Aprender a reconhecer uma emergência, pedir ajuda e iniciar manobras de Suporte Básico de Vida (SBV) pode fazer a diferença entre a vida e a morte. Em Abrantes, esse conhecimento está a chegar cada vez mais cedo às escolas através do projeto “Mãozinhas que salvam vidas”, uma iniciativa conjunta da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Abrantes (AHBVA) e do Rotary Club de Abrantes, com o apoio da Câmara Municipal e dos agrupamentos de escolas do concelho.
Mais do que uma ação pontual, o projeto assume-se como um investimento na cidadania e na vida. “Celebrar a vida é celebrar o nosso maior bem e a escola é o melhor espaço para ensinar aquilo que é o básico dos básicos: salvar vidas”, sublinha Nilsa Rito, da AHBVA.
Implementado no concelho de Abrantes, com financiamento municipal, o programa aposta na formação de alunos do 1.º, 2.º e 3.º ciclos, incidindo concretamente nos 2.º, 4.º, 6.º e 8.º anos de escolaridade. A escolha não é aleatória.
“Há bases científicas que nos dizem que entre os 4 e os 12 anos é a melhor idade para reter estes ensinamentos e marcar a diferença mais tarde na sociedade”, explica.

A estrutura do projeto assenta numa parceria clara: as escolas disponibilizam os alunos, a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários assegura a formação, os recursos humanos e materiais, enquanto o Rotary Club de Abrantes assume a responsabilidade institucional do projeto. A Câmara Municipal de Abrantes garante o protocolo e o financiamento necessário para a sua concretização.
Além da formação direta aos alunos, o projeto aposta fortemente na capacitação dos professores, para garantir continuidade. “Formamos os docentes para que eles próprios possam formar os seus alunos e assim chegarmos mais longe e a mais crianças”, refere Nilsa Rito. Ao todo, já foram formados 62 professores, habilitados a transmitir estes conhecimentos ao longo de cinco anos.

Os números refletem o alcance da iniciativa: 1098 alunos dos 2.º e 4.º anos e 1201 alunos dos 6.º e 8.º anos já receberam formação em Suporte Básico de Vida. Paralelamente, foram adquiridos equipamentos específicos de SBV que ficaram ao serviço da associação e continuam a ser utilizados nas ações do projeto.
Apesar dos resultados positivos, o percurso não tem sido isento de dificuldades. Nilsa Rito lamenta situações recentes em que ações planeadas não se concretizaram. “Chegámos à escola com um grupo de voluntários e as professoras tinham marcado um mercadinho em cima da ação. Tivemos de voltar para trás. Ver as crianças a olhar para nós e não poder fazer a formação foi profundamente triste”.

Ainda assim, a motivação mantém-se firme. Para o próximo ano letivo, 2025/2026, o objetivo passa por voltar a abranger os alunos dos 2.º e 4.º anos, garantindo que, em dois anos, toda a comunidade escolar dos três ciclos tenha contacto com o SBV. Está também a ser preparada a realização de dois grandes “master trainings” para alunos dos 6.º e 8.º anos, envolvendo simultaneamente voluntários, formadores e um elevado número de participantes.
“Sabemos que os professores transmitem os conteúdos, mas não são profissionais da área. Queremos complementar isso com grandes momentos formativos, que marquem verdadeiramente os alunos”, explica.

No centro de tudo estão os voluntários, homens e mulheres que dedicam tempo, conhecimento e disponibilidade sem procurar reconhecimento.
“São as caras anónimas que ensinam as nossas crianças, um dia, a salvarem-nos a nós”, afirma Nilsa Rito, defendendo também a importância de um momento de reconhecimento público para quem integra o projeto.
Mais do que técnicas, o “Mãozinhas que salvam vidas” procura transmitir valores. “Estas mãozinhas representam mais do que um gesto técnico. Representam cuidado, responsabilidade coletiva e amor ao próximo”, conclui.
