Chama-se Diana Serrano, tem 22 anos e é natural do Pego, concelho de Abrantes. Está empenhada em fundar o seu próprio negócio, mas tem projetos em grande para o futuro. Sempre quis estudar mais, ir para a universidade, mas sem possibilidades monetárias para o fazer, descobriu no amor aos animais uma janela para poder melhorar a qualidade de vida destes e dos seus donos, disponibilizando-se para ser sua pet sitter. E que termo é este e em que consiste em concreto? Como reage a comunidade a esta nova tendência em torno da causa animal? O mediotejo.net foi saber o que move esta jovem empreendedora nesta missão de quatro patas.
Sempre teve hamsters quando era mais pequena, e praticamente “obrigava” a mãe a comprar novos substitutos assim que algum morria. Facto curioso é que, Diana, sempre teve muito medo de cães, por saltarem ou serem agitados. Mal sabia Diana que o motivo que a levaria a perder esse receio seria… um cachorrinho.
“Tinha um medo de cães que me pelava… e a minha mãe também nunca quis ter um. Depois, certo dia em que acompanhei a minha mãe num serviço ao domicílio, pois é enfermeira, essa senhora tinha uma cadela muito querida, fofinha, toda peluda. E a senhora referiu que ela estava grávida e que, se eu quisesse, me dava um”, contou, recordando esse dia e a resposta afirmativa.
Certo dia, numa caixa, chegava-lhe “um cãozinho super pequenino”. “E foi o momento que mudou a minha maneira de me dar com os animais… porque é diferente ter um peixinho, ou um hamster, e depois passar a ter um cão e vê-lo crescer. Foi algo que me fez gostar muito de animais e começar a perceber que os cães não me faziam mal algum. Depois tive gatos”, e hoje tem três cães seus: Nikita, Rami e Bolota. E um gato. E todos os demais que precisaram ser acolhidos e depois reencaminhados para adoção.
Voltando à conversa, Diana contou que surgiu a oportunidade de ir fazer o curso de auxiliar de clínica veterinária, andava Diana já a trabalhar e naquela altura conseguiu pôr dinheiro de lado, com apoio da mãe, que a incentivou a avançar.
O curso funcionou em b-learning, mas a certa altura Diana apercebeu-se que a sua formadora era de Abrantes, o que diz ter facilitado o processo.
“Comecei muito mais cedo a estagiar, a ir para a clínica e a ter contacto com os animais, eu própria já tinha uma cadela, embora neste momento já tenha três cães e um gato, e mais um cão que estou a tomar conta, em FAT [família de acolhimento temporário] e que está para adoção”, foi contando, ainda tímida.
Entretanto Diana já cuidou de uma ninhada de seis pequenos cachorros, tendo conseguido um lar para todos eles até início deste ano, e a sua ligação ao bem-estar animal vai-se revelando forte no desenrolar da conversa.
Esta dedicação e apoio aos animais mais necessitados surgiu pelo interesse de Diana, ao aperceber-se da importância da reabilitação, tratamento e acompanhamento dos animais.
“Durante o estágio notei nas pessoas uma necessidade, para quando estão fora ou passam muito tempo a trabalhar, de procura sobre onde deixar os animais e com quem os podem deixar. Pessoas que pediam se os animais podiam ficar mais tempo na clínica, para poderem ir trabalhar e depois irem buscá-los”, referiu, recordando a sua experiência durante a fase prática do curso.
“Como eu sabia que, quando acabasse o estágio, muito dificilmente teria emprego na área, pelo menos de imediato, decidi tentar fazer algo mais pessoal”, introduziu, justificando a criação da sua empresa e do projeto Único Pet.
“Aprendi a fazer tosquias, entre outros cuidados básicos, e comecei a tentar fazer aqueles serviços que não havia na minha zona. Desde tosquias e banhos ao domicílio, pet sitting,…”, enumerou.
Reconhecendo a variedade de ofertas que já surgem nas grandes cidades, nomeadamente Lisboa e Porto, Diana assume que, assim que começou a ter uma procura mais ativa, notou a existência de dois tipos de pessoas no que ao tratamento dos animais diz respeito.
“Há pessoas que realmente precisam e telefonam, e tentam entrar em contacto e gostam do serviço. E depois temos aquelas pessoas que acham muito estranho ter alguém a tomar de animais de estimação na casa deles, acham uma atividade muito estranha. Assim como pagar uma estadia de um animal num hotel, acham que é tudo muito caro, e o mesmo acontece por pagar para alguém levar o animal a passear…”, afirmou, considerando ainda que, na sua opinião, “as pessoas mais novas consideram cada vez mais os cães e os gatos como membro da família”, o que diz não acontecer tanto com faixas etárias mais velhas.
Por enquanto, Diana ainda não foi surpreendida com prestação de serviços a nenhuma espécie fora do comum, o público-alvo têm sido gatos e cães. Mas afirma, confiante, que apesar de não ter grande conhecimento quanto a animais exóticos, não se importaria “de cuidar de uma iguana ou semelhante”, mostrando-se sempre interessada em querer aprender mais e mais, nomeadamente através de troca de experiências com colegas da sua área.
Neste sentido, a jovem acredita que é “uma mais-valia” tentar manter ligação a outros profissionais da área e a clínicas veterinárias, e manter projetos em parceria, “adoro trabalhar com pessoas que gerem os canis, têm um conhecimento prático muito grande”.

O voluntariado, a causa animal e a ADACA
Além do seu projeto, tem-se preocupado em tentar acordar consciências para as dificuldades sentidas no âmbito do voluntariado animal. Diana, que mantém contacto com a ADACA, associação responsável pela gestão do canil intermunicipal de Abrantes, Constância e Sardoal, em Chainça, tem noção que é preciso fazer mais e melhor. Mas para isso, falta o essencial: mão-de-obra disponível ao máximo, responsável e voluntária.
A certa altura, começou a procurar formas de ajudar, de estimular este “movimento”, como que esperando contagiar outros amantes de animais para apoiar esta causa que, ultimamente, parece estar meio adormecida, no seu ponto de vista.
Depois de uma feira canina, com cãominhada, desfile de cães, alguns animais para adoção, artesanato e até animação musical, Diana foi-se munindo de estratégias, todas diferentes, mas todas dirigidas à causa: os animais.
Uma campanha crowdfunding veio ajudar a pagar despesas veterinárias, quer em cirurgias, quer em medicamentos, e até esterilização e castração de animais, tendo ultrapassado o limite estipulado pela plataforma, e conseguiu a colaboração de empresas e particulares da região e não só.
Entretanto, servindo-se das redes sociais, criou o projeto 4 patas por aí, “para tentar que não caia no esquecimento esta necessidade” e o espírito do voluntariado na causa animal na região, nomeadamente no apoio às associações de defesa dos animais.
“Além da limpeza, há um monte de atividades que se pode fazer, coisas que as pessoas se podem voluntariar para fazer. Acho que ainda não há esse conhecimento, esse despertar para…”, disse, lembrando que “existe tanto trabalho na gestão do canil, que acaba para não sobrar tempo nem meios para fazer divulgação ou comunicação sobre o que acontece, passando mensagem sobre as necessidades e apelos urgentes”, motivo que levou recentemente Diana a tirar um pouco do seu tempo para criar um novo site e um novo blogue para a ADACA.
A jovem acredita que a vontade basta para apoiar causas como esta, e no caso de apoio no canil municipal o mesmo sucede. “Bastava reunir-se um grupo de amigos, e numa onda de descontração, sem sentido de obrigatoriedade, irem até lá uma hora ao fim de semana brincar com os animais, ajudar nos tratamentos, ou simplesmente trazê-los a passear à trela. São tantos, que acho que alguns ficariam tão contentes por poder contactar com a rua, sair daquele ambiente de todos os dias…”, terminou.
Fora da caixa: workshops dedicados ao cuidado dos animais de estimação
Ideias não faltam a Diana Serrano, e aproveitando esta onda de entusiasmo, começou por realizar um workshop em dezembro de primeiros socorros para animais, “uma experiência diferente”.
Diana contou-nos que o workshop “era para ter demorado duas horas, demorou muito mais, porque acaba por haver aquela partilha de conhecimentos, de experiências. E o facto de estarem presentes pessoas muito diferentes, desde pessoas com cães de competição, aos simples donos de um cão que é companheiro de casa, e haver pessoas que gerem o canil da Ponte de Sor e o canil de Abrantes, com conhecimento muito diferente do que se faz numa situação de urgência”, referiu. “Parece que nunca há falta de explicação”, confirmou, sorridente.
A ideia é continuar a fazer sessões do género, diversificar os temas. “Ir também ao tema da alimentação, porque as pessoas têm que começar a aprender e devia ser ensinado bons hábitos e cuidados caso a caso, mediante o animal em questão e as suas caraterísticas”, porque para Diana “cada cão é um cão”.
“Tomei conta de uma cadela há pouco tempo que só bebia leite e comia patê. O que se torna muito estranho, pela noção óbvia de que os cães só comem ração e bebem água… mas aquele animal tinha aquele regime”, recordou.
No caso da sua cadela, Nikita, com quase 8 anos, Diana nota a dificuldade que é controlar a quantidade de comida após uma cirurgia de esterilização e da necessidade de o fazer. “Esta cadela teve uma piómetra, teve de ser esterilizada, engordou. Engordou imenso! E o segredo agora é saber controlar o peso. Porque não é bom terem excesso de peso. É bom consciencializar as pessoas que, tal como nós, humanos, o excesso de peso pode trazer consequências graves, para os animais a diferença de um quilo tem uma diferença brutal em algumas raças”.
A qualidade da alimentação também é fator preocupante para Diana, nomeadamente pelas caraterísticas dos proprietários de animais de estimação em meio rural. “Falamos de uma população muito idosa, com ideias muito fixas e muito tradicionalistas. Cujos hábitos acabam por ser originários de outras gerações. Por exemplo, em caso de intoxicações, havia quem dissesse que se dava azeite aos cães, e há quem continue a fazê-lo. Porém, é preciso explicar que não é isso que se faz, pois não vai fazer nada. É bom que as pessoas adiram. Mas é difícil levar as pessoas a aderir a uma ideia nova, nesta região noto essa dificuldade”.

Projeto de criação de um hotel para animais de estimação
“Sei que as pessoas precisam, mas até que ponto as pessoas vão aderir? Eu sei que o meu trabalho, ao abrir o hotel, é ensinar as pessoas sobre a importância deste projeto. Tenho ideias de começar a introduzir esta temática junto das escolas, começar pelos mais novos, recordar o porquê de ser importante tomar conta dos animais de uma forma contínua e correta”, começa por contar, desvendando um pouco dos seus projetos para o futuro.
Diana acha que o caminho passa mesmo pela instrução. “Acho que sem esta instrução, as pessoas nunca vão perceber porque é que é de facto importante o animal ser seguido por um veterinário, todas necessidades e serviços que as pessoas, cada vez mais, têm curiosidade em experimentar ou saber do que se trata, mas há que impulsionar um bocadinho mais”.
“Cada vez mais trabalhamos mais horas. E as pessoas querem estar com as suas famílias, aproveitar o seu tempo ao máximo, e muitas vezes não há tempo para, no meio desta rotina, cuidar do cão de forma minuciosa. Gostava de fazer ver às pessoas, através deste meu projeto, que há quem possa fazer esse trabalho. Há quem tome conta do animal enquanto os donos não estão em casa, e que o animal não precisa estar sozinho, especialmente se for um animal que precisa de tratamento específico e regular”, explicou, contando um pouco sobre o que é ser pet sitter.
“Há situações muito complicadas, já fui fazer duas tosquias em que os cães, em vez de terem pêlo, parecem ter mantas em cima… E as pessoas acham que é normal. Acham que está tudo bem. Mas quando começamos a tosquiar o pêlo, sai um monte de pêlo, grotesco, e por baixo, a pele tem um aspeto pouco saudável, e nada higiénico, uma vez que não é feita higiene nas devidas condições. E eu questiono-me, como é que em pleno século XXI, as pessoas não percebem que aquilo não é bom para o animal?”, interrogou, com alguma indignação, contando ainda que já tosquiou animais sabendo que só é chamada porque os donos têm vergonha de levar o animal ao veterinário “naquele estado”.
Entretanto, o sonho de Diana foi sendo fortalecido com o seu interesse pela área da fisioterapia e tratamento, tendo já o seu primeiro caso de quase-sucesso. Falamos de Boy, um “cachorrão” para adoção com cerca de 9 meses, apesar de o seu porte médio fazer desconfiar disso. Veio do canil intermunicipal de Abrantes adoentado, tristonho e apático. Desconfiaram de parvovirose, mas o seu historial de saúde revelou-se inconclusivo, pois começou a ter um atrofio muscular associado a uma reação nervosa, que o fazia ganir intensamente ao movimentar a cabeça para um dos lados. Com Diana, o Boy foi fazendo terapia.
Quer através de exercícios físicos, quer através de boas doses de mimos e, claro está, sessões de boa educação. Ao fim de uns tempos, já sabe correr e as suas feições mudaram completamente. O verde dos seus olhos desperta agora muito mais, com o brilho de um cão que se mostra alegre, bem disposto, carinhoso e ansioso por ganhar um lar para o resto da sua vida. Isto porque o Boy encontra-se em regime de acolhimento temporário, tendo sido preparado com o seu tempo e condições, para agora estar pronto a ser adotado por alguém que esteja disposto a encontrar um fiel companheiro. E só assim a missão de Diana será completada com sucesso.

Num futuro próximo, além de pretender encontrar um bom dono para o Boy, Diana quer alcançar o seu projeto de sonho. “Um hotel com oferta de vários tipos de serviços que não existem na zona, nomeadamente no âmbito da reabilitação, o mais perto que temos será em Tomar ou Torres Novas, julgo eu”.
“Torna-se longe, e isso implica que muitas vezes ao existir intervenção cirúrgica o animal não faz a recuperação no espaço, nem pernoita, voltando para casa, muitas vezes, e os donos poderão não estar nem aptos, nem ter o tempo necessário para dedicar ao período de recuperação”, pormenorizou.
Questionada sobre os desafios, a jovem refere que o principal desafio está nas pessoas, na sua vontade de querer dar ou não importância a estes serviços e achá-los pertinentes, considerando que “o medo e o desconhecimento levam a que as pessoas não adiram a iniciativas «fora da caixa», enquanto as coisas não vão sendo mostradas como sendo algo natural”.
Mas Diana não é radicalista, e não considera a humanização dos animais uma opção saudável. “Humanizar um animal é algo negativo para ele, há que perceber os limites e saber tratá-lo como aquilo que é, com dignidade”, afirmou.
Os seus projetos têm bases comuns, uma vez que a jovem considera que o trabalho em conjunto, a entreajuda e a parceria fazem toda a diferença. E o sucesso de implementação do hotel e de todas as outras atividades dependerá do seu poder de ultrapassar a principal barreira imposta: a mudança de mentalidades e a responsabilização dos donos de animais de estimação e da comunidade em geral no que aos direitos dos animais diz respeito.

Muitos parabéns pelo trabalho fantástico que esta jovem tem feito pelos animais, pela sua dedicação, pelo seu empenho, é pena não haver mais pessoas assim como ela que bem falta fazem neste mundo cruel e desumano em que vivemos. Bem haja!