

Em entrevista, o vereador responsável pelo Desporto faz um ponto de situação da evolução de um projeto que parte da atividade física para uma dimensão social de enorme relevância.

Luís Correia Dias, vereador com o pelouro do Desporto na Câmara de Abrantes

mediotejo.net – Como olha hoje para este projeto, dois anos depois de ter começado, até que ponto é diferenciador numa lógica de ‘desporto inclusivo’, e como vai ser em 2024, tendo em conta a sua importância para a comunidade?

Luís Dias – Bem, em primeiro lugar, obviamente que sim, que é um projeto (e muito obrigado pela oportunidade), de desporto para todos, neste caso concreto. É um verdadeiro programa municipal de desporto para todos, porque tem esta dimensão da inclusão, mas tem obviamente esta dimensão da integração. Ele foi apresentado em finais de setembro de 2022, na altura com o apoio da Federação Portuguesa de Desporto Para Pessoas Com Deficiência. E tem exatamente a ideia, este principal objetivo, a promoção da igualdade de oportunidades. Neste caso, igualdade de oportunidades motoras a crianças portadoras de necessidades especiais, para que se pudesse potenciar práticas de promoção aqui da atividade física, e também da psicomotricidade para crianças com aquelas idades compreendidas entre os 2 e os 6 anos, porque são aquelas que não estão dentro deste apoio inclusivo que há para quem já está dentro do próprio primeiro ciclo.

E, portanto, a ideia foi essa. Tentámos mapear junto da divisão de desenvolvimento social, quem é que eram as crianças que tinham este tipo de perfil, aquelas que não estavam institucionalizadas, e que estavam ainda com os pais. Conseguiu-se mapear, fazer um apanhado das pessoas que estavam compreendidas nestas idades, e depois começou-se a dividir o projeto. A ideia foi esta, começarmos com três projetos. Neste caso concreto, a natação inclusiva, a hipoterapia e a psicomotricidade. A hipoterapia também com o apoio, no início, da Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes, e do Regimento de Apoio Militar de Emergência, na questão da psicomotricidade, com profissionais dedicados (…) E a natação inclusiva, de maneira que complementava aquilo que já se faz na Escola Municipal de Natação. E, portanto, envolve neste momento 13 profissionais, que neste momento provavelmente se calhar até já são 15, com formação específica na respetiva área de atuação, quer a natação inclusiva, quer a psicomotricidade, quer as questões da hipoterapia.

Quantas crianças iniciaram o projeto e quantas estão neste momento, em 2024?

O projeto destina-se a crianças residentes ou estudantes no concelho de Abrantes, com idades até aos 6 anos, e que têm de ter esta particularidade, que é ter o grau de incapacidade igual ou superior a 60%. E, portanto, no ano letivo de 2023/24, que é este que nós temos, o programa teve início agora em setembro, portanto, no dia 20 de setembro, e conta presentemente com 22 participantes. E, portanto, aquilo que procuramos fazer, é ter aulas personalizadas, dedicadas, para estes 22. Para nós, o ideal era não ter nenhum, não é? Mas, efetivamente, aquilo que vamos percebendo é que, de facto, os pais, os tutores, precisam de uma resposta que, neste caso concreto, nem a Administração Central, nem as instituições particulares, nem outras, contavam resposta a estas necessidades (…) No início, em 20 de setembro de 2023, eram 18, e hoje são já 22, portanto já temos mais 4 do que tínhamos há 3 meses. Mantemos os profissionais a trabalhar, e estamos também aqui a estreitar com o Clube Náutico, no âmbito da Escola Municipal de Natação, para perceber se temos condições no que diz respeito, sobretudo, às questões da natação e à psicomotricidade de conseguirmos continuar a trabalhar com aqueles que hoje já não têm 6 e têm 7 anos, e continuam a precisar do apoio deste programa do Abrantes Inclusivo.

Quando fala em 22 crianças acompanhadas por 15 profissionais…este é o limite da capacidade do município ou é a resposta a toda a gente que procura o programa?

Nós neste momento temos procurado dar resposta a todas as pessoas que nos procuram. Agora sabemos que tem de haver sempre uma avaliação social prévia, porque cada criança tem a sua especificidade, e depois no âmbito da própria avaliação psicomotricional (…) a ideia é irmos avaliando e perceber se temos capacidade de resposta. Até agora temos conseguido garantir, com profissionais habilitados, dar essa capacidade de resposta. É um regime de apoio individual, e, portanto, temos conseguido dar essa resposta agora aos 22 que temos.

E quais são os grandes desafios que se levantam ao projeto e pedia-he uma leitura do mesmo.

Isto é uma leitura sempre muito emocional, não é? Quando nós vemos a evolução que uma criança com grande défice cognitivo e motor que consegue sorrir perante o monitor que está a trabalhar com ela na água, e vermos os próprios pais e percebermos através das lágrimas de felicidade a evolução que cada um vai tendo. Obviamente que isto é sempre bom, é sempre um processo bastante emocional. Aliás, isto é uma vitória todos os dias, quer para os pais, quer para os profissionais que estão a trabalhar com eles. E depois perceber também o grau de evolução que vamos tendo, sobretudo daqueles que começaram o ano passado, e são vários os casos que estamos a acompanhar em permanência, porque de facto começa-se a notar claramente um grau de evolução muito grande. Até na própria relação social, não só com os pais, mas com aqueles que na altura eram perfeitos desconhecidos, e que hoje são amigos para a vida. Portanto, é um projeto claramente emocional, e é imprescindível. Bom, bom era que pudesse ser replicado pelo país todo.

Projeto pioneiro em Abrantes visa a inclusão pela prática desportiva. Foto arquivo: Jéssica Filipe/mediotejo.net

Com os pais ao verem esta evolução dos seus filhos, e havendo a idade limite dos 6 anos, pressionam de alguma forma a autarquia a alargar o projeto para os filhos poderem continuar?

Pressionam muito, porque percebem que isto é um ensino não formal, mas é um ensino não formal direcionado e, portanto, que é particular. Todos os planos de aulas, todos os planos das ações são direccionadas para cada uma das crianças e, obviamente, quando chegamos aos 6 anos, e percebemos que estamos a atingir o limite de idade, pressionam-nos. ‘Porque é que não há para os 7?’, e temos tido muitos reflexos ‘porque não há para os 10 anos e para os 12 para os 14?’.

Porque efetivamente, quando falamos de crianças institucionalizadas, vai havendo respostas. E todas as outras que não estão institucionalizadas? E aquilo que vamos procurando fazer é, através dos diagnósticos sociais, saber se temos capacidade para ir dando resposta àqueles casos específicos. E estou a falar claramente daqueles que estão já devidamente diagnosticados com a tal incapacidade igual ou superior a 60%, o que já revela muita debilidade do ponto de vista das aprendizagens, não é? Mas é de facto, é um projeto muito, muito sensível, e muito particular.

É um projeto que veio para ficar?

Seguramente, sim, porque é um projeto altamente distintivo, que queremos também manter sem grande alarido. Mas efetivamente basta perceber a alegria dos pais e dos jovens, das crianças que estão, neste caso, a frequentar o Abrantes Desporto Inclusivo.

Para 2024 ou para o futuro a breve ou médio prazo, quais são os grandes desafios que se levantam neste projeto, ou objetivos que pretende alcançar no âmbito do mesmo?

Para já, do ponto de vista até da própria tutela, quer dizer, existe uma Federação Portuguesa, que tinha uma intenção de replicabilidade, e nós temos muitos outros projetos de desporto inclusivos. Por exemplo, aquilo que vamos fazendo, quer com o Centro de Recuperação e Integração de Abrantes, no que diz respeito aqui às questões do desporto adaptado e ao desporto para pessoas com deficiência…  os casos de sucesso que temos no Boccia… E estamos a entrar no ano Olímpico e, portanto, temos aí também a questão dos paralímpicos. A ideia é perceber efetivamente, como digo, haver aqui um diagnóstico social não só do concelho, mas do território, e perceber se há capacidade para ir replicar este processo através das comunidades intermunicipais, através de outros instrumentos, de outras entidades.

Mas neste caso concreto, no que diz respeito ao desporto para pessoas com deficiência, ou nesta lógica que o próprio IPDJ tem procurado também promover do desporto para todos… É exatamente conseguirmos dar resposta a todas aquelas pessoas e, neste caso concreto, os pais que têm os seus filhos altamente debilitados, e que normalmente o Estado Central não tem uma resposta dedicada. Portanto, aqui o poder local, e neste caso concreto, também com as próprias IPSS e com as entidades que trabalham com este tipo de crianças, de conseguirmos ir dando resposta. Esperemos que cada vez mais haja cada vez menos pessoas que nos procurem, porque o ideal era termos cada vez menos pessoas, não é? Mas, infelizmente, a realidade tem-se revelado. Nós começámos com 6, de 6 passámos para 9, de 9 passámos para 14, de 14 passámos para 18, e hoje já temos 22.

Foto: CMA

Desporto inclusivo confere respostas e oportunidades a crianças portadoras de deficiência

O programa municipal de “Desporto para Todos” inclui práticas de promoção da atividade física e da psicomotricidade para crianças que, por razões diversas, nem sempre encontram as respostas aos seus contextos sociais, anseios, necessidades e ao seu potencial, destacou o presidente da Câmara de Abrantes.

Manuel Jorge Valamatos descreveu o mesmo ao nosso jornal, em reportagem realizada dois meses após o início do programa, como um “projeto muito relevante”, com o objetivo de “conseguir integrar os jovens do nosso concelho, até aos 6 anos de idade e que têm uma deficiência com mais de 60% [de incapacidade]”.

Através da natação, da psicomotricidade e da hipoterapia, o município abrantino procura a promoção da igualdade de oportunidades motoras, às crianças portadoras de necessidades especiais, contribuindo assim para o seu desenvolvimento motor e cognitivo, explicou o autarca.

“Através destas três áreas, os nossos jovens passam a fazer alguma atividade física o que, por sua vez, permite que estes possam avançar e até, quem sabe, enquadrar processos desportivos competitivos”, afirmou.

VÍDEO/REPORTAGEM

Depois de uma experiência-piloto, para oito alunos identificados pelo sistema escolar, com necessidades específicas, de dezembro de 2021 até julho de 2022, tornou-se possível a estas crianças obterem apoio motor ao nível da natação, através dos professores da Escola Municipal de Natação; da psicomotricidade e da hipoterapia, com o apoio do RAME – Regimento de Apoio Militar de Emergência.

A ideia que serviu de mote para a criação do projeto é a de “olhar para as crianças, neste caso em particular, as que têm problemas de deficiência, com um grau bastante significativo e conseguir criar condições e uma estratégia de adaptar condições para que estes jovens possam fazer a sua atividade física da mesma forma que todos os outros jovens o fazem”, afirmou Manuel Jorge Valamatos.

Foto: Jéssica Filipe/mediotejo.net

“A Câmara de Abrantes é transversal no que ao desporto diz respeito”, notou, por sua vez, Nuno Gomes, assessor do desporto da autarquia abrantina. “Nós temos uma oferta desportiva que atinge desde os 8 aos 88 anos, qualquer pessoa que queira praticar desporto”. O projeto iniciado em 2021 procura dar resposta a algumas das necessidades apontadas pelo município.

“Há crianças que devido a serem portadoras de uma qualquer patologia, estavam privadas de ter um desporto. Ou seja, uma criança que precisa de um trabalho individual não poderia ter natação enquadrada em grupo ou praticar qualquer desporto”, explicou Nuno Gomes.

“Nós desenvolvemos estratégias, de forma a poder dar resposta a este tipo de crianças, residentes [ou estudantes] no nosso concelho”. Assim surgiu o “Abrantes Desporto Inclusivo”, deu nota.

Em dezembro de 2021 arrancou a fase de teste piloto com crianças referenciadas pelo serviço municipal, onde foi procurado “criar e verificar nos relatórios o que dizia a patologia e quais eram as necessidades motoras para essa criança (…), para ver se realmente conseguíamos dar resposta”, esclareceu o assessor, acrescentando que “não queríamos fazer por fazer”.

Podem frequentar a iniciativa todas as crianças, até aos 6 anos, que tenham um grau de incapacidade igual ou superior a 60% ou, ainda, crianças com prescrição médica que, devido às suas dificuldades motoras, cognitivas, intelectuais ou outras, necessitam de um modelo de participação paralelo ou específico.

A singularidade do programa reside no facto de o trabalho ser realizado na metodologia de um para um. Todas as aulas são de acompanhamento individual, ou seja, um professor trabalha com um aluno, sendo que é responsabilidade do município de Abrantes investir na formação específica dos professores envolvidos neste Programa Municipal de Desporto para Todos.

Nuno Gomes explica que “uma criança tem natação com um professor, uma criança tem psicomotricidade com um psicomotricista e uma criança tem hipoterapia com um cavalo, um terapeuta ocupacional e com o condutor do cavalo”, o que torna o “desafio mais aliciante”.

Este é um programa sem encargos para os encarregados de educação, que se desenvolve uma a duas vezes por semana, entre os meses de setembro e julho, contando com a colaboração da Federação Portuguesa de Desporto para Pessoas com Deficiência (FPDD), que dá formação aos professores envolvidos no “Abrantes Desporto Inclusivo”.

Foto: Jéssica Filipe/mediotejo.net

O projeto que procura proporcionar o acesso a habilidades motoras específicas e direcionadas conta ainda com o apoio de instituições abrantinas, nomeadamente o CRIA (Centro de Recuperação e Integração de Abrantes), o CAPTA (Centro de apoios, psicologia e terapias de Abrantes) e a ELI (Equipa de Intervenção Local/Abrantes) que desempenha um importante papel na referenciação dos alunos sinalizados.

No início de cada ano letivo, as crianças que necessitam de apoio especializado são identificadas, de acordo com os requisitos estabelecidos, em articulação com os estabelecimentos escolares e Divisões do Conhecimento e e de Intervenção Social do Município de Abrantes. Após avaliação técnica é prestado um apoio especializado, de acordo com as necessidades identificadas.

“Nós temos procurado (…) através da própria rede educativa, dos agrupamentos escolares, das entidades gestoras dos programas educativos, do nosso serviço de desporto e em articulação com os nossos serviços de educação, encontrar e sinalizar todas as situações de jovens que tenham estas características para que possamos ter esta oferta e responder àquilo que são os interesses das nossas famílias. Para que estes jovens portadores de deficiência possam ter o mesmo enquadramento de todos os outros”, explicou Valamatos.

Os alunos do programa podem usufruir de um, dois ou dos três projetos, que decorrem em horário pós-letivo, em que se incluem fins de semana, em períodos de 45 minutos. Após o início do teste piloto, o projeto foi dado a conhecer publicamente em setembro de 2022, integrando 7 crianças na fase inicial.

Para o assessor do desporto, apesar da grande envolvência desportiva existente no concelho, foi criado um “programa que estava em falta, não só no nosso concelho, mas no nosso concelho conseguimos dar essa resposta”. O objetivo não é trabalhar a criança ao longo do ano, mas sim dotá-las de autonomia para que possam praticar qualquer atividade física de forma coletiva, explicou.

“Durante a fase do teste piloto, duas crianças que tiveram a hipoterapia, psicomotricidade e natação na lógica do trabalho de um para um, ganharam autonomia para praticarem uma qualquer atividade desportiva de forma coletiva. (…) Depois foram incluídas, porque os pais quiseram que eles continuassem a ter natação, em aulas de grupo”, disse Nuno Gomes.

Sob o olhar atento do município, as aulas têm continuado a decorrer e o assessor do Desporto conta que o feedback que têm recebido é comum a todos os pais.

“Nós assistimos às aulas, falamos com os professores e basicamente há um tronco comum no que os pais dizem, é que é um projeto em que dificilmente eles conseguiriam ter esta oferta, ter este momento desportivo, se não fosse a forma como nós trabalhamos”, deu nota. “Agradecem-nos, pedem-nos é que nós consigamos trabalhar para além dos 6 anos, que consigamos trabalhar mais vezes, mas isso a seu tempo”, acrescentou.

Leonor Bento, a menina sorridente que “adora mergulhar”

Chama-se Leonor Bento e havia completado há pouco tempo os 7 anos de idade, na altura da reportagem. É uma das alunas do projeto, frequentando as aulas de psicomotricidade e de natação, proporcionadas pelo programa de desporto inclusivo da autarquia abrantina.

O mediotejo.net foi assistir à aula que decorre semanalmente aos sábados de manhã. O relógio marcava as 10h00 quando Leonor deu o primeiro mergulho, sob o olhar atento da mãe. Fátima Alves contou que a filha não vinha “nos melhores dias”. Certificando-se de que Leonor se integrava no ambiente da aula, a mãe dirigiu-se para as bancadas onde, acompanhada pela avó da menina e pela filha mais velha, assistiu à aula de Leonor, na Piscina Municipal de Abrantes.

Durante cerca de 45 minutos e sempre acompanhada pelo professor, Leonor nadou, mergulhou e brincou na piscina. As atividades aquáticas foram devidamente adequadas, para permitir o desenvolvimento da sua coordenação motora, equilíbrio e da lateralidade. No final da sessão, Leonor Bento revelou ao nosso jornal o que mais gosta de fazer na piscina – “gosto de brincar (…) e mergulhar” – disse a menina de sorriso aberto.

“[A Leonor] tem falta de mobilidade do lado direito, porque ela nasceu de 24 semanas. Teve outros problemas, foi operada ao coração, teve um AVC e derivado ao AVC, que foi do lado esquerdo, o lado direito dela ficou… não ficou inutilizado, mas no início pensavam que ela ia ficar tipo um vegetal, foi a informação que passaram para nós”, explicou a mãe.

Mas, “felizmente”, o cenário mudou e Leonor hoje “anda, faz as coisitas dela à maneira dela e ficou com falta de mobilidade do lado direito”.

A batalha da família, que reside na Bemposta, passa agora por desenvolver competências e habilidades, de forma a permitir a autonomia da criança, para que “ela consiga fazer as coisas dela”, explicou a mãe.

No dia a dia as dificuldades vão surgindo, mas a família tenta sempre dar a volta por cima, apontou Fátima. “Hoje traz um colete vestido, por exemplo, porque é mais fácil ela mover-se e na escola não precisa de se despir, uma vez que depois ela não consegue vestir o casaco sozinha e para não pedir ajuda, ela acaba por andar o dia inteiro com ele vestido”.

Além disso, também o mobiliário escolar se constitui como uma dificuldade para Leonor. “Não há coisas adaptadas a ela, eu tive de levar um banquinho para ela por os pés, por exemplo, porque o mobiliário é para crianças do tempo, ditas normais. Ela também é normal, mas pronto, as dificuldades vão aparecendo e temos de dar a volta por cima”, sublinhou Fátima.

Carlos Marcão tem 26 anos e é professor de natação no Complexo de Piscinas de Abrantes há dois anos. Em 2022 integrou o projeto e contou à nossa reportagem que tem sido um verdadeiro “desafio”.

“Todos os dias é uma aprendizagem nova, é super enriquecedor. É aprendizagem tanto para a Leonor e outros alunos que tenho como para mim”, revelou ao mediotejo.net.

O convite para integrar o programa “Abrantes Desporto Inclusivo” surgiu da parte de Nuno Gomes, assessor do desporto da CMA, explica o professor, que teve formação específica nas áreas de intervenção. “Foi um convite feito da parte do Nuno, foi um desafio e está a superar as expectativas, está a correr lindamente”, deu conta Carlos Marcão. “Tivemos formação específica na área dos alunos com necessidades especiais, nas várias vertentes, nos alunos com autismo, alunos com hiperatividade…”, acrescentou.

A maior dificuldade é saber como o aluno vai chegar no dia da aula, explica Carlos. “Nem sempre há um padrão, uma vez vêm com mais vontade de trabalhar, outras vezes mais focados, menos focados. Eu acho que é um bocadinho por aí, perceber como é que é a dinâmica e também vai sempre acabar por condicionar a dinâmica da aula”.

O projeto “Desporto Inclusivo” tem dado frutos e são já notórias melhorias no desenvolvimento de Leonor. “Temos agora este projeto da Câmara e temos visto as melhorias dela. Ela também vai à psicomotricidade a nível do equilíbrio. Agora tem-se notado diferenças”, conta a mãe.

“A nível do equilíbrio, a nível de mais mobilidade, apesar de haver coisas que sabemos que à partida não vai adquirir como outra criança, mas já mexe mais e estamos a gostar”, acrescentou.

Foto: Jéssica Filipe/mediotejo.net

Carlos Marcão tem acompanhando o desenvolvimento da pequena Leonor. Quanto às principais evoluções, nota uma criança cada vez mais focada. “Hoje estava a falar com a Fátima [a mãe] sobre isso após a aula e eu acho que a nível de foco noto bastante diferença. Ao início era difícil manter sempre a Leonor focada na tarefa, hoje em dia é muito mais fácil. Hoje foi a prova disso, correu super-bem”, destacou.

Quanto ao futuro, Carlos Marcão conta que os planos passam por “continuar o projeto, novos alunos, novos desafios. É um bocadinho por aí”.

Para a mãe da criança, a oportunidade de fazer parte da iniciativa “caiu do céu”, num momento em que a família desesperava por não encontrar respostas no Sistema Nacional de Saúde.

“Sinceramente não sei como é que veio, mas caiu do céu. O médico disse que ela provavelmente seria hiperativa, só que ficou em lista de espera para fazer a avaliação no Serviço Nacional de Saúde. Entretanto, como não éramos chamados, fui a pagar e foi a psicóloga que enviou os dados da Leonor para a Câmara, para alguém do projeto, e os senhores contactaram-me e aceitámos logo”, disse Fátima Alves.

Leonor Bento frequenta também a fisioterapia, realizada no Hospital de Abrantes, mas que representa um encargo financeiro elevado para a família que tem também uma filha mais velha.

“Temos de ser nós a pagar os tratamentos. Vamos à fisioterapia, tratamentos intensivos, mas são pagos (…), só que também são 45 minutos e vamos embora. São crianças que às vezes não colaboram e agora com esta parte da hiperatividade está a ser mais difícil, porque com o crescimento ela está a ficar mais irrequieta”.

Foto: Jéssica Filipe/mediotejo.net

Pela filha, Fátima não baixa os braços, mas aponta um cenário que “está a ficar mais complicado”. “Começamos a não conseguir dar conta do recado e falo por mim, porque vou sozinha a consultas e tratamentos e é muito difícil, é cansativo. Ela não dorme, são crianças diferentes e vamo-nos adaptando, mas o cansaço também toma conta de nós”, conta a mãe, preocupada.

Num momento em que os apoios do Estado se revelam insuficientes, a ajuda prestada pela Câmara Municipal de Abrantes à família de Leonor tem sido fulcral.

“A nível de Estado não temos mais nada e esta parte da Câmara agora caiu do céu mesmo. Para nós caiu e para os outros pais também, porque não encontramos respostas no Serviço Nacional de Saúde, que à partida devia dar”, afirma. “Por muito que os profissionais se esforcem, não têm condições nos sítios, porque são crianças diferentes e as condições são diferentes”.

A mãe de Leonor conta que o “Abrantes Desporto Inclusivo” veio ajudar a colorir um cenário que, à partida, se afigurava cinzento. Agora, prestes a terminar o projeto, Fátima manifesta o desejo de que o mesmo seja alargado para crianças mais velhas. “Esperemos que a Câmara de Abrantes continue este projeto para crianças de mais idade”, suspirou.

O limite de idade estipulado para os 6 anos é um fator que tem colocado vários anseios e preocupações aos pais e encarregados de educação, mas Nuno Gomes refere que este é um programa que “ainda não está fechado, é um programa (…) singular, mas nós também estamos aptos a ouvir quem nos possa ajudar a melhorar”.

Manuel Jorge Valamatos falou que 2023 seria o “ano de consolidação deste projeto”, tendo assegurado que, “daqui para a frente, continuaremos a acompanhar estes jovens até à fase adulta, sem os largar e ir todos os anos colocando novos jovens no processo”.

A ideia é que haja um “processo de acompanhamento e levar os jovens com deficiência desde o processo inicial até eventualmente à fase competitiva, se for caso disso”, indicou o autarca.

Renato Damas, o menino de 5 anos que é “um verdadeiro guerreiro”

Telma Damas tem 33 anos e é mãe da primeira criança a integrar o projeto piloto, iniciado em 2021. Ao nosso jornal, explica no início de 2023 que o Renato “tem uma doença genética, uma perda de genes no cromossoma 18”, fator que o leva a ter algumas patologias associadas como a epilepsia “que neste momento está controlada, não toma sequer medicação” e o autismo, o que faz com o Renato tenha “muitos comportamentos típicos de um autista”, explicou.

No futuro, a doença de Renato poderá vir a estar na origem de outros problemas, mas no momento, a criança de 6 anos está “saudável”, contou Telma. “O Renato está saudável, o problema acaba por ser neurológico, o que o limita em muitas coisas, tais como a comunicação. O Renato ainda não fala, a perceção de realidade, o comportamento…”.

Foto: Jéssica Filipe/mediotejo.net

“Eu confesso que tenho calhado com as pessoas certas”, começou por referir a mãe, o que tem ajudado a aliviar algumas das dificuldades com que os pais de crianças com necessidades especiais se deparam no quotidiano. “Na escola são incríveis, excecionais, super-inclusão (…), acarinhado pelas crianças que entendem que ele não é igual a eles”, refere Telma.

No que diz respeito aos encargos financeiros, a família de Renato Damos tem conseguido alguns apoios por parte do Estado. A nível particular, a mãe diz que a criança teria mais oportunidades, porém representaria um acréscimo das contas ao final do mês.

“Tenho noção de que se eu fosse para particular acabava por ter mais coisas. Tinha de ter muitas mais despesas, mas teria terapias com mais frequência. Eu teria que deixar de trabalhar como muitas outras mães que nestes casos têm que deixar de trabalhar para ter disponibilidade para ir com os filhos às terapias necessárias”, disse Telma.

Foi aos 8 meses de vida que chegou o diagnóstico. Após um episódio de espasmos e uma ida à Estefânia, Renato Damas foi diagnosticado com epilepsia. “A partir daí começaram a pesquisar, à procura do que é que se passaria com o Renato”, explicou Telma.

Na altura a frequentar o pré-escolar, Renato iria permanecer mais um ano até adquirir “competências para o ensino primário”, disse Telma. “Tem estado lá desde sempre e sempre muito acarinhado. Esforça-se cada pessoa daquela escola, desde a educadora à diretora à cozinheira, toda a equipa é fantástica. O Renato está rodeado das pessoas certas”.

As dificuldades prendem-se, sobretudo, com a comunicação. “O Renato ao não comunicar nada, torna-se muito difícil”, disse a mãe.

“É muito angustiante para uma mãe, quando tem um filho com febre e não sabe se tem dor de cabeça, se tem dor de ouvidos ou de garganta. Ele não manifesta nada do que possa estar a acontecer com ele e é difícil para mim essa parte de ele não comunicar, não diz que tem fome, não diz que tem sede”, conta Telma.

A oportunidade de integrar o projeto pioneiro da Câmara Municipal de Abrantes surgiu pelo facto de a criança já estar sinalizada. “Como o Renato já estava referenciado a nível da equipa de intervenção precoce, foi daí. Penso que tenha havido uma chamada de alguém da Câmara (…) e tudo o que haja que possa ser proveitoso eu vou e mesmo que não seja proveitoso, vamos experimentar, vamos ver no que é que dá”, afirma Telma Damas.

O Renato frequenta também a psicomotricidade e vai começar a hipoterapia pela família, uma fase “muito aguardada”. Os impactos no desenvolvimento da criança são notórios e a mãe não esconde a felicidade.

“Eu noto no Renato, então a nível da natação é onde eu noto mais. Penso que o Renato não tem bem a noção da profundidade e a nível de degraus ele fica com muito medo. Ele tem ali quase como se fosse o síndrome vertiginoso (…), porque o Renato até mesmo ao colo, ele tem de estar direito. Fica muito assustado, pensa que vai cair”, explica.

Foto: Jéssica Filipe/mediotejo.net

“Na natação eu noto bastante que o facto de ele levantar as pernas e flutuar é fantástico. Jamais, o Renato quando levanta o pé do chão fica muito tenso, muito assustado e na piscina consegue-se perceber que ele relaxa”, conta a mãe.

Pela primeira vez desde o início do projeto, o Renato subiu as escadas da piscina sem qualquer tipo de apoio, um momento acompanhado pelo mediotejo.net. “O subir e descer escadas na piscina, foi hoje a primeira vez que ele subiu sem ajuda e é uma conquista enorme. Não se vê evoluções a curto prazo, com o Renato vê-se evoluções a longo prazo, mas vê-se”, disse a mãe, em fevereiro de 2023.

“Eu acho que o Renato quis mostrar que tinha vitórias e mostrar que ele é um guerreiro, porque ele é mesmo um guerreiro. E se nós olhássemos para trás, aos 8 meses quando tudo isto começou, o cenário era muito feio e olhar para ele hoje… ele supera as expectativas todas”, afirma.

Visivelmente emocionada, Telma fala de Renato como uma criança “superinteligente” e rodeada de amor. “Ele não fala nada, mas ele é superinteligente, o Renato sabe ler. Estas coisas fazem com que acreditemos que o dia de amanhã vai ser melhor, ele vai surpreender, ele vai conseguir. Eu acho que o que move muito estas crianças é o amor e ele está cheio de amor”.

Quanto ao futuro, o caminho ainda não está traçado, mas com o Renato “é um dia de cada vez”. No entanto, Telma não esconde os anseios sobre a chegada do fim do projeto para a criança então com 5 anos, prestes a completar os seis.

“Confesso que ainda não tinha pensado em nada disso, porque para mim o Renato é uma criança que tem 3 anos. O Renato vai fazer 6 anos, mas o Renato continua a ser um bebé para mim e eu ainda não me tinha apercebido que está a chegar os 6 anos e que este projeto termina”.

“Não pensei nada, nem o meu marido se apercebeu disso, não falámos de nada sequer, porque para nós o Renato precisa e seria continuamente até que ele precisasse”, acrescenta Telma.

“O Renato tem uma incapacidade de 80%, não é uma incapacidade leve e, infelizmente, é grave. Acabamos por precisar muito mais tempo, mas lá na altura resolve-se, porque agora não sei”, concluiu a mãe daquela que foi a primeira criança a integrar o projeto “Abrantes Desporto Inclusivo”.

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A iniciativa é composta por três áreas de intervenção: a natação, a psicomotricidade e a hipoterapia. A natação realizada uma vez por semana, onde os alunos realizam um conjunto de atividades aquáticas adequadas e que permitem melhorar os níveis de coordenação motora, do equilíbrio e da lateralidade.

A psicomotricidade, realizada também uma vez por semana, contribuindo para que os mais novos tenham consciência e autodomínio do próprio corpo, do equilíbrio, da orientação espacial e temporal, da capacidade de comunicação e exteriorização do pensamento e da regulação das suas emoções nos diferentes contextos sociais.

O projeto integra ainda a hipoterapia, realizada na periodicidade quinzenal e que recorre aos movimentos do cavalo para a (re) educação terapêutica.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

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